Com a aproximação do Dia das Bruxas quero resgatar esse antigo companheiro de casa e de fogueira que é o gato. Ele, mais do que qualquer outro bicho, sofreu com as chamas inquisitórias europeias simplesmente por ser aquilo que ele é. Principalmente os gatos pretos.
Tive um gato preto. Preta, para ser mais exato. A chamei de Nix, deusa noturna do Egito. Era filha de Nina, uma gata da amiga Cibele. Isso foi lá pelos anos de 2000. Desde então vários passaram pela nossa casa, muitos nascidos, outros adotados.
Atualemente temos Brigite e Ágata, duas pestinhas que adoram cavar o jardim, subir na mesa, deitar no colo enquanto vejo tevê ou teclo aqui com vocês.
Ágatha, a gata
E Por Que são Sagrados?
Além da ligação involuntária com as mulheres da Idade Média, podia citar a adoração que os egipcios tinham (e tem!) pelo bichano através da Deusa Bastet (e sua versão menos humorada, Sekhmet). Além dos japoneses com seu gato de boa sorte, o Maneki Neko que atrai sorte e dinheiro, mas cujo o original, dizem, salvou a vida de um guerreiro. Ou o culto ao jaguar das Américas:
"A onça faz parte da mitologia de diversas culturas indígenas americanas, incluindo a dos maias, astecas e guarani. Na mitologia maia, apesar de ter sido cotada como um animal sagrado, era caçada em cerimônias de iniciação dos homens como guerreiros." Fonte: Wikipedia.
Para o Padre Marcelo Rossi, dizem alguns sites por aí, são animais "traiçoeiros" (Leia AQUI). Opinião típica de que nunca teve gatos pois, se os tivesse saberia que nada que temos realmente os interessa para que nasça a traição.
Mas para mim são divinos porque simplesmente deitam em meu colo, me olham com tédio e cochilam.
"Como puderam jogar estes bichinhos fora?", perguntei-me olhando para Bomba, Brigitte e Aghata. Dei-me conta de que na minha casa a gente recicla bichos.
Bomba, a pincher, veio de uma série de outras casas onde apesar de seu pedigree, não se adaptou. Brigitte (na foto) foi jogada de uma moto em alta velocidade na rua e foi trazida pela minha cunhada. E Aghata estava na porta de um banco abandonada fazia dois dias.
São bichos que não tinham lar e que vieram parar em casa. Nenhum deles, ou dos outros que vieram e foram levados por Bast ou Hécate, foram comprados em pet shops. Todos eles deram e receberam muito amor e atenção e marcaram nossas vidas. Impossível dizer que são todos iguais. Cada um dos bichos (amigos?) possuía sua própria personalidade e se comunicavam conosco melhor até do que muita "gente humana", Rs!
Incentivemos a "reciclagem" dos bichos ao invés do seu comércio. Aqui na cidade ocorrem feiras de adoção no Bosque Maia e outros lugares regularmente. Lembre-se que a raça de seu novo amigo não determina o tamanho do amor que você receberá em troca deste gesto de simples de carinho e coragem.
Agatha, a recém-chegada
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É como aquele comercial! Fala que seus olhos não se enchem dágua vendo as expressões desses bichos?!
Ps. 2: não se preocupem. O bicho foi resgatado horas depois pelo dono graças às imagens gravadas pela câmera de segurança. Também por conta disso a mulher que aparece no vídeo foi acusada de maus-tratos após a divulgação do mesmo.
"Sal e água,Dentro e fora,Espírito e corpo,Sejam purificados!Eliminem tudo que seja prejudicialAbsorvam tudo o que é bom e saudável!Pelos poderes da vida, morte e renascimentoQue assim seja feito!"
A Dança Cósmica das Feiticeiras, Starhawk
A questão da purificação veio a minha mente por conta das diversas notícias e temores causados pela gripe suína. Esta doença tirou o sono de metade do planeta nos últimos meses e tem dado dor de cabeça para os órgãos como a OMS e o Ministério da Saúde.
Mas analisando as formas de contágio e as mortes é visível que esta doença não é tão grave quanto se imagina. Para se pegar a gripe você tem que tocar em algo infectado e depois em alguma mucosa sua (olhos, boca ou nariz, por exemplo) num prazo de quatro horas em média, acima deste tempo o vírus morre em condições naturais.
E sua mortandade está associada a indivíduos em condições especiais como mulheres gestantes e pessoas já debilitadas e/ ou acamadas por outros males. Pior foi a cólera no final dos anos 90. Doenças respiratórias como a tuberculose estão entre entre nós a mais tempo e têm feito mais vítimas, apesar da pouca exposição midiática. Um simples ato de lavar as mãos, ou usar álcool em gel já resolve parte do problema. Evitar contato das mucosas com as mãos sujas também. Os Antigos sabiam das coisas.
Faça como os romanos
Cálice de Hígia
Não tenho dúvida que a grandeza e longevidade de Roma se deu não só pelas suas conquistas da engenharia, filosofia, política e bélica, mas também por causa da forma com a qual tratava a relação da cidade com a saúde.
Afinal são famosos os banhos romanos, suas privadas coletivas e a requintada arte de seus aquedutos para levar o líquido preciso para as cidades. Limpeza é vida. Tanto que havia a deusa Salus, para reger a saúde dos romanos, cuja a equivalente grega era Hígia [ver AQUI].
Tirar os sapatos
Hábito muito comum em lares orientais. Nas mesquitas muçulmanas é prática corrente retirar os sapatos antes de entrar no templo. Isso evita que o ambiente seja contaminado por poeira e outros detritos em uma religião onde se reza muitas vezes ao dia.
Sempre limpamos o ambiente em que abrimos o círculo. Não só energética mas fisicamente também. Isso nos permite deixar fora os calçados e tomar contato com o solo.
Fluidos
Lembro de uma saia justa entre a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy e um representante da comunidade judaica. Durante um encontro entre os dois ele evitou o aperto de mão com medo de que ela estivesse menstruada e, portanto, impura. Outros culturas do Oriente também possuem restrições a mulheres menstruadas.
Não possuímos tais tabus e não consideramos o corpo humano primordialmente sujo. O corpo nos é sagrado, tanto o nosso como o de Gaia, e merece respeito e cuidados.
Alimentos
Há diversos tabus ligados aos alimentos. Não só sobre o que comer, mas também sobre como sacrificar e tratar os animais. As origens de tais tabus são nebulosas mas a teoria aceita é que muitas delas tenham origem sanitária, possivelmente através da observação de pessoas doentes após o consumo de certos alimentos, ou alimentos não-tratados corretamente.
Muitos pagãos são vegetarianos mas isso não é regra. Com o passar do tempo aprendemos a respeitar a comida, a vê-la não como bandejas no supermercado, mas como carne e sangue do Divino que tomba para nos alimentar desde tempos imemoriais.
Candiru
Há um tabu dos povos amazônicos sobre urinar nos rios que talvez venha do medo do candiru, peixinho parasita que, atraído por banhistas desavisados que se aliviam nas águas, entram nos orifícios do corpo para sugar o sangue de suas vítimas.
A imagem dele não é nada bonita. Recomendo usar o banheiro.
Tempos modernos
As gripes em geral são transmitidas por contato prolongado entre os animais (aves, mamíferos) e seus criadores em condições com pouca higiene. O vírus, que não é tolo, faz o salto genético e se aproveita de um incrível universo de bilhões de pessoas sem defesas para se reproduzir. A humanidade marcou bobeira!
Moramos em uma cidade de disparates, onde boa parte da população não possui saneamento básico e boa parte de seus dejetos são jogados nos córregos. Em períodos de chuvas todos estes contaminantes invadem ruas e casas.
A dengue ainda é um problema, assim como outras doenças transmissíveis por mosquitos como a febre amarela.
E até o simples hábito de lavar as mãos não é respeitado. parando para observar, muitos homens que usam o banheiro saem fazer este asseio fundamental. E quando se encontram ainda dão as mãos para se cumprimentarem! Eca!
O asseio sempre foi importante para os wiccanos na purificação ritual. Este mesmo cuidado, conosco e com o outro fora do círculo também deve ser alimentado. Isto é, sobretudo, um ato de amor.
Pense nisso.
Saúde, amizade, liberdade.
S. Thot
Ps.: Este texto apareceu no blog Alma Rubra, que reproduzo na íntegra. É de fazer pensar...
"Este alerta está colocado na porta de um espaço terapêutico:
O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as duvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza
O coração enfarta quando chega a ingratidão.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
As neuroses paralisam quando a"criança interna" tiraniza.
A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.
Preste atenção! O plantio é livre, a colheita, obrigatória ...
Preste atenção no que você esta plantando, pois será a mesma coisa que irá colher!!"
Todos os animais têm direito ao respeito e à proteção do homem.
Nenhum animal deve ser maltratado.
Todos os animais selvagens têm o direito de viver livres no seu habitat.
O animal que o homem escolher para companheiro não deve ser nunca ser abandonado
Nenhum animal deve ser usado em experiências que lhe causem dor.
Todo ato que põe em risco a vida de um animal é um crime contra a vida.
A poluição e a destruição do meio ambiente são considerados crimes contra os animais.
Os diretos dos animais devem ser defendidos por lei.
O homem deve ser educado desde a infância para observar, respeitar e compreender os animais.
Declaração Universal dos Direitos dos Animais - Unesco - 1978
A simbiose entre o ser humano e os animais é tão antiga que eu nem deveria separar entre "nós" e "eles".
Isso porque, no início, servíamos de alimento aos grandes caçadores. Depois, quando a situação se inverteu e, através do uso de ferramentas, grandes mamíferos selvagens passaram a integrar nossa dieta e imaginário.Foram e são nossos vigias, meios de transporte, alimento, vestuário. Comentei sobre isso anos atrás, sobre os Cordeiros de Deus.
Já pensou nisso?
Na tevê
Tempos atrás assisti um especial na tevê sobre pessoas que cuidam de animais aqui no Brasil. Gente que chamaríamos de loucas, pois investem dinheiro que tem e que não tem para tirar cães e gatos (e às vezes até animais maiores), das condições de abandono.
Como uma mulher que, segundo a reportagem, largou família, posição social e financeira estáveis para cuidar de dezenas de cachorros o dia inteiro, dia após dia.
Quem protege?
A resposta a esta pergunta é supercomplexa. Há um leque de pessoas que realizam ações visão o bem-estar animal, desde a mais pura e simples piedade sem maiores compromissos deixando na rua um pratinho com sobras e água aos eco-radicais do PETA. O caminho do meio é atuação de centenas de anônimos, cuidadores dos animais de rua, que atuam nas mais diversas ONGs.
Nos Estados Unidos, através da tevê, conheci a Dog Town, uma entidade que recupera cães que todos abriram mão de ajudar e que teriam como destino o sacrifício. Em Guarulhos, conhecemos a Ong Deixe Viver que faz este trabalho de remoção, esterilização e recolocação de animais em situação de rua. Composta de voluntários, faz um trabalho de formiga numa cidade gigantesca como a nossa.
Por que?
Me perguntaram por que com tanta criança na rua, alguns dedicam seu tempo aos animais. Ora, porque onça não tem sindicato, gato não tem quem brigue por ele para fazer valer os seus direitos. Se fossem deixados à margem das condições mínimas de sobrevivência, como aliás já fazemos com os indivíduos da raça humana que mundo teríamos?
As chamadas atrocidades que realizamos conosco seria o cotidiano dos seres pelo planeta. Aliás, a palavra holocausto, que tanto aplicamos para nomear as barbáries da 2ª Guerra Mundial tem justamente esta origem(do grego antigoὁλόκαυστον, ὁλον [todo] + καυστον [queimado]): é um termo vindo da época em que se matavam animais para gloria divina.
Como?
Bem, tudo começa em casa. Respondendo como leigo, eu diria que o melhor tratamento que se pode dar a um animal doméstico é não te-lo, não possui-lo. A posse pressupõe que ele é um objeto que pode se adquirido e descartado conforme a conveniência. Não, isto não se aplica. Todo animal é uma forma de consciência, e formas de consciência assim como nós, não possuem donos.
Então você não tem um animal, mas partilha de sua existência com ele. Somos sócios, amigos, parentes.E veja bem: este ser vive em um mundo que não foi feito e nem é adequado para ele, mas para nós. Tão pouco esse bicho é selvagem porque nós os moldamos ao longo dos séculos para serem nossa imagem e semelhança.
O animal doméstico está em uma encruzilhada. Como definiu minha amiga Milka durante o 5º Encontro Sobre Bruxaria em Guarulhos, o animal doméstico é como uma pessoa portadora de necessidades especiais e como tal deve ser tratada. É uma imagem diferente, não?
Eu sei, também fiquei com esta cara! Rs! Mas um pensamento mais profundo nos levará também a esta conclusão que, de tão simples, era impossível de ser enxergada.
Se você não mora na Africa, fica difícil salvar elefantes. Se não mora no litoral, de ajudar tartarugas. Mas preste atenção em sua vizinhança. Muitos seres que precisam de cuidados sobrevivem bem aí do seu lado.
Conheça a legislação, saiba o que pode e o que não pode fazer.Busque sempre ajuda de uma entidade reconhecida na defesa de animais e do poder público. Uma vez amparado na Lei, suas ações possuem efeito mais rápido e objetivo.
Se os cães falassem as língua dos homens, diriam apenas: Tudo o que eu quero é ir pra casa.
É noite e estava quente. Brigit, minha gata, e eu estávamos tomando fresca na janela, observando o céu escuro e prestando atenção aos sons da madrugada. Um pensamento veio como relâmpago: não ouço grilos!!!
Quando criança nos anos 80, morando na Vila Barros, meu quintal era meu zoo particular, com pardais, quero-queros, beija-flores, grilos, vaga-lumes, formigas, grandes besouros de asas negras e som de helicóptero, libélulas... Não gostava das aranhas (aliás, ainda não gosto!), mas elas sempre me fascinaram!
À noite era possível ouvir a sinfonia de dezenas de grilos escondidos em capins e moitas. Quando nos aproximávamos eles emudeciam. Como eu achava estes bichinhos espertos! Ah, e também tinha o som dos galos da madruga, das quatro horas em diante, que acordavam o mundo, anunciando a Aurora que chegava com seus róseos dedos a rasgar o véu da noite.
Me pergunto hoje se as crianças que jogam bolinha de gude no carpete e empinam pipa no apartamento já pegaram um vaga-lume nas mãos e se maravilharam com o fato de luz sair de uma criaturinha viva. Hmmmm... Faz tempo que não vejo vaga-lumes.
Conforto
Em nome do conforto de não ter folhas no quintal ou um pouco de terra na sala, pavimentaríamos todo o planeta, sem deixar para a terra um espacinho para que ela possa respirar e seguir seu caminho.
Acho que já escrevi aqui, mas é sempre bom dizer: uma revista especializada em aeronáutica comemorou a expansão da cidade morro acima, pois o desmatamento das árvores prejudica a formação de nevoeiros nas noites de inverno. As mesmas árvores que alimentam os mananciais e mantém viva a cidade. Mas enquanto uns choram, outros vendem lenços. É assim nosso sistema capitalista.
Surpresa
Pensamentos assim não me deixam dormir a noite, então fui para a sala, assistir tevê. Foi quando a Deusa me reservou uma surpresa: perto da porta, piscando sua luz esverdeada para mim, havia um vaga-lume.
Muitas religiões impõem a seus membros tabus alimentares em determinados períodos ou em caráter permanente:
*judeus e muçulmanos não consomem carne de porco, sendo que aos judeus soma-se a proibição de frutos do mar como ostras e mariscos. Peixe tudo bem.
*cristãos católicos não comem carne no período da Quaresma. Testemunhas de Jeová não comem derivados de sangue (até onde sei, nem mesmo transfusões de sangue eram permitidas, mas isso pode ter mudado).
Não há restrições a alimentação dos wiccanos, a não ser que estas firam o bom-senso. Muitos se relacionam com carnes e derivados em vários níveis:
*comem
*comem, mas com restrições de quantidade ou periodicidade (semanal, quinzenal, mensal)
*não comem carnes (brancas ou vermelhas), mas não recusam derivados (ovos, leite etc)
*não comem carnes e derivados. Os motivos são de ordem pessoal ou do coven, que possui autonomia para decidir tais assuntos, dentro dos princípios, caráter e objetivos do mesmo e segundo as diretrizes da Religião.
Estes pontos não são consensuais, como verá nos próximos relatos, pois não temos um "Livro Sagrado" enviado à nós por um profeta ou assemelhado.
Neste, como em outros casos, vale a conversa e bom-senso como já disse.
Há uma linha de raciocínio interessante ligando um inseto ao Sagrada Feminino na Ilha de Creta, exposto no livro "O Corpo da Deusa" de Rachel Pollack (Ed. Rosa dos Tempos). Mas antes de tratarmos deste assunto, necessita-se pousar o olhar sobre o conceito do símbolo e do objeto para continuarmos.
Um dos prováveis abismos que separa o homo sapiens das outras espécies é sua capacidade abstrativa, de imaginar algo que ainda não existe. Esta qualidade nos capacita a prever situações perigosas ou vantajosas à 300.000 anos, e nos oferece subsídios para criar em nossa mente e depois no mundo material, toda a sorte de coisas, de residências a ferramentas, pontes, carros, aviões, naves espaciais.
E também arte.
E o que é arte?
Entendo como Arte toda a obra humana que vai além do princípio utilitarista, do mero servir para um propósito concreto, e que nos dá um conjunto de sensações diferentes daquilo que o uso do objeto propunha inicialmente.
No período que os historiadores chamam de neolítico, o sapiens viveu o auge da explosão criativa humana, notadamente na Europa e Oriente Próximo. Ora, arte não tem definição precisa, mas é algo que faço em meu tempo livre (isso quando não possui função devocional ou laboral), onde reproduzo no físico algo que só a mente abstrata consegue abarcar.
É comum pensarmos nestas pessoas como seres rudes e incultos, mas locais como Lascaux, na França, provam que a arte não só lhe era familiar como também necessária. Nas cavernas francesas encontramos representações de animais de até quatro metros de altura! Para realizar tais obras, comparáveis ao meu ver as obras da Capela Sistina de Michelangelo, estas pessoas tinham que construir andaimes, dominar técnicas de pintura e ter senso estético apurado. Tinha que dispor de tempo e energia para buscar materiais, escolher o tema e a melhor superfície para pinta-la, e fazer o trabalho.
E a construção do símbolo é um componente principal da criação artística.
O Machado Duplo
E então entramos no tema principal do texto, que é a criação artística dos machados duplos cretenses. Podemos pensar neles como meros instrumentos de corte para trabalho ou mesmo em um eficaz instrumento de guerra dos tempos anteriores ao uso da pólvora, mas seu aspecto simbólico neste caso soa mais forte.
Onde hoje é a ilha de Creta fora o berço de uma grande civilização ocidental. Antes da invasão e/ou absorção pelos povos indo-europeus caçadores, supõe-se que viviam na região um povo adorador do Sagrada Feminino. Registros arqueológicos apontam que o local vivia em relativa prosperidade e era, de modo geral, pacífica devido a ausência de construções de defesa.
Comerciantes, mantinham contato com povos próximos no próprio Peloponeso e na Sicília. Sua cultura cai com a ocupação dos aqueus e a posterior invasão e/ou absorção dórica. Sua principal cidade fora Knossos.
Em diversos pontos da ilha encontraram-se machados duplos, mas ao contrário do senso comum, não há evidências mostrando que fossem armas de guerra. Aparentemente eram objetos dedicados a Deusas locais. Chamavam-se labrys. Ora, a palavra labrys, segundo a autora Rachel Pollack está relacionado a 'labia' ou lábios da vulva.
Nestes machados duplos, variáveis em tamanho, encontramos gravados imagens de borboletas que também se assemelham aos genitais femininos.
As Borboletas
Curiosamente a raiz grega para a palavra borboleta remete a palavra 'alma', ou psyche. Psiquê, para os gregos, foi uma Deusa que rumou ao submundo (inferno, inconsciente), local presidido por Hades e principalmente Perséfone. Esta Deusa (segundo Pollack, 'aquela que luta na escuridão') fora raptada por Hades com a permissão de Zeus, mas encontrou na situação seu próprio poder.
E não emergem as borboletas da morte quando saem de suas crisálidas?
Conexões
Deméter, senhora das plantas selvagens e mãe de Perséfone, só tomou conhecimento do rapto (ninguém tinha coragem de contar-lhe temendo a ira de Zeus) por intermédio de Hecate, senhora da Lua.
Observem a sutil conexão entre todos estas grandiosas Deusas! Não busquem entender, mas sentir. Leiam as histórias, procurem imaginar seus papéis segundo as mulheres modernas e suas lutas diárias. Aprendam com elas sobre seus mistérios e símbolos. E aqui retornamos ao princípio, como na espiral.
O símbolo é altamente plástico, como vimos. É preciso vivê-lo para compreende-lo. Apenas lhe apresentei as peças do quebra-cabeças cuja a imagem muda conforme o observador, a cultura e o tempo.
À propósito hoje, por exemplo, o labrys é um símbolo feminista. E o athame deixou de ser um mero punhal e é parte integrante de muitos rituais pagãos.
Maravilhoso, não?
Perguntem sempre, pesquisem mais, vivam a Religião!
"Quem sou perante o animal?" Aquele que possui ou já possuiu gatos, cães, ou mesmo pássaros e répteis, não deixou esta pergunta passar em branco em algum momento da vida. O próprio termo animal de estimação revela qual nossa posição diante deste seres ao longo de nosso relacionamento com eles.
É difícil precisar qual o momento em que nós seres humanos adquirimos a "consciência-de-si-em-si-mesmo", e nem quando isto, num novo salto, nos separou de nossos companheiros de penas, pêlos e escamas desta nave chamada Gaia. No Ocidente, os mais antigos registros históricos afirmam que - o homem devia ter o domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.
E, ao mesmo tempo que nos separamos deles também desejamos retornar a irmandade. E ao mesmo tempo que queremos reatar estes laços perdidos, temos que deles nos alimentar. É um paradoxo.
Animais frágeis
Se pensarmos no ser humano como um animal, verificamos nossa imensa fragilidade: não somos fortes, rápidos, ágeis. Não voamos. Nadamos e corremos com grande dificuldade em relação a outros animais. Somos um tipo de macaco pelado. Estaríamos destinados à extinção se não tivéssemos uma série de fatores que, combinados, recebem o nome de adaptabilidade. Nosso cérebro e nossa capacidade de construir ferramentas fizeram de nós seres capazes de sobreviver, caçar e coletar alimentos em praticamente todas as partes do globo. Portanto dieta foi a primeira ponte que nos uniu aos animais.
Mas caça-los não era tarefa fácil: lanças e flechas são armas rústicas, e a mata ou os campos possuem predadores de homens também! A pecuária e a agricultura foram passos importantes, pois pela primeira vez o homem deixa a Terra para criar seu próprio Mundo domesticado.
As imagens de Lascauxe outros sítios arqueológicos ao redor do mundo - incluindo o Brasil - implicam em sérias dúvidas sobre sua real finalidade. Presumisse que estes desenhos de bovinos e equinos de até 5 m., feitos há 15.000 anos atrás com uma beleza impressionante, possuíam um caráter iniciático. Achados arqueológicos ao redor da caverna francesa indicam que os animais desenhados não serviam de alimento, constituindo este basicamente de renas.
Se a caverna servia a iniciação mas os animais ali pintados não eram caçados, porque então a representação? Supõe-se que os seres são sagrados aos antigos frequentadores do local, auxiliares em seus transes, guias para outros planos.
Posteriormente estes e outros animais serviriam como identidade para as tribos. São os totens. Uma tentativa de reunião, de pacto de paz.
Os animais e as Divindades
Se no Período Neolítico buscávamos as ligações com os Deuses através da identificação com os animais, uma vez que observaríamos que estes teriam um relacionamento mais estreito com o sagrado, os milênios mudaram o convívio para outro plano.
Com a domesticação, nossa consciência separa-se da dos animais. Em vez de parentes, somos seus algozes. Agora os sacrificávamos em honra aos Deuses através grandes holocaustos. Com os animais recebemos favores ou nos livramos da Ira Divina. Alguns seres (ou mesmo todos) são proibidos para consumo. Outros são objetos de culto. Mas sua posição como ponte entre os humanos e deuses se manteria ainda por longos períodos.
Muitas Deusas&Deuses teriam através de seus fiéis, características associadas a animais como corujas, águias, vacas, cordeiros, cavalos, leões, jaguares, abelhas, aranhas, escaravelhos, coiotes, lobos, corvos, tubarões, tucunarés, elefantes, cobras. No Egito antigo podemos citar meu Deus de devoção, Thot, com a cabeça de Íbis. O hábito manteve-se até hoje, como verificamos no termo religioso Cordeiro de Deus usado por muitos de seus sacerdotes, os pastores.
Em nosso país os cultos dos afro-descendentes mantém a prática de sacrifícios animais aos Deuses de seus panteões. A indústria da carne de diversos animais continua a todo vapor, onde a característica do animal se dilui nos magníficos comerciais de tv e ganchos de frigoríficos. Para muitas crianças a carne não vem da vaca, mas do açougue.
Animais ainda selvagens são consumidos com função afrodisíaca ou medicinal, como acontecem com as barbatanas de tubarão no processo chamado de "finning" Leia + AQUI. Os bichos domésticos vão da semidivinização (hotéis e motéis para animais, roupas, manicure, dieta etc) a escravidão, mutilação, vivisseção ou puro e simples mau-trato.
E apesar de tudo isto, ainda os consideramos parte de nossa família quando vivem conosco por muito tempo e tomam de assalto nosso coração. Não raro me pego falando com os gatos aqui em casa. E às vezes acho que até me entendem. Não obedecem, mas entendem. Talvez seja este o milênio em que nós devamos questionar quais são nossos papéis nesta parceria com os companheiros que voam, nadam, caminham e rastejam na Nave Gaia.