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terça-feira, 20 de setembro de 2011

ET IN ARCADIA EGO

Olá como vão tod@s?


Os Pastores de Arcádia, de Nicolas Poussin
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Revi a postagem sobre a exposição Deuses e Madonas [leia AQUI], e com saudades lembrei do passeio no MASP onde me deparei com Nicolas Poussin e sua obra “Himeneu Travestido Assistindo uma Dança em Honra a Príapo”, castrada pelos católicos espanhóis, por temerem a grande ereção do Deus pagão Príapo (filho de Dinísio e Afrodite) ali representada. A exposição do museu também era uma forma de comemorar a restauração feita por uma equipe excelente de brasileiros e franceses. Movido pela curiosidade, dei uma olhada em outras obras do artista pela internet. Uma delas me chamou a atenção: Os Pastores de Arcádia representada ao lado.


A pequena construção que é por eles rodeada no retrato é a lápide de um túmulo. Aquele que está abaixado está a ler uma inscrição feita para lembrar seu ocupante: Et in Arcadia Ego. A frase em latim nos diz em uma tradução livre: eu estive na Arcádia, que é o nome da região que hoje conhecemos como Grécia. Percebe-se como os gregos e sua cultura influenciaram o pensamento artístico e filosófico de Poussin e seus contemporâneos. Segundo fontes pesquisadas, o túmulo realmente existiu e localizava-se em Rennes-le-Châteaut, na França.


Taí uma frase que também gostaria de ter em meu túmulo. Também desejo conhecer o berço das antigas civilizações grega, egípcia, romana, babilônica, indiana, chinesa, japonesa, maia, asteca... tantos lugares, tantas culturas. Quero sentir como o velho e o novo se misturam, como os povos administram este tesouro que é o saber humano antes que nossa estupidez desfaça obras importantes, como os Grandes Budas do Paquistão, explodido pelos talibãs [ver AQUI]. Mas por hora tenho me contentado em conhecer as capitais dos estados deste país de proporções continentais.


Alexandre, o Grande
O ato de viajar nos abre o espírito para o novo e nos faz repensar uma série de coisas sobre nós e sobre o mundo. É impossível não retornar e comparar a cidade onde se vive com o lugar visitado. Para os espíritos visionários tudo o que era belo e funcional que foi aprendido nas viagens é aplicado no lugar onde se mora. E o inverso também é verdadeiro. Alexandre da Macedônia, quando levou a cultura helênica rumo ao leste tal e qual Dionísio, também foi modificado pelos povos por onde passou. Mas lhes garanto que minha comitiva e intenções ao visitar estes lugares seriam mais modestas, rs!


E vocês, para onde irão por este país imenso que apenas começamos a conhecer? Meu desejo é neste Ostara você plante as sementes de todos os seus desejos e que estas germinem e frutifiquem!


Saúde, amizade, liberdade.




Sergio Thot


terça-feira, 7 de junho de 2011

"A VIDA É BREVE. A MORTE, CERTA"

Olá, como vão tod@s?

Ig. N. Sª do Rosário - Ouro Preto
No mês de maio tive contato com o Barroco mineiro através das obras expressas nas igrejas de Ouro Preto, em Minas Gerais. Pela primeira vez me aproximei de algumas obras que só via em livros didáticos da infância ou em fotos. E digo a vocês, parafraseando Belchior, que ao vivo é muito melhor! Rs!

É difícil separar o movimento artístico da religiosidade pois a Arte, queira os artístas ou não, é também uma forma de expressão de sua época e com o Barroco não foi diferente (detalhes AQUI). Nascido em um momento de cisão dos cristãos europeus, entre outras causas, seu principal pensamento era evidenciar a divisão entre os mundos material e espiritual e mostrando é claro as vantagens deste último. E nada melhor para evidenciar tais vantagens que usar as imagens da morte.


A Morte Lhe Cai Bem

A Europa na Era do Barroco tinha muitas dificuldades: convulsões políticas, econômicas e sociais, doenças e guerras ceifando vidas jovens. Numa situação onde o poder constituído precisa instaurar e manter a ordem, nada melhor que o terror e a chantagem.


Mas é preciso ser sutil com as massas, afinal, como diz a nossa Constituição, todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Isso vale para qualquer nação. Para melhor dominar esta massa, (ou seja, você) é preciso dominar seu coração, seus anseios e medos porque assim é mais barato. Quem domina se coração, te domina. E para propagar sentimentos e sensações de maneira rápida para uma multidão de analfabetos as artes são sem-igual.

Arte de Pieter Claesz


Vanitas


Tendo a morte e a danação eterna como aliadas, bastava apenas apontar as opções: a virtude ou o vício. Os artistas chamam esta dicotomia de Vanitas (detalhes AQUI), onde em uma obra é expresso o pensamento que entitula este texto:

A vida é curta. A morte, certa.

Vi estas referências na maioria das igrejas de Ouro Preto. E não é para menos, já que a cidade se firmava em um dos veios auríferos mais ricos da nação. Em um meio assim a guerra entre o vício e a virtude eram evidentes. Mas como estava expresso em uma das igrejas visitadas, bem na entrada e pintada no teto "In hoc signo vinces", ou "sob este sinal, vencerás".



Samhain


Andei muito pela cidade velha com estes pensamentos na cabeça, principalmente porque a sombra do Samhain ainda pairava sobre o mundo. Olhando para as lápides dos diversos pequenos cemitérios das cidades, vendo as datas de nascimento e morte das pessoas, imaginei que tipo de de vida tiveram.

Foi quando lembrei de Sêneca, em determinado momento do percurso, que afirmava:

"A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai".

A arte vanitas diz "lembre-se que morrerás". Já o filósofo romano afirma "lembre-se de viver". 

Confrontando estes dois pensamentos me surgiu então um terceiro: a vida pode ser curta ou longa, depende daquilo que fazemos e de nossa percepção dela. Observando a vida hoje acredito que é melhor lutar a favor da vida que contra a morte. Acredito que o inferno e o paraíso podem ser no aqui-e-agora. Acredito que se eu vier para este mundo novamente quero achar um lugar melhor que o deixado quando habita um corpo anterior. Sim, quero criar o paraíso hoje!


Deve ser por isso que a imagem de pessoas arrebanhadas marchando para o paraíso não me agrade. Nunca fui muito de ter pastor. Se o Divino chegar para por ordem na casa, quero ter a alegria de dizer que já fizemos nosso dever e que a Humanidade finalmente pode resolver seus problemas.




Princípio Positivo

A declaração que fotografei e postei ao lado, somado ao pensamento do filósofo, indicam que já que estamos vivos, façamos nosso melhor.

Declaração em um dos muros da cidade.
"O princípio positivo é isto: se desejamos dar ao mundo uma contribuição de nossos valores, daquilo que temos de melhor em nós é nisso que devemos focar. É lógico que manter o foco no objetivo requer uma postura otimista sobre as coisas. Otimista e realista, diga-se de passagem, avaliando e trabalhando com o que se tem, ao mesmo tempo que se cria alicerces para mudança e crescimento futuros."
Confira AQUI.

Será este um pensamento falho? Minha vida dirá quando chegar o final da caminhada.

Ate lá, viver e não ter a vergonha de ser feliz, ainda que o inverno perdure.

Saúde, amizade, liberdade.


sexta-feira, 4 de março de 2011

VALOR IMATERIAL

Boa noite à tod@s.

Conversava eu com uma ciberamiga, a Eloá Cossa, uma artista de Mauá (cidade da Grande SP) sobre nossas cidades e como elas carecem de coisas essenciais. Confira AQUI os trabalhos dela.

 Como eu, ela se preocupa com as relações sociais travadas na celula-mater da civilização, o ajuntamento humano primordial que é a cidade. Pensem bem: o que seríamos nós sem as cidades? Somente nelas podemos reunir as melhores cabeças e braços para conseguir o mínimo de segurança e conforto necessários. O contrário disso é a barbárie. Bem, parece que há um deserto nascendo no meio das cidades e nele nasce o caos, como aquele buraco negro no centro de nossa galáxia.

De certo modo isto se dá pela coisificação das pessoas. Na coisificação as pessoas perdem valor e ganham um preço. Imagine: se as coisas já são descartáveis, imagine o que se fará com as pessoas? A cada ano nascem centenas de humanos que serão auxiliares disto, meio-oficiais daquilo, prontas para concorrer com quem tem ainda que comer mas que já são velhas, desgastadas, descartáveis. E como nascem muitos, outros muitos podem morrer. Viram estatística.

A violência tem causado medo há muito tempo. As ditaduras que estão balançando no Oriente Médio são sustentadas por ele há décadas. O medo nos paralisa e nos isola das outras pessoas. Ao nos isolarmos nos aproximamos das máquinas, dos gadgets, dos iPads.

Ou dos templos. Daqueles que prometem o paraíso em troca do rancor e da obediência. Barganha-se a vida pelo medo e os fiéis de amar o Divino para negociar com Ele.


Para Certas Coisas Existem Cartões de Crédito. Para Certas Pessoas... Também!

As pessoas não deviam ter preço. E para resistir a isso proponho um conceito já usado pelo capitalismo: agregação de valor e é muito simples: quanto mais conteúdo você tiver, mais valor terá. É um valor imaterial e, fazendo um jogo de palavras, incalculável. E o que é o imaterial?

São as capacidades que fazem as pessoas melhores que robôs como lealdade, amor, desprendimento, fé, misericórdia, liberdade, cultura... que outras virtudes humanas pode-se elencar aqui? A chamada Crise Mundial que supostamente atingiu vários países nos últimos anos se deu por questões econômicas, de fato. Mas é fato também que ela aconteceu porque alguém gastou mais do que devia (ganância) e não cumpriu a regra simples da matemática que não gastar mais do que se tem para não ficar no negativo. Crise é negativa.

Na coisificação tudo é comprável e as pessoas passam a ser recursos com braços, pernas, computadores e buracos com diversas tabelas de preço. Meninos e meninas, temos que parar de produzir peças para este grande moedor de carne econômico e fazer das que existem algo mais do que recursos. Já basta a natureza como recurso explorável

Lógico que não proponho a destruição das máquinas altamente tecnológicas como fizeram os luddites no século 19, mas convém o equilíbrio.

Para tod@s,

Saúde, amizade, liberdade.


S. Thot.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

DEUSES & MADONAS




Olá à tod@s!

Tive o prazer de visitar o MASP (Museu de Arte de São Paulo) nesta semana. O fato é que fazia um curso de uma semana em Congonhas referente ao meu atual emprego na aviação civil e este termina no final da tarde, quando tem chovido diluvianamente na capital paulista. Some este fato à hora do rush na cidade que tem a maior frota de carros do país, e que querem sair todos da garagem ao mesmo tempo! Ninguém merece ficar em busão fechado, em pé, ouvindo funk daquela molecada que não compra fone de ouvido, e com janelas fechadas por conta da chuva que cai lá fora! Então decidi dar um tempo pra cabeça e adquirir cultura nessas horas críticas.

Peguei o metrô e parti para a Avenida Paulista, uma das "praias" paulistanas, título dividido com o Parque do Ibirapuera. As primeiras gotas já caíam pesadas enquanto o céu adquiria vários tons de cinza quando atravessei o Vão Livre do museu. Ingresso na mão, carpe diem!

Dispensa dizer que é gratificante contatar obras que até então só via através de reproduções. Digam o que quiserem, mas ao vivo é muito melhor, como conta Belchior. Destaque para as exposições Deuses & Madonas. Uma coletânea interessante de representações da Virgem Cristã sobre a ótica de diversos artistas, além de pinturas enaltecendo temas pagãos. Destaque para a obra de Nicolas Poussin, “Himeneu Travestido Assistindo uma Dança em Honra a Príapo”, que está acima.


Segundo os Antigos, Himineu vestiu-se de mulher para espionar sua noiva que participava das festividades ao Deus Príapo. Suponho que o quadro retrata o momento exato em que ele participa das festividades, quando cai diante da estátua do Deus. Digo isso porque é a única pessoa que não está dançando na imagem, rs!

Aliás, a disfunção chamada priapismo nasceu do nome Dele, o que considero ofensivo pois este Deus não era um ser doente. Ter esta ereção enorme é que faz dele o Deus da fertilidade. Mas a nossa cultura, que teme o sexo mais que a violência, tratou de domesticar seus atributos.


Sobre o Culto ao Pênis na Antiguidade, leia o texto introdutório no Conselho de Bruxaria Tradicional, clicando AQUI.

Saibam que o MASP restaurou a pintura após a castração de Príapo feita pelos espanhóis católicos que tremeram diante da visão de ereção tão potente. O quadro fora adquirido em 1953 mas só recentemente pode ser visto em toda a sua glória.

Vou colocar o antes, o depois e não me venham com moralismos caducos, hein? Se tá no museu pode vir para o blog também. E aqui o link da notícia sobre a restauração.

Recomendo a visita.

Serviço:
Av. Paulista, 1.578, 3251-5644, metrô Trianon-MASP.
Das 11h/18h (5ª, 11h/20h; fecha 2ª).
R$15,00

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

PROJETO 365

Olá, pessoas!

Conheci o projeto 365 através do Blog da amiga Hazel, o Casa Claridade. A proposta do projeto é simples: contar sobre seu dia através das fotos que tira  você em seu cotidiano. Um dia, uma foto. Isso pede um olhar diferenciado da realidade, um apurado grau de percepção tanto de quem "lê" como de quem "escreve" a história.

Mas como tenho o hábito que conhecem bem de olhar para o outro lado da história, me vi com a seguinte pergunta: teria eu cacife de não me repetir nas histórias que conto dia após dia? Lutamos tanto para ter um dia rotineiro, pegando sempre o mesmo ônibus no mesmo horário com as mesmas pessoas, rumando para ambientes controlados... Haveria espaço para a magia em nosso dia-a-dia?

E como é seu dia? Acontecem 365 coisas mágicas durante seu ano? Isto é uma decisão nossa, ou é algo sobre qual não temos controle? Ou são ambas as coisas?

Não raro desejamos que nossa vida seja rotineira. Emoções a gente compra pela tevê à cabo, ou com drogas lícitas ou ilícitas.


A Vida é Uma Montanha Russa

Lembrei da época em que morava de aluguel em cima da casa de minha senhoria. O marido dela, supostamente, era cardíaco e não podia passar por grandes emoções. Nenhuma. Isso tornara minha existência na casa um tormento pois andar pelos cômodos exigia mil cuidados para não fazer nada errado, nenhum barulho.

Curiosamente tudo de errado acontecia, o que me deixava estressado e triste. Mas certo dia mudei e tudo passou. E não adiantou nada proteger o homem de sua vida , pois o senhor acabou morrendo do mesmo jeito, com o sem emoção. Ela se foi um ano depois. E a vida segue.

Nossos problemas são tão gigantes... mas são só nossos. Para o resto do mundo o dia que passou foi só mais um dia. Talvez não seja interessante levar uma vida de carrossel todo o tempo. Devemos nos divertir também nas horas da montanha russa!

Conheça o Projeto 365 e nos conte em imagens como foi o seu dia.

Saúde, amizade, liberdade




terça-feira, 2 de março de 2010

DA BELEZA




Os aterros sanitários que me perdoem, mas a beleza é fundamental. Digo isto pensando nas ruas de meu bairro onde pessoas depositam toda a sorte de lixo e entulho. Isso apesar dos PEV's localizados em vários pontos da cidade.

Percebi que os locais servidores como pontos para desova de resto de obras, móveis e afins já estava degradado pelo tempo, uso ou pixações. Que um lugar abandonado é desculpa para chegar lá e depositar sua contribuição.

Fazendo um paralelo é como encontrar uma mulher amarrada e vítima de um estupro e supor que também pode-se tirar uma lasquinha só porque o mal está feito e ninguém está vendo ou ligando.


Acredite na beleza

E aqui eu pego uma carona em um comercial da Boticário que trata justamente disto: da crença que a beleza é contagiante e melhora nosso cotidiano, assim como o inverso também é possível.

Para melhor destruir o que é mais importante reduzimos tudo a coisas. Chamamos florestas, focas, baleias, mulheres, crianças, montanhas, rios de recursos, espólios de guerra, troféus. Porque ao lhes conferir beleza somos obrigados a respeitar limites e reconhecer os sacrifícios que lhes infligimos.

Quando exposto ao que é belo, tudo que é mal se incomoda, escarnece e reaje com violência. A beleza não é um estado de espírito ou uma forma estética, mas também uma arma revolucionária.

Então, quando for a luta, não batalhe contra o feio. Lute pelo belo.


Sergio Thot.

Face

Ps.

Tempos depois desta postagem li esse texto interessante no Blog Duplamente Venusiana sobre o Por que a Beleza tem que ser Divertida. Segue um trecho e depois clique no link acima:

"Não é uma beleza que distancia. Pelo contrário, me vi conversando com uma travesti (que era doze vezes mais feminina do que jamais serei) sobre cores de esmaltes, na fila do supermercado.

Começando conversas ou quebrando a tensão, quando no meio de uma reunião tensa alguém reparou nos pequenos arco-íris nos dedos e senti o clima ruim dissipando no ar."


 

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

DA TRANSFORMAÇÃO





Existe na Física um conceito chamado entropia, usado na termodinâmica para explicar, por exemplo, porque os cubos de gelo derretem em sua coca-cola. Ou na eletroquímica, para explicar como a oxidação deixa o suco de laranja amargo com o tempo. A termodinâmica nos mostra o porquê tudo se deteriorar.



E para garantir nossa sobrevivência e/ou conforto, sempre lutamos com a tendência natural das coisas se desagregarem, enferrujarem, caírem, morrerem. É o trabalho dos mecânicos, faxineiros, jardineiros e da manutenção em geral. É um esforço contínuo manter este mundo funcionando.

Mas tudo caminha para o caos, guarde estas palavras.


O nascimento da Humanidade

Quando a consciência humana despontou no horizonte do mundo natural, questões urgentes precisavam ser resolvidas: como obter caça, pesca, frutos, abrigo, calor., segurança, cura Somos
socius por natureza e por imposição das circunstâncias, então percebemos que se trabalhamos juntos os resultados são melhores.

A tomada desta consciência de que juntos é melhor nos leva a criar coisas, nomeá-las e transmiti-las para outros de nós. Começamos assim a transformar o horizonte natural e modela-lo à nossa imagem e semelhança.

Com a combinação de conhecimento acumulado de tantas pessoas por mais tempo, mais habilidades, mão-de-obra e material natural, erguemos do solo e de tudo que está sobre ele todos os itens que precisamos para sobreviver e depois viver com algum conforto.

 E a inovação não para: os materiais ficam mais refinados; a linguagem verbal e não-verbal fica complexa e a transmissão deste conhecimento por via oral e sua manutenção na memória não mais suporta a carga de conteúdo acumulado. É preciso gravar na pedra, no barro, no papiro, no pale no disco rígido. Tudo isto culmina em ferramentas melhores e mais complexas, em vidas mais complexas e relações mais complexas. 10.000 anos depois temos nossa sociedade pós-pós-moderna.

Mas esquecemos de onde viemos, de onde tudo vem. Achamos que o mundo sempre existiu, que o ovo vem da geladeira e o leite do supermercado. A conexão com a terra foi perdida. A percepção da transformação foi perdida.

Não sem um custo para a Natureza.


Filhos de Sísifo

Eu seria muito ingrato se mal-dizesse todas as conquistas que a raça humana obteve e que permite uma vida de certos confortos a uma boa parcela da população, eu incluso. Mas também seria um inconsequente que este mesmo conforto, mesmo não chegando a toda a humanidade, ainda sim mina as reservas que a Mãe possui.

Depois de tanto tempo só sugando agora este ritmo ao qual esta parcela de privilegiados possui (nos quais incluo eu e você, que tem água tratada e encanada em casa), é preciso:

*garantir que os que não têm tenham acesso ao básico-do-básico. Se não por questões éticas, ao menos para evitar a guerra por água e energia.

*garantir a sobrevivência das áreas do planeta que ainda continuam silvestres, afim de garantir nossa própria pele.

Como podem ver, é um trabalho digno do próprio Sísifo! Não sou um fatalista e vejo no personagem mais do que seu final, vitimado pelo colérico Zeus. Astuto, não deixou que sua condição mortal interferisse em sua vida e usou da inteligência e astúcia para vencer as dificuldades. Sigamos seu exemplo!


Parteiros de Deus


Costumo assistir a muitos documentários no Discovery e em todos eu vejo o milagre da criação humana. Trabalhando na área de manutenção pesada aprendi a admirar o trabalho de outros profissionais deste e de outros países. Em todas as áreas. E vejo neles Hermes, Osiris, Hefestos, Dionisos, Ícaros... todos lutando contra a tendência natural que nos leva a estabilidade passiva.


Todos eles erguem da carne da Deusa um Deus-menino, cuja maturidade se concretiza na obra pronta, acabada. E que encontra seu fim como tudo nesta terra. E só agora aprendemos instintivamente que de carcaça de um Deus-morto pode surgir um Hórus, um Osíris renascido, assim como o sol que nasce toda a manhã ainda é o mesmo sol que se pôs na noite anterior.

Tudo tende ao Caos. A Ceifadora sempre pede seu preço, mas dos escombros e do Caos sempre fizemos o Novo. E sempre faremos enquanto a terra nos sustentar. Que o sacerdócio não se prenda somente ao círculo mágico, mas que este se estenda ao horizonte que é circular também. Que um Deus nasça todo dia dos frutos de nosso suor e que sejamos nós, além de seus sacerdotes e sacerdotisas, também parteiros.

Que Assim Seja!


S. Thot

sábado, 11 de abril de 2009

DA ARTE




Nos desenhos animados e nos filmes antigos nos acostumamos a retrata os homens das cavernas como seres primitivos. E particularmente nunca pensei muito no assunto.

Mas lendo obras como o Corpo da Deusa percebi que há um engano nessa ideia. Que não há primitivismo no ser humano que viveu no neolítico europeu pois suas criações artísticas revelam uma forma de pensar o mundo que não se difere muito da nossa, apesar de sua baixa tecnologia.

Olho para a Venus de Willendorf e penso na pessoa que a esculpiu. Não era um primitivo, um ignorante, mas alguém dotado de profunda sensibilidade que, com ferramentas precárias se comparadas com as de hoje, gastou seu tempo e energia para fazer arte. Talvez arte para um símbolo religioso ou amuleto. Mas arte.

Ou as figuras de Lascaux, cuja a produção só seria possível através da construção de andaimes dado o tamanho das obras. Eu não tinha noção de como eram grandes! Veja: um grupo de pessoas se dispõe a trabalhar no escuro, usando somente tochas, misturando tintas, construindo estruturas e gastando seu tempo pintando em cavernas para expressar algo que sentiam, uma visão de mundo. Não, não são primitivas.

Em muitas destas sociedades a questão matrilinear é colocada como verdadeira, devido a importância que a mulher era retratada. Existe a crença de que existia um culto à Deusa Mãe que cria força entre os estudiosos, mas sem provas concretas. A única coisa que é possível dizer a favor deste conceito é que não existem imagens de violência, de guerras ou armas retratadas em um bom período do neolítico europeu até a chegada de tribos belicosas vindas do leste.

Com este novo olhar, penso naquilo que faço hoje, nas contribuições que dou ao tempo e espaço em que vivo e que tipos de coisas ficaram de mim e do mundo em que contribuo com minha força, pensamento e emoção.

Pelo quê seremos lembrados?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

DAS BRINCADEIRAS





Aspectos dos rituais de bruxaria pode, por vezes, parecer absurdos a pessoas muito sérias, que falham em perceber que o objetivo do ritual é o self mais jovem. O senso de humor, de divertimento, são frequentemente a chave para desencadear estados os estados mais profundos da consciência.


A Dança Cósmica das Feiticeiras - Starhawk


O sistema econômico atual nos acostumou a nos fazer pensar no mundo como um lugar onde as coisas podem ter um valor, de preferência monetário. Então esquecemos que boa parte das coisas que nos são mais caras, mais importantes, não são compráveis: um abraço, um beijo, uma palavra amiga.

Quando alguém olha para árvores juntas em um bosque, ou em campos a perder de vista, pode pensar em toras para vender, pastagens para gado ou dizer simplesmente que tudo aquilo é mato. E mato quer dizer inútil para o comércio.

O mesmo se dá no campo das ações humanas. Estamos criando uma máquina tão complexa que hoje temos que atender não à nossa experiência pessoal, mas a procedimentos. Devemos seguir o manual à risca. E isto não é ruim. Na verdade, estamos tao mergulhado na máquina que morreríamos se não fizéssemos assim.

E este processo migra do mundo adulto para o infantil. Não raro passo por escola de ensino infantil que possuem pedagogia empresarial. O espaço para o questionamento, a experimentação, o conhecimento... está tudo desaparecendo, engolido pelo download.

No entanto as coisas (e porque não dizer, as pessoas) possuem um valor intrínseco. Algo que ultrapassa os cifrões e que deve ser levado em consideração. Se nos habituarmos a vermos as coisas assim, de modo partido, desarticulado do todo, não perceberemos quando movermos certas peças. Peças estas que darão início a uma reação em cadeia que tornará nossa existência um pouco mais difícil.

Faça uma verificação de sua vida hoje e veja o que realmente importa para ser carregado e aquilo que é peso morto. Olhe as coisas pelo olhar de uma criança, no sentido de somente querer aquilo que realmente usará.

Vá pelo caminho da simplicidade.


Saúde, amizade, liberdade.


Sergio Thot


Ps.: veja também o texto 1000 ideias para pais pagãos, no blog Crianças Pagãs.




quarta-feira, 25 de março de 2009

Movimento

Afinal o que pode representar melhor a Magia do que nosso corpo???
Mesmo parados, estamos em movimento, nosso sangue circula, nosso coração pulsa, nossas células dançam em sincronia.
Movimento é energia... energia é vida.
Por isso que a dança do ventre representa a Fertilidade Sagrada. Poi dançando estamos fazendo do nosso corpo uma fonte dessa energia e transbordando-a para o universo!
Parece simples, mas pensando nisso, vemos que sem a dança nosso mundo morrerá.
Mulheres, por favor dancem!
Dancem a vitória, dancem a tristeza, dancem para lutar, dancem para fabricar alegria. Dancem para dar a luz, dancem para morrer!
Se pararmos o que será da Magia?
O que será do Divino?
E com o suor escorrendo entre os seios poderemos sentir a vida pulsando dentro de nós junto com a Grande Mãe!
Bendita seja Gaia que dá o apoio dos nossos pés!

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

BORBOLETAS E MACHADOS


Há uma linha de raciocínio interessante ligando um inseto ao Sagrada Feminino na Ilha de Creta, exposto no livro "O Corpo da Deusa" de Rachel Pollack (Ed. Rosa dos Tempos). Mas antes de tratarmos deste assunto, necessita-se pousar o olhar sobre o conceito do símbolo e do objeto para continuarmos.


Um dos prováveis abismos que separa o homo sapiens das outras espécies é sua capacidade abstrativa, de imaginar algo que ainda não existe. Esta qualidade nos capacita a prever situações perigosas ou vantajosas à 300.000 anos, e nos oferece subsídios para criar em nossa mente e depois no mundo material, toda a sorte de coisas, de residências a ferramentas, pontes, carros, aviões, naves espaciais.


E também arte.


E o que é arte?


Entendo como Arte toda a obra humana que vai além do princípio utilitarista, do mero servir para um propósito concreto, e que nos dá um conjunto de sensações diferentes daquilo que o uso do objeto propunha inicialmente.


Veja AQUI outras definições do que é a arte.



A arte no Neolítico

No período que os historiadores chamam de neolítico, o sapiens viveu o auge da explosão criativa humana, notadamente na Europa e Oriente Próximo. Ora, arte não tem definição precisa, mas é algo que faço em meu tempo livre (isso quando não possui função devocional ou laboral), onde reproduzo no físico algo que só a mente abstrata consegue abarcar.

É comum pensarmos nestas pessoas como seres rudes e incultos, mas locais como Lascaux, na França, provam que a arte não só lhe era familiar como também necessária. Nas cavernas francesas encontramos representações de animais de até quatro metros de altura! Para realizar tais obras, comparáveis ao meu ver as obras da Capela Sistina de Michelangelo, estas pessoas tinham que construir andaimes, dominar técnicas de pintura e ter senso estético apurado. Tinha que dispor de tempo e energia para buscar materiais, escolher o tema e a melhor superfície para pinta-la, e fazer o trabalho. 

E a construção do símbolo é um componente principal da criação artística.


O Machado Duplo

E então entramos no tema principal do texto, que é a criação artística dos machados duplos cretenses. Podemos pensar neles como meros instrumentos de corte para trabalho ou mesmo em um eficaz instrumento de guerra dos tempos anteriores ao uso da pólvora, mas seu aspecto simbólico neste caso soa mais forte.


Onde hoje é a ilha de Creta fora o berço de uma grande civilização ocidental. Antes da invasão e/ou absorção pelos povos indo-europeus caçadores, supõe-se que viviam na região um povo adorador do Sagrada Feminino. Registros arqueológicos apontam que o local vivia em relativa prosperidade e era, de modo geral, pacífica devido a ausência de construções de defesa.

Comerciantes, mantinham contato com povos próximos no próprio Peloponeso e na Sicília. Sua cultura cai com a ocupação dos aqueus e a posterior invasão e/ou absorção dórica. Sua principal cidade fora Knossos.

Em diversos pontos da ilha encontraram-se machados duplos, mas ao contrário do senso comum, não há evidências mostrando que fossem armas de guerra. Aparentemente eram objetos dedicados a Deusas locais. Chamavam-se labrys. Ora, a palavra labrys, segundo a autora Rachel Pollack está relacionado a 'labia' ou lábios da vulva.

Nestes machados duplos, variáveis em tamanho, encontramos gravados imagens de borboletas que também se assemelham aos genitais femininos.

As Borboletas

Curiosamente a raiz grega para a palavra borboleta remete a palavra 'alma', ou psyche. Psiquê, para os gregos, foi uma Deusa que rumou ao submundo (inferno, inconsciente), local presidido por Hades e principalmente Perséfone. Esta Deusa (segundo Pollack, 'aquela que luta na escuridão') fora raptada por Hades com a permissão de Zeus, mas encontrou na situação seu próprio poder.

E não emergem as borboletas da morte quando saem de suas crisálidas?


Conexões

Deméter, senhora das plantas selvagens e mãe de Perséfone, só tomou conhecimento do rapto (ninguém tinha coragem de contar-lhe temendo a ira de Zeus) por intermédio de Hecate, senhora da Lua.

Observem a sutil conexão entre todos estas grandiosas Deusas! Não busquem entender, mas sentir. Leiam as histórias, procurem imaginar seus papéis segundo as mulheres modernas e suas lutas diárias. Aprendam com elas sobre seus mistérios e símbolos. E aqui retornamos ao princípio, como na espiral.

O símbolo é altamente plástico, como vimos. É preciso vivê-lo para compreende-lo. Apenas lhe apresentei as peças do quebra-cabeças cuja a imagem muda conforme o observador, a cultura e o tempo.

À propósito hoje, por exemplo, o
labrys é um símbolo feminista. E o athame deixou de ser um mero punhal e é parte integrante de muitos rituais pagãos.

Maravilhoso, não?

Perguntem sempre, pesquisem mais, vivam a Religião!

Saúde, amizade, liberdade.


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