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terça-feira, 21 de junho de 2011

A MAIS ESCURA DAS NOITES

Olá a tod@s!


Como vão vocês na mais escura das noites?


Pensei muito na questão da noite escura conforme o sol descia ao horizonte. Passava um pouco das 17h20 em São Paulo e o manto de Nix avançava pelo céu com incrível rapidez. Mas nós moradores das cidades vivemos dias artificiais através das luzes elétricas, longe das florestas negras e criaturas da noite.


Então não temos a exata percepção da importância da data e de como o astro-rei nos é essencial. Só quem vive à maneira antiga, e os enclausurados, sabem o que é perder o sol. Imagino o desespero de Korê e de Deméter, cada uma vivendo a sua própria escuridão e desespero. Leia sobre minhas percepções de Korê/Perséfone/Prosérpina AQUI. 


Lembrei de Korê, a Deusa Raptada, na noite de ontem assistindo a um documentário que me tirou boa parte do sono. Este falava de duas meninas russas raptadas, mantidas cativas no subsolo e seviciadas por quase quatro anos em troca de comida e água. Para elas foi o mais longo dos invernos. Leia AQUI.




"Não Sou Vítima"


Mas lá nas profundezas, entre as garras da morte elas encontraram suas forças. Primeiro em si mesmas e depois uma com a outra. Desta forma enganaram seu carcereiro, pediram socorro e foram libertadas. Seu agressor preso e mandado para Sibéria. Eu pensei "Minha Deusa, ficaram marcadas para sempre". Mas qual! Tempos depois voltaram as duas, entraram no cativeiro e perceberam que o medo que sentiram fora embora. Ambas casaram e são felizes ao que parece. "Não somos vítimas. Nunca pensei em mim como vítima", exclamou uma delas.


Hoje é a noite mais escura, e/ou fria e/ou estéril do ano e ao mesmo tempo tal data é carregada de promessas. Pois foi em uma época como essa, onde um dia nossos temores parecem mais profundos, que uma Korê raptada encontrou sua força e se transformou em Perséfone. Sabe como?


Dando um sentido à sua vida. "Sou uma Deusa, filha de uma Deusa. Quero viver e ensinar a outros o que sei. Ensinar através daquilo que vi e vivi.", ela disse. E nas profundezas da terra uma luz de seu amor para nós brilhou. E foi essa luz que não só iluminou seu caminho de volta como serviu de farol para outras almas que quiseram retornar à Roda da Vida.


Nossas meninas russas fizeram seu caminho de Perséfone também, pois amaram a Vida e uma a outra na escuridão infernal e foi esta força que as levaram para luz. Foi a lição de Yule que aprendi este ano.


Também somos filhos do Deus e da Deusa. Encontre o sentido para sua vida, algo que vá além de você mesm@ e foque nisso neste ano que se inicia. A caminhada logo se iniciará. Junte suas forças!


Saúde, amizade, liberdade!


Feliz Yule.




Sergio Thot.




segunda-feira, 31 de março de 2008

DAS PRAGAS




Nem tudo é doce e claro sob o manto da Deusa, ou colhemos sempre bençãos. Às vezes somos tomados pela consciência de que dividimos o mundo com outras criaturas vivas, e que elas possuem um ritmo próprio. É um processo que envolve dor e perda.


A Ceifadora

No começo do dia os campos estão verdejantes, frutos e talos cheios de seiva brilhando ao sol. E de repente tudo é ameaçado pela praga. São súditos das divindades que chamamos de escuras, ceifadoras. São as que aparecem para receber o quinhão que a vida sempre cobra, mas cuja parte do contrato nós nem sempre lembramos que existe.

É curioso que muitas vezes nossas as mãos que arrancam do solo a mandioca para nosso sustento. Que nós somos para os outros os enviados da Ceifadora.


Fim do caminho

Tudo é cíclico, mas isto é um conceito, é razão. Os caminhos do coração são mais tortuosos e a incompreensão e impotência nos tomam quando achamos que fazemos tudo certo e o destino tem seus próprios planos. É preciso então encontrar nosso centro deste carrossel e de lá observar de outra maneira os acontecimentos e melhor avaliar o que fazer.

Sun Tzu, estrategista militar, conta que ficar parado também é um movimento, desde que se saiba o que se está fazendo. Nós lutamos contra a praga com todas as nossas forças, e elas surgem em mais e mais. Chega uma hora que é preciso reconhecer e jogar a toalha. Deixar que as lágrimas finalmente se vertam pela face queimada do sol enquanto os frutos do trabalho de tempos se vão.

Enquanto o mundo trabalha, nós guardamos forças para o recomeço. E é isto que se faz quando as forças são gigantescas em dado momento: você espera em lugar seguro para que elas se esgotem, pois tudo é cíclico.

E então, no momento oportuno, com energias renovadas, as ferramentas certas e um plano eficaz, retornamos à cena, belos e brilhantes.

Até lá, abracemos e fortaleçamos uns aos outros para melhor enfrentar o frio, medo e a fome.

Que Assim Seja.

sábado, 8 de março de 2008

DA MULHER



O Dia Internacional da Mulher hoje é comemorado com flores e bombons, mas suas origens são menos nobres e alegres que as atuais.

Um dedinho de história
No dia 08 de março de 1857, 129 em uma fábrica de Nova Iorque foram mortas por um incêndio causado pela polícia durante um protesto por redução de carga horária e auxílio-maternidade, além de outras reivindicações.

Hoje, porém, pouco se comenta sobre estas coisas, salvo publicações feministas, de cunho socialista ou histórica.

Incesto, estupro e as mais variadas formas de violência cometidas contra o feminino (e porque não, machos-beta também), seja em nível divino ou humano, não encontram atualmente seu contraponto. Hoje o feminino assumiu o título de "cachorra" em muitas partes do país, salvo exceções. Tudo é comerciável sob o Capital, e se um corpo está no mercado, porque não comprar?

Estranho é que muitas aceitam o posto. Muitíssimo estranho é o silêncio da maioria. Muitisíssimo estranho é um homem tocar no assunto...

O Corpo da Terra
Não é exagerado dizer que aquilo que acontece ao corpo nosso também acontece ao corpo da Terra. Os mitos gregos, que ajudaram a moldar a consciência do mundo ocidental, nos dão pistas de como isto se dá através das histórias de Zeus, senhor do Universo.

Preocupado em satisfazer a si próprio e aos seus interesses, ele vê, vai e vence. Submissão aos seus desejos é a única alternativa. Sua tomada de poder segue um ciclo de violência começado por seus antepassados, do qual ele é mero seguidor.

Gaia, Demeter e Kore... avó, mãe e filha, são apenas mais uma peça no espólio de guerra. Hoje a história se repete em Danfur com os estupros sistemáticos, na Argentina com as famílias que buscam o corpo de seus parentes mortos pelo regime militar, no interior de nosso país nas lutas campesinas.


A Mulher Pagã

Sabem, sempre desejei que as mulheres pagãs tomassem a frente das iniciativas sociais em defesa de seu gênero. Afinal, muitas delas usam como travesseiro o livro Mulheres que Correm com os Lobos, da escritora Clarissa Pinkola Estés. E leio muito sobre a descoberta que muitas mulheres fizeram a partir desta obra e das rodas de conversa propostas por muitas delas em todo o mundo.

Meu desejo mais profundo é que estes círculos de poder se fortaleçam e que, quando chegar o momento, possam convidar homens interessados nas mulheres lupinas para que juntos possamos mudar a realidade do mundo. Acredito hoje que são as mulheres pagãs as mais aptas para realizar esta transformação, se a semente da mudança for bem cultivada em seu coração.


Perguntas pertinentes
A quantidade de mães solteiras cresce a olhos vistos. Como esta nova geração se desenvolverá?

As clínicas clandestinas abortivas operam a todo vapor. Legalizar? E em que moldes?

Mulheres da África e Oriente são vítimas de apedrejamentos e estupros em massa(!). Não é de nosso país, nem de nossa religião, logo não é de nossa conta?

Como ver a Terra como Mulher mas permitir que suas filhas sejam violadas desta maneira? Ninguém ouve os gritos de Korê?

E mulheres do meu Brasil, lembrem-se da máxima: antes só que mal acompanhada!


domingo, 4 de novembro de 2007

DO SEXO




Sempre estranhei que as comunidades wiccanas do Orkut, em uma religião onde o feminino tem primazia, comentem tão pouco sobre a condição da mulher no cotidiano, seja aqui ou no mundo.


Incesto, estupro e as mais variadas formas de violência cometidas contra o feminino (e porque não, machos-beta também), seja em nível divino ou humano, não encontram aqui seu contraponto.

Por outro lado nós pagãos vivemos nos "desculpando" por encarar a sexualidade de modo mais livre. Se dizemos que certos grupos se vestem de céu em seus rituais é o horror dos horrores. O que é estranho pois, as mais populares músicas de nosso país, mulheres são "cachorras".

Estranho é que muitas aceitam o posto. Muitíssimo estranho é o silêncio da maioria. Muitisíssimo estranho é um homem tocar no assunto...


Perguntas pertinentes

A quantidade de mães solteiras cresce a olhos vistos. Como esta nova geração se desenvolverá?

As clínicas clandestinas abortivas operam a todo vapor. Legalizar? E em que moldes?

Mulheres da África e Oriente são vítimas de apedrejamentos e estupros em massa(!). Não é de nosso país, nem de nossa religião, logo não é de nossa conta?

Como ver a Terra como Mulher mas permitir que suas filhas sejam violadas desta maneira? Ninguém ouve os gritos de Korê?


Beltane

Para os que rodam pelo Sul vivemos o Beltane, e com ele todas as associações sexuais possíveis. Mais lembremos que o sexo, de um modo geral, é visto ou com reservas ou com escárnio.

É este um bom momento para uma discussão profunda sobre isso.

Ou será que são tudo flores?

Kali, olhai por nós!



quarta-feira, 18 de julho de 2007

PERSÉFONE




Há no vale do Ena, um lago escondido no bosque, que o protege contra os ardentes raios do sol; o terreno úmido é coberto de flores, e a primavera reina ali perpetuamente.

Prosérpina lá se encontrava, brincando com suas companheiras, colhendo lírios e violetas, e enchendo com as flores seu cesto e seu avental, quando Plutão a viu, apaixonou-se por ela e raptou-a. Ela gritou, pedindo ajuda à mãe e as companheiras; e quando, apavorada, largou os cantos do avental e deixou cair as flores, sentiu, infantilmente, sua perda como um acréscimo ao seu sofrimento.

O raptor excitou os cavalos, chamando-os cada um por seu nome e soltando sobre suas cabeças e pescoços as rédeas cor-de-ferro. Quando chega ao Rio Cíano, e este se opôs a sua passagem, Plutão feriu a margem do rio com seu tridente, a terra abriu-se e deu-lhe passagem para o Tártaro.

Ceres procurou a filha por todo o mundo. Aurora, dos louros cabelos, ao sair pela manhã, e Hespéria, ao trazer as estrelas ao anoitecer, ainda a encontraram ocupada na procura. Tudo foi em vão, porém.

Afinal, cansada e triste, ela se sentou numa pedra e continuou sentada, durante nove dias e nove noites, ao ar livre, ao ar livre, à luz do sol e ao luar, e sob a chuva.

Da obra de Thomas Bulfinch, O Livro de Ouro da Mitologia

É fim de tarde de abril. Há dias não chove, e o cheiro de urina humana é forte. Com seus grandes ossos, Gaia brota da terra e é testemunha muda na Praça das Pedras, no Macedo. Mas é provável que você não more aqui, e não saiba que a tal praça é um lugar onde mulheres vindas da escola, professoras e alunas, eram violentadas. Não, se você não mora aqui não tem como saber. Muitos dos que moram aqui não sabem!

Não raro tiveram aqui outras Kores encontros escuros com seres violentos, e foram levadas à força. Mesmo com a reforma e iluminação da Praça das Pedras, ainda os jovens da escola próxima e mesmo adultos receiam em passar próximo das sombras das grandes pedras. Como Kore, temem o poder que se esconde anônimo no escuro, pairando negro como as asas da graúna. Tentam afastar da mente estes pensamentos, no temor que eles chamem para si aquilo que se esconde entre as fendas.

Mas, para algumas, isto não basta.

O cheiro de urina é forte, atestando que ali algo morreu da civilização. Demeter se recolhera e grande é sua dor. Sua ignorância fora roubada e não há no mundo descanso para sua cabeça. Todos os travesseiros são de pedra. Mãe e filha vagam juntas, mas cada uma em um mundo. Uma clama por justiça, outra por consolo. Não há mais como afastar da mente aquilo que já marca o corpo. As cicatrizes são como veios da rocha nua. E é na percepção disso que finalmente, embora separadas, mãe e filha se encontram. Pois há outras mães e outras filhas, e os olhos já podem ver melhor.

Mãe e filha se encontram em si mesmas. Encontram em si e se encontram na outra a força que precisavam. Encontram em si e nas outras mães e filhas os meios para que as sombras não mais cubram as bocas dos que tentam gritar.

Com tochas elas iluminam as fendas e algo foge para o interior da terra. A luz do conhecimento deve ficar acesa. Que todos saibam.

Elas lavam e secam umas as outras. É um batismo. Batismo de fogo e de água, pois foram e retornaram. Batismo de terra e ar, conquistando firmeza e conhecimentos. Não mais inocentes e ignorantes. Não mais virarão seus rostos, ou apagarão da mente os perigos. Renascidas, são guerreiras.

Se antes Ela fora levada, agora retorna só e com os próprios pés. Na escuridão, Ela viu dentro de si a luz. E ardeu, e sua chama é um farol para outros pela sombra sequestrada.
Ela move as rochas e os que assistiam se curvam diante delas. A Deusa consigo traz sob seu manto miríades de sequestrados pelo escuro, e todos são gratos. O resgate fora pago com amor e conhecimento. Na escuridão houve luz, e quem teve coragem e fé, seguiu.

É manhã, e o céu e a terra se unem num beijo molhado de chuva. Há cheiro de rosas no ar.



A música que segue agora me faz chorar sempre que ouço & canto junto. Canta comigo?