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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DIA DO ORGULHO PAGÃO - 2010



Hoje é Dia do Orgulho Pagão, sabia? A origem, como falei no post do ano passado, é creditada a Cecylyna Dewr e Dagonet Dewr. E andei pensando um pouco sobre a data, que sempre cai em setembro, e como ela se modifica conforme os hemisférios norte e sul.

Se para os pagãos norte-americanos este é um tempo de agradecer pelas bençãos, já que se aproximam do Lammas, para nós é tempo de trabalhar, já que estamos no Ostara. Não é interessante?

E de fato há muito o que se fazer.


O Espiritual é Político

Aconteceu no Rio de Janeiro por estes dias a III Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, que reuniu diversas vertentes religiosas para garantir os direitos de liberdade de credo frente ao proselitismo de alguns pouco grupos que usam esta mesma liberdade para realizar ataques a religiões que não fazem parte de seu cast.

Milhões de pessoas no mundo, pelos mais diversos motivos, não podem professar sua fé sob risco de morte. Milhões! Vale lembrar que a Wicca nasceu a partir da liberdade de culto promovida pelo governo inglês na década de 50. E que somente no século 21 foi liberado o culto às divindades pagãs na Grécia.

"O presidente da Associação de Clérigos Gregos, padre Efstathios Kollas, qualificou os seguidores dos deuses olímpicos como um punhado de míseros ressuscitadores de uma religião degenerada morta, que desejam a volta dos monstruosos delírios sinistros do passado.

Peppa e seus seguidores querem ter os direitos dos druidas britânicos, que realizam cerimônias em Stonehenge, e dos holandeses devotos de Thor e dos deuses nórdicos. Eles têm permissão para realizar casamentos, batismos e funerais."

Nota: saiba um pouco mais sobre as conquistas dos druidas das Ilhas Britânicas (e outros fatos) no Jornal O Bruxo, do amigo Rafael Noleto.

Na minha cidade nunca tivemos problemas com autoridades administrativas ou de segurança em celebrações públicas quando utilizamos espaços cedidos pela Prefeitura, desde que comunicados com antecedência e por escrito. Isto é um direito que pretendo resguardar para o futuro, diante dos problemas que cercam pessoas em outros países.

Como você comemorará o Dia do Orgulho Pagão?

Em Minas Gerais, foi assim


No Rio Grande do Sul também temos notícias!


S. Thot.

sábado, 4 de setembro de 2010

ORDEM NA VIDA



Olá, gente!

Sabem, conversando com alguns amigos e amigas percebi uma coisa interessante. As vidas dessas pessoas estão entrando nos eixos, seja através de um novo emprego, ou compra da casa própria ou através da posse de algum outro bem mais durável. As vidas destas pessoas, como o mundo ao nosso redor, deixam finalmente a aridez do Inverno e embarcam na Primavera e suas promessas.

Mas a Primavera é isso, é a Promessa do Fruto. As flores estão aí mas elas são tão frágeis! Ainda tem muito chão pela frente e é preciso manter a mão firme no sonho. Empregos novos se sustentam através de envolvimento. Casas novas necessitam de reformas e ajustes. A vida não vem pronta, mas precisa ser trabalhada sol a sol.


Apolo

Falando em Sol, impossível não citar Apolo e sua luz que esclarece tudo, senhor da Razão e das estradas romanas que inspiraram o nascimento de cidades que ainda brilham em nossa civilização.

A manutenção do sonho do qual nascerá o fruto depende justamente desta clareza que o Deus nos oferece. Será através desta visão acertada que venceremos os obstáculos. Muitos problemas, aliás, nascidos de nossos próprios pontos obscuros. Receber as bençãos e não estar preparado para elas é desperdício. Minha experiência diz isso, sabem? Já perdi boas oportunidades simplesmente porque a chance apareceu e eu não estava preparado. Não cometam este erro.


Tire a tralha

Não é à toa que a Primavera é a época da limpeza, de dar embora o que não serve. Temos que correr leves, ter as ferramentas à mão para o momento certo. Velhos valores e amores já não nos cabem mais. A filha de Deméter que desceu ao Hades não é a mesma que sobe.

Então ponha ordem na sua vida. Abra cada porta de garagem, quarto, guarda-roupa. Cada gaveta, pasta, mochila, bolsa e carteira e se pergunte: isto ainda me serve? É uma boa recordação? É o tipo de coisa que quero ver em minha biografia? Se a resposta for não, limpe o item energeticamente, zerando-o de sua energia pessoal, e DOE! E se não for mais usável, RECICLE! Muitos lugares recebem todos os tipos de itens em bom estado como doação.

O Mercatudo das Casas André Luiz é um bom exemplo disso há anos. Conheci o lugar através de meu antigo emprego, onde consertava e vendia máquinas de escrever. Não raro encontrava lá máquinas em razoável estado de conservação que precisavam apenas de uma reforma para voltarem aos dedos dos poetas da cidade. É uma excelente opção para descartar os itens que já não lhe servem mais, mas que podem ser úteis a outras pessoas. E ainda ganhar um dinheiro!

Se vai doar ou comprar, entre em contato.

Ps: Comentei em outro texto sobre a Limpeza como elemento corretivo do ponto de visto energético. Para se combater energias negativas em um ambiente, nada como começar pela Limpeza Física: arrume, pinte, limpe!


Plutão recomenda prudência

Falando em vida financeira, e a grana? Quanto você ganha? Quanto deve? Quanto tem no banco? Gasta mais do que ganha? Com o que? Vale a pena? Dá para gastar menos ou ganhar mais? Pense! Ponha as coisas em dia. Mago é aquele que já está no lugar quando a oportunidade aparece.

Plutão, que guarda em seu reino os grandes tesouros da terra, recomenda que você seja senhor e senhora de suas riquezas, e não outras pessoas. Parece óbvio dizer isso mas países inteiros não dominam suas próprias reservas naturais. Coloque rédeas em sua carteira.

Aliás, recomendo uma leitura interessante no blog Dinheiro Consciente. Título auto-explicativo, rs!

O novo só se estabelece quando o velho finalmente vai embora!

Recicle sua vida!


Saúde, amizade, liberdade.



sábado, 26 de junho de 2010

SELENE




Hoje foi um dia complicado no emprego. Caótico mesmo! Talvez porque fosse dia de jogo da Seleção Brasileira, que perdeu para Portugal (Como? Empatou? Jogar com Portugal em uma copa e empatar é o mesmo que perder!).

Ou talvez porque fosse Lua Cheia.


Bando Lunático

A influência da Lua sobre a Terra é profundamente conhecida aos que moram nas regiões litorâneas. E há muito as mulheres marcam ou mesmo regulam seu ciclo menstrual banhando à sua luz.

Mas contam os policiais e médicos que nas noites de Lua Cheia coisas estranhas acontecem nas cidades. Que as pessoas perdem a razão com mais facilidade, que ficam um tanto mais confusas... Lunáticas!

Será que foi isto que aconteceu hoje? Ou será que é apenas uma maneira da Lua chamar a atenção para si, nos fazendo parar por algum tempo, acalmar o coração e contempla-la?


Ciclos

Temos esta vida tão linear, apolínea, onde os dias se somam e só percebemos a diferença através de calendários e das cores de gravatas que, quando nos damos conta, já é o fim. Fim do dia, da semana, do mês, do ano, da vida.

Sem os ciclos como os da Lua, nossa vida é uma rotina.

E deve ser por isso que ela me acordou e me levou a janela para observa-la. "Ei, psiu! Vem aqui me ver", disse ela em meus sonhos.


Selene

Selene é uma Deusa antiga, antes dos olímpicos, filha de Hipérion, o Sol, e Téia, Deusa da Luz. Ela, como outras divindades lunares, é amiga dos pastores pois com sua luz noturna avisa sobre a presença de animais selvagens ou ladrões que se lançam sobre os rebanhos.

Contam os Antigos que Selene certa vez se enamorou com um deles, Endymion. Juntos tiveram muitos filhos. Mas Endymion tinha um defeito: era mortal. Para tê-lo sempre ao seu lado, Selene usou um artifício interessante, fazendo-o dormir eternamente e assim conserva-lhe a juventude e a vida. Não é lindo o amor?

E após banhar-me em sua luz e imaginar se outras pessoas também A namoraram hoje, dedico a Selene este texto na esperança dela também deixa-me dormir para que eu tenha minha beleza preservada! Rs!

Saúde, amizade, liberdade!


S. Thot.

Ps: Ah, se gostou deste, visite também outros pensamentos meus sobre a Lua.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O VELHO E O NOVO



Para muita gente ao redor do globo é vívida a euforia por conta da mudança de ano. Famílias inteiras neste país deixaram suas casas e rumaram para o nosso extenso e quente litoral, em busca do sol e do banho de mar afim de pular tantas ondas.

Em algumas horas, segundo o calendário ocidental gregoriano estaremos em 2010 DC. Para muitos o ano começa em festa, para outros nem tanto. O mês de Janeiro tem este nome por conta de Janus, o Deus romano de duas faces que olha tanto para o passado quanto para o futuro e que comanda a entrada dos anos.

 

Calendários

Nós ocidentais temos a pretensão de achar que o mundo inteiro comemora a entrada de ano na mesma data. Mas como comentei em outra oportunidade, muitos povos possuem seu próprio ritmo.

Particularmente vivo segundo outro calendário, algo mais regido pelas estações e que tem como o verão o seu ápice. Para mim este não é um período de término/recomeço, mas de forças plenas. Eu não consigo ver, por conta das altas temperaturas, gente pensando no futuro. É impossível a gente se concentrar com tanto calor, sol e cerveja! Rs! Como essa a grande quantidade de gente que tomará vinho e comerá lentilha e outros alimentos calóricos para o desespero dos nutricionistas e equipes médicas, que recomendam alimentos leves e roupas frescas neste país tropical vai pensar no futuro?

Nesse ponto a virada do ano nos países onde o inverno comanda estão mais condizentes com a realidade, uma vez que o frio natural diminui nosso ritmo, o que nos leva a ponderar sobre o faremos com todo um ciclo novinho em folha. E o frio também nos leva a reunião, para compartilharmos calor e companhia.

 

Desafinado

Eu sempre tenho a impressão que "começamos" o ano de maneira descompassada, se nos atentarmos aos sinais naturais. O que é bom para quem se aproveita da maré energética e a surfa convenientemente. Afinal, quem queimou todo o dinheiro nas compras de Natal não aproveitará os descontos enormes de início de janeiro, por exemplo.

Para você que respeita a tradição, feliz 2010. E para você que vive segundo os ciclos sazonais, continuemos a luta que logo vem a colheita!!!

 
S. Thot


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

DO SOL





"Após ter completado sua volta celeste, Hélio, ao anoitecer, recolhia-se em seu castelo de ouro, onde adormecia, para no dia seguinte mais uma vez cruzar o céu."


Trecho do livro O Oráculos dos Astros, de Marcia Frazão

O Sol, que cruza nosso céu todos os dias, fez desta terra uma espécie de "celeiro do mundo" no imaginário das nações.

Há, Sol e Brasil tem tudo a ver! Rs! Na década de noventa lembro de uma discussão muito interessante sobre veículos movidos a base de biocombustíveis, ou como a maioria das pessoas conhecem, o carro à álcool. Acontece que nosso país tem terra&sol suficientes para abastecer uma grande frota de veículos mundiais em um tempo onde discutimos como e aonde conseguiremos mais petróleo para abastece-los. Acontece é que isto tem um custo muito alto e não falo só em dinheiro.

Ao viajar para o interior do estado de SP vi de perto carretas enormes cheias de cana recém-cortadas, e campos a perder de vista em um lugar onde a pouco mais de 400 as florestas dominavam. Nas minúsculas áreas de reserva restantes a fauna e flora penam para sobreviver. Nossa fatia da Mata se encontra na Serra da Cantareira, ao norte da cidade e passa por estas dificuldades.

Certa vez realizamos um ritual na área limítrofe entre a cidade e a mata e me dei conta do quanto avançamos lenta e inexoravelmente por ela. Mesmo nos pontos onde começa a se fechar há sinais da passagem humana: lixo, muito lixo. Bairros como Vila União, que não existiam a 20 anos atrás, hoje possuem ruas estreitas e tortuosas com casas que buscam se fixar nos morros íngremes. Nesses meses de chuva eu penso o quanto estas residências correm perigo devido a terra solta, muitas construídas sem apoio de arquitetos ou engenheiros.

Ser a terra abençoada pelo sol deveria trazer as suas populações mais benefícios que problemas.


Câncer de pele

Outra discussão antiga envolvendo o sol é o buraco da camada de ozônio e a degradação da atmosfera pela ação industrial. O simples ato de sair na rua atualmente deve ser cercado de medidas para evitar o câncer de pele com o uso de protetores solares.

Quando criança tomar banho de sol era sempre um prazer, brincado de bola em rua de terra, esconde-esconde, pião e bolinha de gude. Importante também na absorção da vitamina D pelo nosso corpo, em meu imaginário não consigo me ver morando em uma região próxima aos pólos onde os dias são mais escuros e frios. Sou um adorador confesso do Sol. Atualmente, entre outros perigos, reais ou imaginários, que as ruas nos oferecem agora temos que listar o Sol.


Fonte de energia

Outra benção de nosso país que envolve o Sol é a quantidade de rios devido as chuvas abundantes. A energia que usamos hoje provem de hidrelétricas espalhadas pelo território nacional. Relativamente barata e limpa se compararmos com as de origem nuclear ou da queima de fósseis, só acontece devido a grande quantidade de energia envolvida na vaporização de oceanos, sua transformação em nuvens, chuva e rios que abastecem o sistema. Mas é preciso levar em conta o impacto que tais construções geram em seu entorno, como a represa das Três Gargantas, na China.

Uma fonte de energia direta e ainda inexplorada é a geração de energia elétrica através de células fotossensíveis. Primeiramente encontrado em aparelhos simples como calculadoras, a energia solar ocupa cada vez mais espaço nas mentes das pessoas. Empresas especializadas já oferecem serviços para instalação de painéis solares particulares a um preço razoável dado o custo x benefício, já que a energia excedente pode ser "vendida" à empresa distribuidora de energia. Como? É simples.

Toda a energia consumida em sua casa é medida pelo aparelho instalado pela empresa distribuidora, o famoso "relógio". Com os painéis solares solares instalados, a energia não consumida tem que ir para algum lugar, começando assim a "empurrar" os elétrons de sua casa para o sistema. O relógio então retrocede marcando menos energia consumida. E, até onde sei, isso não é ilegal.


O Sol, em seu passeio pelo céu no entanto, ignora todas estas questões.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

DA TRANSFORMAÇÃO





Existe na Física um conceito chamado entropia, usado na termodinâmica para explicar, por exemplo, porque os cubos de gelo derretem em sua coca-cola. Ou na eletroquímica, para explicar como a oxidação deixa o suco de laranja amargo com o tempo. A termodinâmica nos mostra o porquê tudo se deteriorar.



E para garantir nossa sobrevivência e/ou conforto, sempre lutamos com a tendência natural das coisas se desagregarem, enferrujarem, caírem, morrerem. É o trabalho dos mecânicos, faxineiros, jardineiros e da manutenção em geral. É um esforço contínuo manter este mundo funcionando.

Mas tudo caminha para o caos, guarde estas palavras.


O nascimento da Humanidade

Quando a consciência humana despontou no horizonte do mundo natural, questões urgentes precisavam ser resolvidas: como obter caça, pesca, frutos, abrigo, calor., segurança, cura Somos
socius por natureza e por imposição das circunstâncias, então percebemos que se trabalhamos juntos os resultados são melhores.

A tomada desta consciência de que juntos é melhor nos leva a criar coisas, nomeá-las e transmiti-las para outros de nós. Começamos assim a transformar o horizonte natural e modela-lo à nossa imagem e semelhança.

Com a combinação de conhecimento acumulado de tantas pessoas por mais tempo, mais habilidades, mão-de-obra e material natural, erguemos do solo e de tudo que está sobre ele todos os itens que precisamos para sobreviver e depois viver com algum conforto.

 E a inovação não para: os materiais ficam mais refinados; a linguagem verbal e não-verbal fica complexa e a transmissão deste conhecimento por via oral e sua manutenção na memória não mais suporta a carga de conteúdo acumulado. É preciso gravar na pedra, no barro, no papiro, no pale no disco rígido. Tudo isto culmina em ferramentas melhores e mais complexas, em vidas mais complexas e relações mais complexas. 10.000 anos depois temos nossa sociedade pós-pós-moderna.

Mas esquecemos de onde viemos, de onde tudo vem. Achamos que o mundo sempre existiu, que o ovo vem da geladeira e o leite do supermercado. A conexão com a terra foi perdida. A percepção da transformação foi perdida.

Não sem um custo para a Natureza.


Filhos de Sísifo

Eu seria muito ingrato se mal-dizesse todas as conquistas que a raça humana obteve e que permite uma vida de certos confortos a uma boa parcela da população, eu incluso. Mas também seria um inconsequente que este mesmo conforto, mesmo não chegando a toda a humanidade, ainda sim mina as reservas que a Mãe possui.

Depois de tanto tempo só sugando agora este ritmo ao qual esta parcela de privilegiados possui (nos quais incluo eu e você, que tem água tratada e encanada em casa), é preciso:

*garantir que os que não têm tenham acesso ao básico-do-básico. Se não por questões éticas, ao menos para evitar a guerra por água e energia.

*garantir a sobrevivência das áreas do planeta que ainda continuam silvestres, afim de garantir nossa própria pele.

Como podem ver, é um trabalho digno do próprio Sísifo! Não sou um fatalista e vejo no personagem mais do que seu final, vitimado pelo colérico Zeus. Astuto, não deixou que sua condição mortal interferisse em sua vida e usou da inteligência e astúcia para vencer as dificuldades. Sigamos seu exemplo!


Parteiros de Deus


Costumo assistir a muitos documentários no Discovery e em todos eu vejo o milagre da criação humana. Trabalhando na área de manutenção pesada aprendi a admirar o trabalho de outros profissionais deste e de outros países. Em todas as áreas. E vejo neles Hermes, Osiris, Hefestos, Dionisos, Ícaros... todos lutando contra a tendência natural que nos leva a estabilidade passiva.


Todos eles erguem da carne da Deusa um Deus-menino, cuja maturidade se concretiza na obra pronta, acabada. E que encontra seu fim como tudo nesta terra. E só agora aprendemos instintivamente que de carcaça de um Deus-morto pode surgir um Hórus, um Osíris renascido, assim como o sol que nasce toda a manhã ainda é o mesmo sol que se pôs na noite anterior.

Tudo tende ao Caos. A Ceifadora sempre pede seu preço, mas dos escombros e do Caos sempre fizemos o Novo. E sempre faremos enquanto a terra nos sustentar. Que o sacerdócio não se prenda somente ao círculo mágico, mas que este se estenda ao horizonte que é circular também. Que um Deus nasça todo dia dos frutos de nosso suor e que sejamos nós, além de seus sacerdotes e sacerdotisas, também parteiros.

Que Assim Seja!


S. Thot

terça-feira, 14 de julho de 2009

DA ALMA





"(...)Andou por vários dias até alcançar uma gruta, no interior da qual descortinou-se uma fenda que conduzia ao reino de Plutão. Munida somente de sua coragem, Psiquê penetrou nos escuros labirintos da morada dos mortos."

Cupido e Psiquê, retirado da obra As 100 melhores Histórias da Mitologia, de Franchini e Seganfredo

Alma, ou psy·khé em grego, é uma palavra de infinitas significações. Uma delas nos sussurra que é graças a alma, por exemplo, que ficamos agitados, vivos... ou animados!

Quando temos alma, estamos vivos no pleno sentido da palavra, absorvendo e exalando ar, segundo após segundo. A respiração que sempre foi um dos indicadores que nós não passamos para o Outro Lado. Segundo o mito dos povos do Oriente Médio, a vida nos foi dada pelo sopro.

A simbologia que mais gosto é a da borboleta. Creio que existem poucos seres que retratam a metamorfose de maneira tão bela e clara. Primeiramente vemos um ser disforme, às vezes venenoso, cuja a vida é comer e defecar. O tempo passa e ele fica maior e mais voraz, mas nos acostumamos a tê-lo ali. É parte da paisagem.

Certo dia nos damos conta de que ele não só parou de comer como também não se movimenta mais. E que em torno de seu corpo uma fina camada de seda se forma. Se fora fácil esquecer de um ser que se movimentava e comia tudo em seu caminho, imagina então agora que ele sumiu, submergia em si mesmo? Passada uma leve curiosidade inicial, deixamos aquele casulo de lado e tocamos a vida.

Ah, mas é tudo ilusão. Se formos bons observadores veremos, em um dia quente e bonito de sol, que aquela coisinha de seda que estava no canto da janela se mexeu. E mais: Há algo que lá dentro luta para estirar suas asas à luz da manhã. E então elas saem de seus casulos aos milhares, seja para um passeio em seu quintal ou para atravessar um continente. E tudo para achar outras almas, assim como fez Psiquê.

Gosto de pensar que, periodicamente, somos esses seres, que nascem e renascem de tempos em tempos. Seres que romperam com atos inúteis, ciclos viciosos, pensamentos nocivos e acorrentadores, e se cederam ao novo e ao belo, finalmente. Para o mundo elas são jovens, recém-nascidas do casulo. Mas só a Deusa sabe o quanto elas caminharam dentro de si para ganhar asas!

E só a partir disso, quando finalmente emergem plenos em sua vitalidade e leves, é que vão em busca do Amor.

Pensem nisso.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

DO CONHECIMENTO





"Com um grito de medo, Ícaro percebeu que a estrutura de suas asas se desfazia. Procurou esconder-se sob as nuvens, mas o sol tornara-se tão imenso que desmanchava as próprias nuvens."

A. S. Franchini e Carmen Seganfredo,
As 100 Melhores Histórias da Mitologia



Conhecimento, em linhas gerais, é informação com propósito. Acúmulo de dados não basta para para designar aquele que os acumulou uma pessoa de conhecimento. Para tanto, ela tem que dar a essas informações um sentido, um uso.

Vivemos hoje mergulhados na informação: conversas, livros, jornais, revistas, rádio, outdoors, cartazes, autofalantes, Ipods, telefones fixos e celulares, tevê, fax, e-mail, Orkut, blogs, sites, MSN, Twitter... Mas tudo isso bate em uma barreira, que é nosso entendimento do mundo. Dou um exemplo simples.

Não é raro, quando ando de ônibus, ver gente jogando lixo pela janela. Desde criança ouço a famosa frase "lugar de lixo é no lixo". No entanto, centenas de pessoas simplesmente fazem do lugar onde estão um aterro sanitário particular. Ainda na questão do lixo, apesar das caçambas de material reciclável disponíveis, no condomínio onde moro os moradores simplesmente não se ocupam de separar e depositar nos recipientes. Simplesmente misturam com o lixo comum, que fica do lado.

Afinal, o que há?


Emoção

Talvez, e falo como leigo no assunto, a informação não seja tudo. Talvez seja preciso um tempero para ela, um sal para que algo se desperte dentro do indivíduo, de modo que a informação se una a ele e torne-se conhecimento. Esse sal pode ser a emoção.

A informação é só um conjunto de palavras & imagens desconexas, mas é nossa participação, quando atuamos como sujeito na história, que elas ganham sentido para nós. Como no caso dos que jogam lixo no chão, ou não separa material reciclável do lixo comum, temos pessoas que não estão ligadas afetivamente com a questão ambiental. Não se sentem parte deste mundo, apesar de nele viver.

Seu mundo é um tanto pequeno, sua percepção das coisas é estreita. Ela olha o mundo e não vê, não sabe onde está nem para onde vai. Apenas segue, sonâmbula. Não basta dizer "ah, as pessoas tem que ter conhecimento", ou "é preciso dar cultura ao povo". Não é esta a questão. O fato é que as pessoas tem que USAR as ferramentas que tem.

Pode-se ler para elas, mostrar-lhes vídeos, fazer palestras e o escambau, mas se elas não sentem, será em vão.

Mesmo entre nós acontece algo semelhante. Temos pessoas que só recolhem fragmentos de informação ao seu bel-prazer, sem qualquer conexão ou senso de realidade. Como esta troca de informações captada do Yahoo! Respostas. Se fossem praticantes, a resposta seria outra.


Na vida

Acredito ainda que este conceito se estende a outras situações. Mesmo quando alertados sobre o perigo iminente, nós pagamos pra ver. Isto é o risco. Aposto e ganho que as pessoas que não separam seu lixo estão ocupadas demais para prestar atenção a estes "detalhes pequenos".

É claro que o mundo existe por meio de quem faz, de quem se arrisca. E não dá para prestar atenção em tudo, ou ficar no canto, encolhido de medo. É preciso parar a beira do penhasco e voar. Mas o risco deve ser calculado, para saber até aonde nossas asas de cera resistem.

Acordar do sonho para que a realidade não nos atropele.



sábado, 25 de outubro de 2008

DIONÍSIO







É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,

perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,

hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!

De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.

Charles Baudelaire


Dionísio, filho de Sêmele e Zeus, é um dos Deuses preferidos dos pastores e agricultores. Os relatos gregos afirmam que, quando Hera descobriu de quem Ele descendia, enciumou-se e resolveu fazê-lo louco e vagar pelo mundo.

Curioso como são as coisas, não? O que deveria ser um castigo tornou-se sua marca.




Deus Libertador

Os Deuses olímpicos exigiam de seus cultuadores alguma forma de sacrifício, e com Dionísio não é diferente. Mas nossa devoção para com ele se dá através do maior sacro ofício de todos, que é a busca de nossa própria libertação.

O seu valor como divindade agrícola nasce quando ele ensina o cultivo das parreiras e o processamento do vinho, após ser curado pela Deusa Cibele. O vinho não é o fim em si mesmo, mas o caminho do êxtase que nos leva a uma Verdade maior. Algo que vá além da rotina, do trabalho, maternidade, estudo.

Um Deus que liber
ta as mulheres dos sutiãs, activias, OB's... Que permite que o sangue volte ao solo novamente e que o fertilize. Do vinho que reduz a razão, e que permitem ideias loucas e inspiradas brotando da aridez que é nosso dia-a-dia. Uma Verdade que nos retira daquilo que fazemos cotidianamente e nos leva àquilo que somos.

Para os campesinos, que sempre viveram submetidos ao domínio das cidades e seus Deuses de ordens e de linhas retas,
ter um Deus que morre e renasce, que é vítima de injustiças e abusos mas ainda sim mantém-se íntegro, é uma promessa.

Uma promessa de renovação, de esperança, de criatividade, de Vida. Uma promessa de Retorno sem chantagens ou ameaças. O Deus que é o marido secreto de Perséfone, também Esta que conheceu a dor e violência, o rapto e
morte, mas que retorna todo ano para os braços Deméter (Salve Grande Mãe!) para novamente reinarem sobre os grãos e frutos, grãos e frutos que somos nós.

 Não há um sacerdote entre seus cultuadores de Dionísio. Ou melhor, somos todos sacerdotes do Deus, todos responsáveis. Todos carregamos o cetro do Deus da terra. 

Hino Órfico a Dionísio:
 

"Eu clamo ao estrondoso e festivo Dionísio,
primordial, de duas naturezas, duas vezes nascido, senhor Báquico,
selvagem, inefável, secretivo, de chifre duplo, de duas formas.
 
Coberto de hera, com rosto de touro, bélico, uivante, puro,
tu tomas a carne crua, tu tens festivais trienais,
envolto em folhagem, protegido por cachos de uvas.

Eubouleus de muitos recursos, deus imortal gerado por Zeus
quando este se uniu a Perséfone em união inenarrável.

Escuta atentamente à minha voz, ó abençoado,
e com tuas amas vestidas de beleza
sopra em mim um espírito de perfeita gentileza."


Falando em vinho, para aumentar a cultura de meus leitores os brindo com a sabedoria de um enólogo das terras lusitanas!





Outras Leituras


Convido-os a conhecerem a Sociedade Dionísica, cuja a proposta é...


"...alcançar o estado de liberdade que nos coloca em contato com o divino. Nos inspiramos nas principais atribuições que nosso deus tinha na Grécia Antiga (vinho, orgia e teatro) para classificá-las em três grandes gêneros: a liberdade da mente (representada aqui pelo Álcool), a liberdade do corpo (simbolizada pelo Sexo) e a liberdade da alma (figurada pela Arte)."
Clique AQUI e descubra

Leia também um belo Hino Órfico para Bacchus no Mundo Pagão, clicando AQUI.


sexta-feira, 31 de agosto de 2007

BORBOLETAS E MACHADOS


Há uma linha de raciocínio interessante ligando um inseto ao Sagrada Feminino na Ilha de Creta, exposto no livro "O Corpo da Deusa" de Rachel Pollack (Ed. Rosa dos Tempos). Mas antes de tratarmos deste assunto, necessita-se pousar o olhar sobre o conceito do símbolo e do objeto para continuarmos.


Um dos prováveis abismos que separa o homo sapiens das outras espécies é sua capacidade abstrativa, de imaginar algo que ainda não existe. Esta qualidade nos capacita a prever situações perigosas ou vantajosas à 300.000 anos, e nos oferece subsídios para criar em nossa mente e depois no mundo material, toda a sorte de coisas, de residências a ferramentas, pontes, carros, aviões, naves espaciais.


E também arte.


E o que é arte?


Entendo como Arte toda a obra humana que vai além do princípio utilitarista, do mero servir para um propósito concreto, e que nos dá um conjunto de sensações diferentes daquilo que o uso do objeto propunha inicialmente.


Veja AQUI outras definições do que é a arte.



A arte no Neolítico

No período que os historiadores chamam de neolítico, o sapiens viveu o auge da explosão criativa humana, notadamente na Europa e Oriente Próximo. Ora, arte não tem definição precisa, mas é algo que faço em meu tempo livre (isso quando não possui função devocional ou laboral), onde reproduzo no físico algo que só a mente abstrata consegue abarcar.

É comum pensarmos nestas pessoas como seres rudes e incultos, mas locais como Lascaux, na França, provam que a arte não só lhe era familiar como também necessária. Nas cavernas francesas encontramos representações de animais de até quatro metros de altura! Para realizar tais obras, comparáveis ao meu ver as obras da Capela Sistina de Michelangelo, estas pessoas tinham que construir andaimes, dominar técnicas de pintura e ter senso estético apurado. Tinha que dispor de tempo e energia para buscar materiais, escolher o tema e a melhor superfície para pinta-la, e fazer o trabalho. 

E a construção do símbolo é um componente principal da criação artística.


O Machado Duplo

E então entramos no tema principal do texto, que é a criação artística dos machados duplos cretenses. Podemos pensar neles como meros instrumentos de corte para trabalho ou mesmo em um eficaz instrumento de guerra dos tempos anteriores ao uso da pólvora, mas seu aspecto simbólico neste caso soa mais forte.


Onde hoje é a ilha de Creta fora o berço de uma grande civilização ocidental. Antes da invasão e/ou absorção pelos povos indo-europeus caçadores, supõe-se que viviam na região um povo adorador do Sagrada Feminino. Registros arqueológicos apontam que o local vivia em relativa prosperidade e era, de modo geral, pacífica devido a ausência de construções de defesa.

Comerciantes, mantinham contato com povos próximos no próprio Peloponeso e na Sicília. Sua cultura cai com a ocupação dos aqueus e a posterior invasão e/ou absorção dórica. Sua principal cidade fora Knossos.

Em diversos pontos da ilha encontraram-se machados duplos, mas ao contrário do senso comum, não há evidências mostrando que fossem armas de guerra. Aparentemente eram objetos dedicados a Deusas locais. Chamavam-se labrys. Ora, a palavra labrys, segundo a autora Rachel Pollack está relacionado a 'labia' ou lábios da vulva.

Nestes machados duplos, variáveis em tamanho, encontramos gravados imagens de borboletas que também se assemelham aos genitais femininos.

As Borboletas

Curiosamente a raiz grega para a palavra borboleta remete a palavra 'alma', ou psyche. Psiquê, para os gregos, foi uma Deusa que rumou ao submundo (inferno, inconsciente), local presidido por Hades e principalmente Perséfone. Esta Deusa (segundo Pollack, 'aquela que luta na escuridão') fora raptada por Hades com a permissão de Zeus, mas encontrou na situação seu próprio poder.

E não emergem as borboletas da morte quando saem de suas crisálidas?


Conexões

Deméter, senhora das plantas selvagens e mãe de Perséfone, só tomou conhecimento do rapto (ninguém tinha coragem de contar-lhe temendo a ira de Zeus) por intermédio de Hecate, senhora da Lua.

Observem a sutil conexão entre todos estas grandiosas Deusas! Não busquem entender, mas sentir. Leiam as histórias, procurem imaginar seus papéis segundo as mulheres modernas e suas lutas diárias. Aprendam com elas sobre seus mistérios e símbolos. E aqui retornamos ao princípio, como na espiral.

O símbolo é altamente plástico, como vimos. É preciso vivê-lo para compreende-lo. Apenas lhe apresentei as peças do quebra-cabeças cuja a imagem muda conforme o observador, a cultura e o tempo.

À propósito hoje, por exemplo, o
labrys é um símbolo feminista. E o athame deixou de ser um mero punhal e é parte integrante de muitos rituais pagãos.

Maravilhoso, não?

Perguntem sempre, pesquisem mais, vivam a Religião!

Saúde, amizade, liberdade.


Sergio Thot (siga-me no Facebook!)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

OMPHALOS - UMBIGO DO MUNDO





Façamos um experimento você e eu.

Com o dedo indicador localize seu umbigo e toque-o. Sabia que ele está localizado próximo ao nosso centro de gravidade, o local onde corpo encontra o equilíbrio com a gravidade, esta força que nos mantém aterrados no planeta? Os conhecedores das artes marciais como o judô sabem disto muito bem. O umbigo é o alvo, ponto de apoio da alavanca que pode nos levar ao chão quando aplicada a força necessária nesta parte de nosso corpo.

Pelo mesmo umbigo recebemos o alimento precioso no sangue de nossas mães nas primeiras fases da vida durante nove meses. E pesquisando me deparei com uma coisa que eu ignorava totalmente, um verdadeiro milagre! Deveria haver um combate de células brancas no útero entre a mãe e seu filhote, pois os corpos do filho e da mãe possuem sistemas imunológicos diferentes. No entanto o milagre reside no fato deles coexistirem em harmonia por quase um ano! Ligados pelo cordão umbilical, ambos os corpos convivem até o momento de nascimento. Saiba como o milagre acontece neste artigo da revista Ciência Hoje.


Cortando o Cordão

Quando nascemos para o mundo o cordão é cortado para que uma vida surja, representando que agora somos uma pessoa independente, separada de nossa mãe, e que estamos por conta própria. A cicatriz que temos na barriga é um sinal que tivemos mãe, que não nascemos de chocadeira, rs! Na psicanálise, autores como Erich Fromm usam a analogia do umbigo para discorrer sobre a ligação simbiótica, fanatismo religioso e nacionalismo. Um termo popular sobre a obtenção da independência fala justamente sobre "cortar o cordão" que nos liga a situações negativas.


Se olharmos a nação, a cultura, o povo como uma grande Mãe nosso umbigo, essa cicatriz que carregamos por toda a vida, é a saudade, palavra que não tem tradução em muitas línguas mas que expressa a sensação de separação do corpo, seja a vila, cidade ou nação que nos nutriu e acolheu. É essa cicatriz na alma, algo que levamos em nossas aventuras mundo à fora e que inspiraram poetas-aventureiros como Luís de Camões:

"Ó gente que a natura / Vizinha fez de meu paterno ninho,
Que destino tão grande ou que ventura / Vos trouxe acometerdes tal caminho?
Não é sem causa, não, oculta e escura, / Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,
Por mares nunca doutro lenho arados, / A Reinos tão remotos e apartados."

 



Umbigo do Mundo


O conceito de Umbigo do Mundo, de Onfalos é antiquíssimo e, para nós que absorvemos os costumes ocidentais, o mais famoso é o de Delfos, na Antiga Grécia. 

O antigo povo grego que enxergava-se como uma nação apesar de se dividirem em cidades-estado, assim como um corpo se divide em órgãos diferentes mas que vivem em uma realidade comum. Esta noção de nascimento coletivo que a cultura grega dá a si mesma, este local onde o corpo da nação conectava-se ao corpo divino e faz um povo se considera filho dos Deuses, este lugar de nascimento, este cordão que liga o secular ao divino  tinha (e tem) um nome. Chama-se Delfos, uma cidade grega que atravessou os séculos.

A história do lugar inicia-se nas brumas do tempo, onde os Deuses lutavam em batalhas titânicas pelo poder. 


Cronos tinha o hábito ruim de devorar seus filhos afim de se perpetuar no trono sobre os Titãs e toda a criação. Réia, a Deusa-Mãe, cansou-se disto. Enganou o Deus dando-lhe uma pedra para este comer e criou seu filho Zeus escondido. Quando a criança cresceu, destronou o Pai, salvou seus irmãos e fundou a cidade com a pedra expelida pelo Deus deposto.


Delfos para os gregos era o centro Universal por causa da importância histórica e mitológica que tinha para seu povo já que ali fora palco de uma luta de Titãs!

 Assim nasceu uma nova classe de Deuses, os Olímpicos, e a cidade de Delfos, fundada pelo próprio Zeus.


O Oráculo 

A derrota dos Titãs ecoou também no mundo humano. Na região de Delfos existia um templo dedicado a Píton, a Grande Serpente da era dos Titãs. Nela as sacerdotisas sentadas sobre os vapores imanados do útero de Gaia realizavam previsões para quem as pedisse.

Com a derrota de Cronos, Zeus incorpora o Oráculo ao seu domínio, permitindo que Apolo matasse Píton e se apossasse do templo. Apesar do novo templo ainda utilizar das sacerdotisas, as Pítias, para as profecias na era apolínea, curiosamente as mulheres gregas não podiam consulta-las.
  

O poder do Oráculo de Delfos sobre o imaginário grego era tão grande que, para conquistar o coração da população, precisava-se conquistar o Oráculo. No local realizavam-se profecias sobre pessoas e nações, e mesmo gentes de outras terras (até inimigos dos gregos) recorriam aos seus serviços. De lá, supõe-se, saiu a famosa frase "Conhece-te a Ti Mesmo".

A cidade moderna de Delfos ainda existe, mas o templo encontra-se em ruínas após as idas e vindas de exércitos e religiões. Porém os que sabem sua história podem sentir o poder que emana daquelas rochas. Se um dia você visitar a Grécia, escreva uma prece por mim e coloque-a sob uma pedra para que Gaia saiba que mesmo não sendo gregos nós ainda a lembramos e reverenciamos.


O Centro de meu Mundo!

Acho o pensamento de ter minha cidade como centro do Universo muito interessante, assim como Delfos foi para o povo grego antigo. Além de partir de um pressuposto lógico: se olho ao redor, tenho a percepção de que o mundo gira ao meu redor. É aqui onde sou alguém fora do útero familiar.

Quando cuido da minha cidade, lugar onde moro, onde tenho meus amores, minhas frustrações, minhas alegrias, onde bebo, como respiro, estudo, trabalho, moro e durmo, cuido também do Universo, pois minha cidade, minha casa, meu corpo é parte dele. De onde retirar força senão do meu local de poder?

Quanto mais conheço, mais amo e sinto sua importância, pois o limite citadino determina também o limite de minha segurança e bem-estar, pois fora da cidade encontrava-se o deserto e floresta, berço de mistérios. Não sentimos um certo desconforto ainda hoje quando saímos para um lugar desconhecido?

Do mesmo modo que o conhecer a mim mesmo revela também o quanto sou parecido e diferente do outro, e de como somos únicos na Criação.

Conhecimento: conhecer nosso corpo, nosso passado, nossa cidade, nosso irmão, nossa irmã, nossos Deuses... O que nos retorna ao tema central, que é o nosso centro, nosso umbigo. Nós nos conhecemos?

Onde é o Umbigo de seu Mundo?

Pense nisso


Post Scriptum:

Leia também um escrito da amiga blogueira d'além mar, Hazel, e seu respirar pelo umbigo.



Sergio Thot

quarta-feira, 25 de julho de 2007

DO NOME MÁGICO




A significação do nome tem várias faces. O nome serve para retirar do comum um determinado objeto, atribuir qualidades positivas ou negativas a outros e a nós, e também para exercer domínio sobre o dominado.


No princípio, era o Caos. Então nossa consciência emerge do irracional, e seu primeiro ato de afirmação é submeter o não-eu aos seus critérios. Isto se inicia no nome. Na tradição judaico-cristã, Adão (nomeado assim por YHWH), tem como função primária denominar os seres do mar, do ar e da terra. Desde modo ele se destacaria da natureza, em um divórcio simbólico que perdura até hoje. Para o bem e para o mal.

O nome também possui função adjetiva em muitos casos. Quando nomeamos alguém de Careca, Negro ou Viado, ou Amor, Mano ou Pai. Estes nomes carregam em si uma carga simbólica que ultrapassa o seu significado básico, passando a destacar qualidades ou defeitos que observamos nestas pessoas. E isto é um dado cultural, pois quem é pai para mim pode não ser para outro.

O nome ganha status de poder quando, através do convencimento ou coação, submeto não só o objeto a minha nomeação, mas digo aos outros que, daqui em diante, aquele ser deve chamar-se tal coisa. Muitos escravos negros eram simplesmente coibidos de usarem seus nomes originais, adotando forçosamente o nome de seus senhores. Aqui, temos também um ato político.

O Caos referido anteriormente pode, em um primeiro momento, aludir a bagunça. Mas se olharmos mais profundamente, só é caótico aquilo que não entendemos ou não aceitamos. Para muitos, nossa forma religiosa é caótica por exemplo, apesar dela possuir uma rotina que todos conhecemos. Tudo o que vemos, pelo menos intelectualmente, só existe porque lhe atribuímos um nome.

Então a (re)nomeação busca a retirada intelectual de um objeto da antiga ordem em que ele se encontra. Ele "morre" para seu uso anterior, "ganhando" novas possibilidades de interação. Eis aqui o resultado natural do nascimento, onde deixamos uma existência e passamos a outra. Deixamos também uma determinada forma de agir por outra. E marcamos isso com o novo nome. No nosso caso, o nome mágico.

Perséfone

No mito grego de Kore/Perséfone, a virginal Deusa é raptada por Hades e leva ao submundo. Identificada como o broto, desaparece no seio da terra Gaia. Sua mãe, Demeter a procura pelo mundo e não a encontra. Sabe por Hécate que sua filha foi raptada. Após rogar a Zeus por justiça e não ser atendida resolve deixar o mundo natural, para a desgraça deste. Em jogo estava a frágil ecologia que sustenta homens e Deuses. Rapidamente Zeus pede que a jovem seja devolvida a sua Divina Mãe. Mas esta não é mais o Broto sem nome, mas Perséfone, Rainha dos Mortos.

Atualmente quando ouvimos ou lemos o mito somos levados a pensar que Ela fora enganada e obrigada a passar parte do ano agrícola no submundo. Mas quando contamos algo sobre alguém, falamos mais de nós do que do outro. Talvez seja isso que os gregos gostariam de passar, segundo sua cultura. Mas e segundo a nossa?

É interessante pensar que a Deusa, ao ser levada ao Submundo, não se submeteu, mas aceitou sua posição como Rainha dos Mortos. E mais: ela o fez para oferecer aos outros cuja morte também rapta, uma esperança: a da vida eterna. No submundo, Kore não só encontra seu nome, mas seu destino de levar aos-que-se-foram-antes, a Luz da Esperança. É o que nos faz pensar a estudiosa e sacerdotisa Rachel Pollack, em seu livro "O Corpo da Deusa". Leitura essencial.

Acreditamos que todo o nome seja mágico, e que o poder está nas mãos e ações de seu usuário. Esta seria a função do nome: um marco, um farol, uma referência de seu portador.