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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

DO SER




"Eu sou a Deusa de tudo o que vive"


Trecho d'A Carga da Deusa, de Doreen Valient

O que é Ser? Como é que eu sei que eu existo? Existir é ter participação no mundo físico, no mundo concreto, mas o Ser vai além disso. O Ser mora no campo das idéias, do abstrato. Ser é ter, mas também Ser é Fazer.

A não-percepção disso configura um obstáculo que atravessamos e que, quando alcançado,  possibilita sermos os filhos maduros da Criação.


No Passado

Segundo a obra Mitos Primais, da escritora Barbara C. Sproul, a tomada da consciência é um processo doloroso, tanto física quanto intelectualmente e isso fica evidente após o estudo das mais variadas nuances culturais humanas. Em boa parte delas existe a descrição de uma gênese impecável feita por um Deus/ Deusa/ Deuses em geral bons, onde a primeira fase da raça humana vive uma pré-existência pura e perfeita. Mas algo realiza uma perturbação na ordem em determinado momento e um herói (ou vilão, dependendo de quem olha) provoca a ira Divina.


Prometeu é punido por Zeus a ter seu fígado devorado por um pássaro devido ao roubo que perpetrou quando se apossou do fogo dos raios divinos para traze-lo aos seres humanos.

Um mito muito conhecido nosso diz que o nascimento da consciência humana se deu quando o primeiro homem comeu do Fruto do Conhecimento e tornou-se mortal, ou tomou consciência de que podia morrer, algo que não se pode dizer que a maioria dos animais tenham.

Ou mito do Deus P'an Ku, venerado no sul da China, cujo o corpo sacrificado é usado para construir o universo e marca o fim da Era de Ouro da humanidade. Tudo que é morto torna-se pai, já disse alguém.

Parece que sempre que despertamos para a realidade perdemos algo. Perdemos de fato a inocência. Mas o sacrifício feito nos capacita a Ter e a Fazer coisas.


Ter


Pela primeira vez, quando despertamos do caos para a realidade, temos a possibilidade de ver o Outro, o Restante. Recuamos. E este passo para trás nos possibilita vê-lo por inteiro, nomea-lo e, ao lhe dar um nome eu acabo possuindo-o. Este sentimento de posse também se volta para nós e a primeira coisa que agarramos é a nossa lembrança, a nossa história. Possuir uma história significa que vivemos há algum tempo e a cada dia temos maior posse sobre nós mesmos.

Ter história nos confere humanidade. Quando alguém tenta nos destruir fisicamente o faz primeiramente em sua própria cabeça negando-nos nossa humanidade, nossa história. Somos coisificados, rotulados, perdemos nosso nome próprio. Então eu não sou mais o Sergio, mas sou negro, bruxo, são-paulino. E, dependendo da situação, estes rótulos bastam para que outra pessoa encontre nisso uma desculpa para me aniquilar.

Ter história garante a mim mesmo que eu existo. E, ao garantir isso, eu sei que a minha vida vale, entre outras coisas, ser defendida.


Fazer

Se o Ter corresponde ao campo do abstrato, Fazer me coloca no concreto pois eu transformo o mundo ao meu redor, o mesmo mundo que compartilho com outras pessoas. Pois eu não posso viver exclusivamente no campo virtual, mas preciso partir para o real a fim de que aquilo que eu imaginei realmente exista.

Parece óbvio isso que eu escrevi mas não o é para muita gente, principalmente nesta geração internética. No mundo pasteurizado da Web, onde não há pó, lama ou arestas cortantes, é fácil achar conforto mental. Basta navegar pela rede.

Mas o termo navegar é emprestado de uma situação real onde se ia de um ponto ao outro a fim de obter um ganho específico. Ficar ao sabor do vento não é algo recomendável quando se está em mar aberto e se tem família em terra para sustentar. Fora que o ambiente é altamente instável. Se bruxo, por exemplo.



Muitos bruxos hoje querem ficar apenas no virtual, escondidos. Mas a obtenção de conhecimento da Religião não advém só de sites e blogs, mas também da experiência no mundo real, no convívio com as pessoas e de como tudo isso nos afeta, nos toca.

Se eu não faço eu não sou. É impossível ser motorista sem dirigir regularmente, ou ser padeiro sem fazer pão, ou ser pedreiro sem construir casas. É a partir da ação sobre o mundo real que o ser que tem história se completa.


Finitude

Há um elemento que acompanha a tomada de consciência do Ser: mesmo desperto ele está sujeito as leis naturais. E é aí em que a percepção do Eu é um fardo, pois saber que existo implica em saber que um dia eu não existirei mais. O que gera angústia e o desejo profundo em retornar ao estado de não-Ser.

Afinal, para quê saber que estou vivo para descobrir logo em seguida que vou morrer? E é aí que entram todas as religiões: para oferecer à Humanidade um caminho que vá no sentido contrário ao do desespero.

Uma vez reencontrada a paz através da aceitação das regras naturais, estamos preparados para viver nossa vida de maneira completa, tendo e realizando história. Até que enfim chegue o nosso momento de mergulhar novamente no Útero da Terra.


Saúde, amizade, Liberdade

S. Thot

sábado, 13 de agosto de 2011

OS METEOROS




A chuva de
meteoros na primeira quinzena de agosto de 2009, oriundos do cometa Swift-Tuttle
me fez ter pensamentos diversos. Um deles foi lamentar morar tão perto das luzes da cidade, o que me impossibilitou de ver o fenômeno em todo seu esplendor, apesar de eu ficar na janela boa parte desta madrugada fria. Felizmente outras partes do mundo tiveram um espetáculo de nota, segundo os sites de notícia.

Outro pensamento que me ocorreu foi sobre outros objetos astrais, maiores que as ervilhas que caíram dos céus. Pensei nos cometas e nas transformações que eles causam em nosso mundo e psiquê. Um desses exemplos é o astro que caiu no próximo ao Golfo do México, na península de Iucatan. A devastação causada por este asteróide fora de proporções gigantescas, afetando toda a vida na Terra.

Ao mesmo tempo, o impacto que pode ser devastador também pode trazer elementos novos a diversidade do planeta. Há uma corrente de pesquisadores que atestam os cometas como semeadores da vida na Terra através da adição de compostos orgânicos contidos em seus núcleos. O que me sugere uma imagem interessante: o cometa como um grande espermatozóide que contribui com seu "patrimônio genético" no gigantesco "óvulo" que seria nosso planeta.

Lembrei ainda
da queda de Faetonte, filho do Sol, cujo o desejo era cavalgar no carro de seu pai e incendiou céus e terra por conta de sua inabilidade com os cavalos selvagens do Deus. Pesquisando depois descobri que há um asteróide com esse mesmo nome. Quem sabe não era nosso jovem personagem um ser celeste que caiu sobre a terra e cuja a história foi passada de pai para filho nas rodas em volta do fogo?

São nessas coisas que eu penso enquanto observo o céu noturno.


Falando em céu noturno, assista a um vídeo muito bom sobre o tema. É uma coletânea de diversas fontes amadoras que gravaram a passagem de meteoros. Gostei demais!




Notícias Meteóricas


Aproveitando o tópico aberto anos atrás, relato a vocês as novas aparições destes pequenos e interessantes corpos celestes.


Eta Aquariids


Eita, que nome é esse? Rs! Guarde este nome porque na sexta, dia 06 de maio, este será o endereço de uma chuva de meteoros. Os mais velhos devem se lembrar do cometa de Harley, que passa perto de nós a cada 76 anos. A passagem dele pelo sistema solar deixa um rastro de escombros.

Todos os anos a Terra atravessa este caminho das pedras sideral e temos a visão de corpos brilhantes no céu nas proximidades da constelação de Aquário. E daí o nome Eta Aquariids, homenageando uma das mais brilhantes estrelas desta constelação.

Por acidente, enquanto levava a esposa ao ponto nesta madrugada fria e sem lua, tive a sorte de olhar para o céu e acompanhar o galopar de um destes corpos! Será que nesta madrugada de sábado seremos brindados com mais um espetáculo?


Link da notícia AQUI. Agradeço ao Rafael Nolêto por nos lembrar em seu Twitter.




Perseidas


Soube muito em cima da hora, mas teremos nesta madrugada, 13 de agosto de 2011, outro espetáculo celeste, de acordo com a reportagem (leia AQUI). Isso porque passamos pela cauda do cometa Swifft-Tuttle:


"João Paulo Delicato, diretor do Planetário Professor Aristóteles Orsini, explica que este fenômeno acontece quando a Terra atravessa o rastro do cometa Swift-Tuttle. "Este rastro é composto por pequenas partículas do tamanho de um grão de feijão", diz ele. "As partículas, que estão a altíssimas velocidades (entre 300 e 400.000 quilômetros por hora), entram na atmosfera e se incendeiam em atrito com o ar.""

Vai lá fora ver!

terça-feira, 7 de junho de 2011

"A VIDA É BREVE. A MORTE, CERTA"

Olá, como vão tod@s?

Ig. N. Sª do Rosário - Ouro Preto
No mês de maio tive contato com o Barroco mineiro através das obras expressas nas igrejas de Ouro Preto, em Minas Gerais. Pela primeira vez me aproximei de algumas obras que só via em livros didáticos da infância ou em fotos. E digo a vocês, parafraseando Belchior, que ao vivo é muito melhor! Rs!

É difícil separar o movimento artístico da religiosidade pois a Arte, queira os artístas ou não, é também uma forma de expressão de sua época e com o Barroco não foi diferente (detalhes AQUI). Nascido em um momento de cisão dos cristãos europeus, entre outras causas, seu principal pensamento era evidenciar a divisão entre os mundos material e espiritual e mostrando é claro as vantagens deste último. E nada melhor para evidenciar tais vantagens que usar as imagens da morte.


A Morte Lhe Cai Bem

A Europa na Era do Barroco tinha muitas dificuldades: convulsões políticas, econômicas e sociais, doenças e guerras ceifando vidas jovens. Numa situação onde o poder constituído precisa instaurar e manter a ordem, nada melhor que o terror e a chantagem.


Mas é preciso ser sutil com as massas, afinal, como diz a nossa Constituição, todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Isso vale para qualquer nação. Para melhor dominar esta massa, (ou seja, você) é preciso dominar seu coração, seus anseios e medos porque assim é mais barato. Quem domina se coração, te domina. E para propagar sentimentos e sensações de maneira rápida para uma multidão de analfabetos as artes são sem-igual.

Arte de Pieter Claesz


Vanitas


Tendo a morte e a danação eterna como aliadas, bastava apenas apontar as opções: a virtude ou o vício. Os artistas chamam esta dicotomia de Vanitas (detalhes AQUI), onde em uma obra é expresso o pensamento que entitula este texto:

A vida é curta. A morte, certa.

Vi estas referências na maioria das igrejas de Ouro Preto. E não é para menos, já que a cidade se firmava em um dos veios auríferos mais ricos da nação. Em um meio assim a guerra entre o vício e a virtude eram evidentes. Mas como estava expresso em uma das igrejas visitadas, bem na entrada e pintada no teto "In hoc signo vinces", ou "sob este sinal, vencerás".



Samhain


Andei muito pela cidade velha com estes pensamentos na cabeça, principalmente porque a sombra do Samhain ainda pairava sobre o mundo. Olhando para as lápides dos diversos pequenos cemitérios das cidades, vendo as datas de nascimento e morte das pessoas, imaginei que tipo de de vida tiveram.

Foi quando lembrei de Sêneca, em determinado momento do percurso, que afirmava:

"A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai".

A arte vanitas diz "lembre-se que morrerás". Já o filósofo romano afirma "lembre-se de viver". 

Confrontando estes dois pensamentos me surgiu então um terceiro: a vida pode ser curta ou longa, depende daquilo que fazemos e de nossa percepção dela. Observando a vida hoje acredito que é melhor lutar a favor da vida que contra a morte. Acredito que o inferno e o paraíso podem ser no aqui-e-agora. Acredito que se eu vier para este mundo novamente quero achar um lugar melhor que o deixado quando habita um corpo anterior. Sim, quero criar o paraíso hoje!


Deve ser por isso que a imagem de pessoas arrebanhadas marchando para o paraíso não me agrade. Nunca fui muito de ter pastor. Se o Divino chegar para por ordem na casa, quero ter a alegria de dizer que já fizemos nosso dever e que a Humanidade finalmente pode resolver seus problemas.




Princípio Positivo

A declaração que fotografei e postei ao lado, somado ao pensamento do filósofo, indicam que já que estamos vivos, façamos nosso melhor.

Declaração em um dos muros da cidade.
"O princípio positivo é isto: se desejamos dar ao mundo uma contribuição de nossos valores, daquilo que temos de melhor em nós é nisso que devemos focar. É lógico que manter o foco no objetivo requer uma postura otimista sobre as coisas. Otimista e realista, diga-se de passagem, avaliando e trabalhando com o que se tem, ao mesmo tempo que se cria alicerces para mudança e crescimento futuros."
Confira AQUI.

Será este um pensamento falho? Minha vida dirá quando chegar o final da caminhada.

Ate lá, viver e não ter a vergonha de ser feliz, ainda que o inverno perdure.

Saúde, amizade, liberdade.


sábado, 30 de abril de 2011

DA CIVILIZAÇÃO

Olá, como vão?

Quero dividir com vocês um medo antigo que tenho: o de zumbis. Também tenho medo de fantasmas orientais com aqueles cabelos negros e escorridos, mas isso é outra história. Minha questão com os zumbis é mais concreta, por incrível que pareça! E tomei total percepção dela quando assisti a produção americana Madrugada dos Mortos e, nestes últimos tempos a série da Fox, Walking Dead.

Madrugada dos Mortos é um filme que me dá pesadelos sempre que assisto. Neles, tenho a difícil tarefa de optar entre salvar os que estão próximos de mim ou atravessar a cidade infestada de zumbis para buscar outras pessoas queridas. O medo que sinto durante o sono é de me fazer suar sob o endredon.

É estranho ter medo disso agora depois de adulto. Vejo este tipo de filme desde moleque em obras com Re-animator, a Hora dos Mortos Vivos e outras do gênero, lá pelos anos 80, mas nunca tive pesadelos antes. Então porque isso agora? Bem, talvez seja menos pelos temores de zumbis povoando a Terra, e mais pelos seres humanos que restarem para sobreviver a esta nova realidade. Além das decisões que teria de tomar em situações como essas.


As artes sempre foram conhecidas por sintetizar em imagens e formas o pior e o melhor da Humanidade. Com o cinema, nossa 7ª, Arte não é diferente. Pode-se entender como zumbi o indivíduo que perdeu a noção de si e do outro, onde só importa a saciedade do mais primal dos instintos: comer. E o mais estranho é que ele nem é o personagem ruim da história, voltando aos filmes e séries que tratam do assunto, e talvez por conta disto mesmo. Se o zumbi mata é para sobreviver. O pior mesmo ainda está por vir.

Nestes filmes o conceito padrão do bonzinho e vilão é subvertido. Entre eles nasce o oportunismo diante das situações impostas pelo colapso das instituições. Hoje temos leis e as forças policiais para dar uma regulada a fim de que as coisas não se baguncem demais. Como seria se elas deixassem de existir? Não é preciso muito para esta civilidade se deteriorar e as pessoas se tratarem como animais. É assim no metrô ou trem em hora de rush.
Do blog Vida Ordinária

Dê um passo para trás quando estiver entre grandes ajuntamentos humanos e observe o rosto das pessoas. Imagine: com a queda das instituições por conta de uma pane energética ou de comunicações por exemplo, por quanto tempo as pessoas ficariam calmas? Qual seria nosso papel diante deste terrível mundo novo?

Talvez não precisemos ser zumbis comedores de carne fresca para derrubar a civilização. Basta uma SARS atingindo em cheio o globo para que as ruas virem praças de guerra. O que farão as pessoas quando a comida estragar na geladeira e a água faltar nas torneiras? Não sei se tenho mais medo dos mortos que de certos vivos. E não sou o único a pensar na possibilidade de um apocalipse zumbi, como mostra o fluxograma no Blog Sedentário (veja AQUI).

É nesse tipo de coisa que penso vez ou outra quando cai a noite.

Neste Samhain, quando o véu que separa este de outros mundos está mais tênue do que nunca e você receber seus Antepassados em sonhos e preces, reserve um momento para estes pensamentos.

Saúde, amizade, liberdade.




Post Scriptum


Tem outra modalidade de zumbi "bombando" por aí, que é o zumbi do crack. Certas ruas das grandes cidades, como São Paulo, são tomadas por hordas de pessoas que estão no limiar da vida devido o uso da droga.


SergioThot.






sábado, 16 de abril de 2011

DESGOVERNO

Olá a tod@s.

Vim tratar de um tema recorrente em minhas postagens, principalmente nesta época do ano em que, simbolicamente, o reino do Senhor do Desgoverno toma força com a chegada do inverno. Vim falar do caos.

Caos é tudo aquilo que não estava previsto na nossa vida por achar que o plano que estabelecemos depende só de nós. Bem, não depende. Somos parte desta teia de forças naturais que, sem aviso, muda nossa vida. Muitas vezes para sempre.

Um colega de trabalho acidentou-se feio estes dias. Não vi, apesar de ter sido próximo de onde estava. Mas pude perceber a gravidade do problema através do choro das pessoas presentes. Imaginem mecânicos, gente naturalmente dura e agressiva, com lágrimas e desespero nos olhos diante da imagem do amigo ensangüentado?

Talvez toda a nossa vida seja caótica e pertence ao espírito humano encontrar a ordem das coisas. Então inventamos a Religião e as Ciências para tentar colocar tudo em mandamentos ou tabelas periódicas. Mas coisas deste naipe acontecem e somos lembrados de que material somos feitos.


A Vida é Risco

Existe aqui um problema. O caos em si não é ruim, pois por este caminho encontramos situações e pessoas que jamais entrariam em nossas vidas se seguíssemos pela estrada segura. É o atalho pela floresta que nos conduz rapidamente para a casa da vovó e para a boca do lobo.

O caos, a dor, a morte se servem para alguma coisa é para isto: ensinar aos sobreviventes que a experiência humana deve ser vivida em sua plenitude. Que possamos atravessar juntos mais este inverno e que a primavera nos encontre fortes.

Que possamos rir do inverno anterior enquanto atravessamos este. Que nossas reservas dos bons dias sejam suficientes para atravessar os dias ruins que se seguirão. Pois sempre existem dias bons e ruins já que a vida é cíclica.

Mas não tenham medo.

Saúde, amizade, liberdade.

Sergio Thot

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

REI MORTO, REI POSTO

Olá a tod@s!

O fogo da mudança ameaça as terras egípcias nestes dias. Lembram do texto Saber Perder deste blog? Então... o "presidente-faraó" do Egito não sabe perder. O país vive uma crise econômica e social e o cara quer ficar lá eternamente após uma semana de choques entre forças policiais e manifestantes no Cairo! Fez às pressas uma reforminha meia-boca nomeando um policial para o cargo de vice-presidente e dissolvendo o ministério que ele mesmo nomeia. "E daí?", podem vocês pensar.

Bem, levando em conta que o atual manda-chuva do lugar era vice-presidente antes de assumir o poder a 30 anos atrás, traça-se então uma interessante linha decisória, não acham? E já vivemos uma situação parecida aqui no Brasil também.

Se Mubarak fosse pagão e a terra e seu povo empobrecessem, a decisão mais acertada que ele tomaria era sacrificar sua posição  para alguém mais capaz de tomar conta de sua mátria terra. Quando as coisas vão mal o responsável por ele é o líder.

Mas ele não casou com o Egito como faziam os reis do passado, mas o tomou e se mantém no trono graças ao exército e não por causa da sua capacidade administrativa. E para não largar o osso todos os métodos truculentos são usados, desde os mais antigos como as balas, fuzis e tanques, até algo relativamente novo que é desligar a Internet e a rede de telefonia celular! A tevê Al Jazeera já foi pro espaço!

Temo pela seguranças das pessoas que lá moram e que estão montadas em um barril de pólvora. O Egito é um importante aliado ocidental na região então poucos presidentes darão um pito no Mubarak. Se não deram um sermão no homem nos últimos 30 anos, porque o fariam agora? E o rei da Arábia Saudita (país que, entre outras coisas, proíbe as mulheres de dirigir) já demonstrou seu apoio ao "presidente-faraó". Lógico, pois a próxima cabeça a ser pedida nas ruas pode ser a dele! Lembrando que os protestos contra a corrupção e pobreza nasceram em outras nações da região, como a Tunísia. Enquanto isso, os saques aos patrimônios culturais e residências na capital já começaram.

Fica a lição para vocês sobre a vida em uma nação: os homens no poder em geral são eleitos nos braços do povo, mas sempre que podem se mantém no poder graças as baionetas dos soldados.

Que a paz e a prosperidade voltem às terras banhadas pelo Grandioso Nilo.


E para provar que um governante se apoia mais em seu exército do que na Constituição, deixo-lhes uma lição de nasceu a primeira Constituição no Brasil, contada pelo historiador Eduardo Bueno.


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Sergio Thot.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

SOBRE A MULHER QUE EXISTE EM NÓS



Já pincelei antes sobre o feminino dentro dos homens aqui neste blog, mas acho que raramente falei sobre como este aflora no mundo cotidiano e suas implicações na sociedade.

Nos últimos meses duas situações chamaram a minha atenção sobre a feminização do lugar onde vivo: a postura crossdresser do cartunista Laerte e a eleição de Dilma Roussef.

Tomei conhecimento da ruptura do Laerte com a moda masculina através de uma entrevista na revista Bravo! Confesso que nas primeiras linhas fiquei um tanto chocado. Mas depois a ideia pareceu-me lógica: ele decidiu se vestir de mulher mas o cartunista que conheço e gosto continua lá. Então o que é que tem?

Ontem à noite na tevê Cultura assisti a uma entrevista dele no Metrópolis e até esqueci que aquela senhora é um homem travestido. Tem um personagem dele chamado Hugo, que nascera no caderno Informática de um grande jornal do país mas tomou novos rumos, dando sinais do desejo de seu criador em mudar também o guarda-roupa.

Talvez a questão seja menos o fato de usar ou não saias, mas o como a libido dos muito-machos é despertada e confundida, pois somos condicionados a não experimentar coisas fora de nossa zona de conforto afetivo-sexual. O resto é tabu. Laerte pôs o assunto na pauta do dia.

A Dilma Presidenta é outro assunto. Durante as semanas de campanha pelo rádio, televisão e internet nem me ocorreu pensar que ela é a nossa primeira presidenta! Uma presidenta! O som da palavra é até estranho, não acham?

Há alguns anos atrás isso seria um marco (e talvez até o seja pela ótica de muitas pessoas neste e em outros países), mas acredito que chegamos (cheguei?) em um período da vida onde, diante desta verdade simples, surge a pergunta e porque não? Sem dúvida são novos tempos! Tempos onde tivemos duas candidatas com sérias possibilidades de vitória e isso não se tornou uma guerra dos sexos!!

Bem, agora que o gênero do governante desta nação aflorou em minha percepção, meu mais profundo desejo é que  o matrismo, como dizem as blogueiras Nana Odara do Mater Mundi, e Gaia Lil, do A Alta Sacerdotisa, inspire a presidenta Dilma pelos próximos quatro anos e que tenhamos ,com a ajuda da Deusa e desta população, o Brasil que precisamos.

Que Assim Seja!

E tenho que escrever uma molecagem: teremos primeiro-damo?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NINGUÉM SE METE COM O LEÃO

Leão vermelho do calor do meio-dia
Ser flamejante, Quentura de verão

Invocação do Quadrante Sul, retirado d'A Dança Cósmica das Feiticeiras, de Starhawk.

Olá a todos!

Vivemos em uma sociedade de conflito. Ao mesmo tempo que nossa sobrevivência ao longo de milhares de anos se deu graças ao de fato de sermos homo socius, pelas nossas diferenças e objetivos muitas vezes lutamos uns contra os outros pelos mais diversos motivos. Às vezes a batalha é sutil, mas nem sempre.

À medida que o ano avança e os obstáculos se alinham, nossa força e fé são testadas continuamente. É comum que nos primeiros embates nos recolhamos com temor instintivamente, tanto para poupar energia quanto para evitar feridas, seja no corpo ou na alma. Mas é fato também que isto faz com que cedamos espaço precioso, duramente conquistado.

Gostaria de dizer que é possível atravessar a vida em brancas nuvens de paz e tranquilidade, mas seria um engodo. Há muito o que fazer nesta terra e não dá para deixar para depois. A cada manhã o mundo nos pergunta como será nosso dia. Não só nos eventuais grandes feitos, que podem fazer nosso rosto aparacer no jornal da noite, mas também nas coisas simples da vida. No copo que sujou e se será lavado por você, se você recolherá o lixo ou deixará a outro, se dará bom dia ao motorista do ônibus com vontade de dar bom dia.

Cada dia é uma batalha contra o medo, a preguiça, a descrença, o desânimo.


Regra de Ouro do Leão

Toda manhã, quando o sol nasce, ele pergunta ao leão como perguntou a você: e aí, como vai ser seu dia? E o gatão não tem escolha. Usa as armas que tem para tentar ver o entardecer. A vida é dura e a expectativa de vida deles é curta. Concordaria até que viveriam mais em jaulas, mas não é para isso que os leões são feitos, não acha?

Nas savanas africanas o leão se impõe pela presença graças aos seus ancestrais que derramaram o sangue na terra para inserir no coração de cada ser a lembrança primordial de seu rugido e do significado de sua juba. Afinal a segurança da família depende da sua capacidade de mante-la à salvo dos perigos.

Mas é fato que o felino hoje também tem sua própria voz e que precisa renovar esta lembrança. Que o leão que conhecemos hoje é um ser aperfeiçoado, lapidado pela Deusa Sekhmet para distribuir bençãos ou castigos. Para que nossa voz seja ouvida nossos atos falam por nós. Como o leão, temos que ser moldados pelo fogo da batalha pela vida.

Como o leão vermelho do meio dia, que nossa presença encha os ambientes e os corações de todos avisando que somos belos e civilizados, mas temos garras e não somos bobos.

Que Assim Seja.


S. Thot.

Ps.: talvez goste de ler também sobre a Domesticação de pessoas.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

COMEÇAR DE NOVO



É isso aí, gente. Passados os festejos da Candelária é hora da preparação espiritual para um novo ciclo, apesar das rajadas de inverno ainda persistirem mais algumas semanas. A natureza não segue o calendário. Aliás, é o oposto, rs!

Recomeçar é sempre uma tarefa árdua, pois saímos de nosso útero quentinho para caminhar rumo ao Desconhecido. Este Útero Primordial pode ser a nossa casa, ou a escola que conhecemos, o emprego que perdemos, ou uma situação que não nos comporta mais. Ou ainda pode seu o próprio útero mesmo!

Haverão centenas de conselhos falando de como é adequado sair da tal Zona de Conforto e blá-blá-blá, mas a verdade mesmo é que todo mundo sonha somente em ficar na rede a beira da praia, na sombra, tomando água de coco.

Deixar o bem-bom justificando a frase "eu adoro desafios" só é legal quando é divertido. E quando não é, só fazemos as coisas que devemos fazer por ser estritamente necessário. Logo o estímulo ideal é a alavanca para que o Divino que mora em nós (entusiamo) ligue a chave "on/off" e nos impulsione rumo as aventuras. Somos humanos e vamos além das necessidades básicas, como diria Maslow e sua Pirâmide. Querendo ou não.


E lá vai eu falar do Herói novamente...

Creio que já estão cansados de meu papo sobre o herói, não? Mas gosto sempre de relembrar o quão importante é a ação frente ao Desconhecido. O fato é que ao sairmos do Útero, não importa o que façamos, retornaremos a Ele. É a entropia, onde tudo tende à retornar ao Caos.

Nós também! Estou lembrando vocês sobre a Brevidade da Vida e de que o relógio já está funcionando. Tic-Tac! E depois que mergulhamos no Oceano Primordial tudo o que fica são nossos feitos contados pelas gerações.

Esta é a hora de limpar as ferramentas, repassar os planos, aquecer os músculos. Lá fora nos espera a multidão que grita nosso nomes. Pode ouvir?


Boa Sorte!



terça-feira, 20 de julho de 2010

UMA MENTIRA CONVENIENTE




Iniciei o curso de Direção Defensiva no CFC de minha cidade. Tenho dois desejos: usar o conhecimento em meu trabalho e pilotar minha futura moto, rs! Em dado momento do curso, nos aproximando do final, o instrutor resolveu passar um vídeo motivacional. O material em questão falava sobre a Renovação da Águia, o que me fez remexer na cadeira.

Na tal lenda, todas as águias seguem para um lugar retirado, desbastam o bico, unhas e arrancam penas velhas para renovar-se.

Sabia de antemão que, apesar de edificante, nenhum ornitólogo já presenciou ou soube de tal ritual entre as águias. Enfim, é uma estória bonitinha mas ordinária. Em dado momento pensei: vou levantar a mão e revelar que tudo aquilo era balela. Mas daí pensei sobre a Esperança, sobre o texto que fiz e publiquei aqui dias atrás.

Sabe, diante de uma mídia que atualmente reduz tudo à chacota, ao escárnio, à paródia e a palavras de ódio, vi uma tentativa de luta contra esse estado de coisas, essa mania depressiva que rege os anos 10 de nosso século.

A maioria ali tinha seus 22, 25 anos. E vai saber por quais problemas passaram ou passam ainda. Houve um vislumbre de esperança para eles, uma palavra de conforto que não senti o direito de tirar. Que seja esta então uma mentira conveniente. E assim como achei a resposta a esta e outras perguntas, acredito que quando chegar o momento, as pessoas que as quiserem também as terão.

Mas deixo a vocês aqui um ensinamento: independente das águias que arrancam as próprias penas e dos Deuses que morrem e renascem, levante-se e siga adiante. Mesmo que não tenha exemplo nenhum para seguir. Talvez o exemplo seja você mesmo.

Abaixo, o vídeo. E poxa, é ordinário mas não deixa de ser bonitinho!



Ah, talvez você também goste deste texto aqui:


Esperança



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

MÁTRIA




Pátria-mãe não é um termo estranho? Se a pátria é mãe, a geradora, então devia se chamar mátria, que é muito mais coerente em termos linguísticos. Só que chama-la de mátria incorreria em alguns problemas no consciente coletivo da nação. Afinal quem mais usa o errôneo termo são militares e políticos. E pátria envolve algo de bélico, de guerreiro. De patrão.

 

Terra Arrasada

As pátrias são organismos curiosos na geopolítica mundial. Nasceram para expandir seu território e invadir as outras pátrias. Mas uma mãe deseja que seus filhos saiam por aí para morrer em prol de desejos expansionistas de velhos decrépitos? Ela quer nutri-los e cuidar de sua vida pacata. Não se planta e colhe numa terra devastada, e são justamente os pobres, camponeses, os caipiras que primeiro perdem na ocupação. Seja pela invasão do exército inimigo, seja pela tática de "terra arrasada" que se implementa durante a fuga da guerra.

Uma mãe deseja que seus campos se cubram de flores e grãos, não de sangue dos mais jovens. Uma mãe ama os seus e os dos outros também, e divide o prato porque conhece a fome e a privação de todos os tipos.

Uma mãe deseja que seus filhos tenham orgulho sim, mas não o que nasceu da morte e da destruição. Há batalhas onde a honra pode ser evocada e que não envolvem a morte de milhares, destruição de florestas por agente laranja ou bombas inteligentes que acertam ônibus com crianças.

 

Todas as Mães são Uma

Uma mãe tem interesse na vida e na continuidade dela, seja na sua casa ou na alheia. Não é à toa de a Deusa dos bretões é a própria ilha, a Bretanha. Não é à toa que Ísis é o trono, a terra, a nação. E o faraó se submetia a ela se quisesse governar. Não é à toa que na obra de Ariano Suassuna "O Auto da Compadecida", Maria intercede por todos. No final, todas as mães se reconhecem. Todas as mães se tornam uma só.

Não é à toa que se coloca a mãe no meio da pátria quando esta é atacada. Pois ninguém gosta de guerra, mas quando se mexe com a Mãe todos pegam em armas.
Pais adoram uma disputa. Mães preferem sentar e bater um bom papo para resolver os problemas pois só com entendimento entre as casas é possível fazer o que é realmente útil: viver.

É por causa destes fatos que não quero pátria, quero mátria.

Na mátria não lutamos pela honra, mas para que todos tenham dignidade.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

AS ÁGUAS




As chuvas têm castigado a cidade nas últimas semanas. Ruas transformam-se em rios e rios em marés de barro e lixo. São águas furiosas que arrastam e engolem tudo que bobear em sua frente. São águas que rugem nas jaulas de concreto no estrangulamento que chamamos de urbanização.

E não raro populações inteiras constroem suas casas na boca desta cobra grande alimentada pelas chuvas de verão, mudanças climáticas e La Niña. Nossa modernidade supostamente poderosa pára diante desta fera que ajudamos a nos devorar.

A construção do Mundo sobre a Terra, a submissão de Gaia aos nossos caprichos tem três grandes vilões nas cidades:


Impermeabilização

Todo mundo quer viver perto da natureza mas ninguém quer pisar o pé na lama. Então a solução mais fácil e burra já criada foi cobrir enormes extensões de terra com concreto e asfalto. A terra fica com sede de chuva, e as águas não tem para onde correr senão para as ruas. Aí entra o segundo vilão


Lixo

Já compro briga com desconhecidos que fazem das ruas depósitos de lixo. Esse material todo, nas chuvas, entope as bocas-de-lobo e fazem das ruas rios temporários. Essas águas entram nas casas, levam carros e mais lixo que só agrava ainda mais o problema.

No bairro onde moro a situação é de dar úlcera nervosa. Apesar da coleta da prefeitura e dos Postos de Entrega Voluntária (PEV's), existe essa discrepância entre o consumo e o descarte. Na hora de comprar nossa realidade se equipara àquela passada na tevê, mas o lixo é jogado para trás numa atitude infantil e displicente.


Assoreamento

As prefeituras gastam tempo, dinheiro e mão-de-obra para retirar toda a sorte de materiais depositados no leito dos rios. O cidadão comum acredita que tudo se resolve num passe de mágica mais ou menos assim: eu tenho um sofá velho, empurro ele no córrego e ele desaparece.

Ou ao desmatar suas margens, permitindo que a água das chuvas eroda o solo nu e carregue para as margens os sedimentos. Quem passa pelos córregos das grandes cidades pode ver tais efeitos. No Jardim Nova Portugal, a ponte que liga a Avenida Jamil João Zarif com o aeroporto está ameaçada por conta das forças das águas que devoram as margens do Rio Baquirivu.

É uma das maiores causas de morte de rios.



Resgate

Um resgate daquilo que é realmente importante deve ser feito. Nos meios urbanos córrego é sinônimo de água suja, depósito de lixo e doença. Terra é sujeira. Folha é sujeira. Essa terra que chamamos de suja é a matéria-prima do que somos. Somos este pó e esta lama que tudo reveste. Dela viemos e para ela voltaremos apesar de toda ilusão criada sobre este mundo artificial, acarpetado, cimentado e tecnológico.

Logo a salvação do Corpo Maior é o planeta depende primeiro da salvação do corpo menor, que é nossa própria humanidade.

Gostaria de dizer isto de uma maneira que pudesse sentir nos ossos e no sangue.

Sinta isso.

E enquanto sente, ouça Águas de Março na doce voz de Elis Regina!


terça-feira, 14 de julho de 2009

DA ALMA





"(...)Andou por vários dias até alcançar uma gruta, no interior da qual descortinou-se uma fenda que conduzia ao reino de Plutão. Munida somente de sua coragem, Psiquê penetrou nos escuros labirintos da morada dos mortos."

Cupido e Psiquê, retirado da obra As 100 melhores Histórias da Mitologia, de Franchini e Seganfredo

Alma, ou psy·khé em grego, é uma palavra de infinitas significações. Uma delas nos sussurra que é graças a alma, por exemplo, que ficamos agitados, vivos... ou animados!

Quando temos alma, estamos vivos no pleno sentido da palavra, absorvendo e exalando ar, segundo após segundo. A respiração que sempre foi um dos indicadores que nós não passamos para o Outro Lado. Segundo o mito dos povos do Oriente Médio, a vida nos foi dada pelo sopro.

A simbologia que mais gosto é a da borboleta. Creio que existem poucos seres que retratam a metamorfose de maneira tão bela e clara. Primeiramente vemos um ser disforme, às vezes venenoso, cuja a vida é comer e defecar. O tempo passa e ele fica maior e mais voraz, mas nos acostumamos a tê-lo ali. É parte da paisagem.

Certo dia nos damos conta de que ele não só parou de comer como também não se movimenta mais. E que em torno de seu corpo uma fina camada de seda se forma. Se fora fácil esquecer de um ser que se movimentava e comia tudo em seu caminho, imagina então agora que ele sumiu, submergia em si mesmo? Passada uma leve curiosidade inicial, deixamos aquele casulo de lado e tocamos a vida.

Ah, mas é tudo ilusão. Se formos bons observadores veremos, em um dia quente e bonito de sol, que aquela coisinha de seda que estava no canto da janela se mexeu. E mais: Há algo que lá dentro luta para estirar suas asas à luz da manhã. E então elas saem de seus casulos aos milhares, seja para um passeio em seu quintal ou para atravessar um continente. E tudo para achar outras almas, assim como fez Psiquê.

Gosto de pensar que, periodicamente, somos esses seres, que nascem e renascem de tempos em tempos. Seres que romperam com atos inúteis, ciclos viciosos, pensamentos nocivos e acorrentadores, e se cederam ao novo e ao belo, finalmente. Para o mundo elas são jovens, recém-nascidas do casulo. Mas só a Deusa sabe o quanto elas caminharam dentro de si para ganhar asas!

E só a partir disso, quando finalmente emergem plenos em sua vitalidade e leves, é que vão em busca do Amor.

Pensem nisso.


quarta-feira, 15 de abril de 2009

DO DIA DA TERRA




Querem saber de uma coisa interessante e que só agora me dei conta? O Dia da Terra não deveria ter esse nome. Vejam: a vida no planeta já resistiu a todo tipo de cataclisma. Mudanças de continentes e correntes marítimas; avanço e recuo de geleiras; choques com meteoritos... E a vida segue. Ela muda, mas segue.

Talvez a questão seja toda essa, que nós tememos a mudança pois certamente, frágeis como somos, seríamos varridos da face da Terra. Haja visto aquele tsunami que alcançou tantos países do planeta, que matou tantas pessoas e mudou a face de cidades inteiras, vindo de um evento cataclísmico que nem foi dos maiores!!!

Não, não é Dia da Terra, mas sim o dia da Existência do Homem sobre a Terra. O que protegemos é nossa sobrevivência através de um modelo econômico e políticos diferentes. Um onde o planeta não seja o mesmo tempo uma gigantesca gôndola de supermercado para se extrair tudo o que se quer, nem como uma grande lixeira, que recebe nossos dejetos como se eles fosse sumir por mágica.

Pense nisso.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

DAS CRISES




Desde o final de 2008 ouve-se e lê-
se sobre esta crise econômica que afirmam ser a pior desde a quebra da Bolsa de Valores Norte-Americana em 1929. Desempregos em massa, quebradeira de empresas e coisa e tal. Mas enquanto uns choram, outros vendem lenços. Quem lucra com esta crise, para onde foi todo este dinheiro e principalmente para nós, o que representa isto para a Terra?
 
 

Ciclos


O que os leigos e os mal-intencionados chamam de crise eu chamo de ciclo. O Capitalismo vive de ciclos. As pessoas falam de crescimento da economia. Falam como se crescer fosse a única direção possível. Sabemos como pagãos que o inverno precede o verão, que a noite precede o dia. É a verdadeira Roda da Fortuna, onde a única coisa estável é o eixo em torno do qual o mundo gira.

O mundo não está em crise, apenas o dinheiro é que mudou de mãos.


Será que a crise nas montadoras, que produzem por isso menos carros, não é benéfica do ponto de vista ecológico? Afinal, menos carros sendo construídos são menos fontes poluidoras nas cidades. Sempre existe uma janela aberta quando as portas se fecham.

O pêndulo um dia precisará recuar e é preciso preparação. Nos campos, quem não se precavia passava fome, os chamados tempos de vacas magras. Como pagãos somos treinados para perceber estes sinais, para ver os problemas e nos antecipar a eles antes de sofrer com suas consequências.


O que você acha? Esta não era uma crise anunciada? Será que se estudarmos bem os motivos pelos quais ela surgiu, assim como os antigos estudavam as estrelas para determinar quais os momentos de plantar e de colher, não saberemos suas causas e não ficaremos mais espertos para evitar ou minimizar os efeitos danosos das futuras que certamente virão?




Assumir uma posição

Assumir uma posição clara sobre estes e outros assuntos exige sim, alguma coragem. Pensamos sempre neste termo quando queremos evocar atos de heroísmo. Mas há coragem nas coisas mais simples.

Dizer que alguém está certo ou errado, por exemplo, exige coragem. Porque seremos questionados sobre nossa posição e teremos que dar um retorno. Que gerará novas perguntas e novas respostas. E cada vez nos comprometemos mais com aquilo que acreditamos.

Mostrar nossos conceitos de forma organizada e profunda é dever de todos que participam da sociedade, porém este é um direito exercido por poucos. A maioria só fica como expectador, não sendo heróis de suas vidas.

E não há tempo a perder. Vejam aí os Grandes Investidores Financeiros. Queriam submeter tudo e todos ao frio metal, diziam que o Estado atrapalha a livre economia, e os trabalhadores e as leis que os protegem perturbam o crescimento. Porém, quando seu castelo de cartas ruiu, vieram mamar nas tetas do dinheiro público. Hoje temos governos que salvam bancos seguindo a tabuada proposta pela escola econômica keynesiana (ver AQUI).



"A escola keynesiana se fundamenta no princípio de que o ciclo econômico não é auto-regulado como pensam os neoclássicos, uma vez que é determinado pelo "espírito animal" (animal spirit no original em inglês) dos empresários. É por esse motivo, e pela incapacidade do sistema capitalista conseguir empregar todos os que querem trabalhar, que Keynes defende a intervenção do Estado na economia."


Pedem para que consumamos hoje mais do que nunca para reaquecer a economia. Só que mais consumo significa que mais máquinas rasgarão a carne de Gaia. Será que não temos outra crise em construção?


O Espiritual é Político

Nossa realidade não é feita de uma massa de expectadores que aceita aquilo dito por um homem no púlpito ou palanque. Nos organizamos em círculo porque somos todos iguais nele. E isto exige coragem. Coragem porque a cada momento poderemos ser chamados para tomar uma posição no culto, no fórum, na vida.

Em círculos abertos organizados em minha cidade, sempre aparecia alguém disposto a participar, mas queriam ficar de fora, observando. Assim é fácil!!! Se der certo me divirto. Se der errado, não tenho nada a ver com isso. Tomar partido exige coragem, pois pede compromissos.

Inevitavelmente estas posturas acabam se derramando para a nossa vida cotidiana, até porque o cotidiano também influencia nossa vida espiritual. Não há dicotomias, tudo está integrado. E o sol nunca pára nas temperaturas amenas do outono e da primavera. Para nós o conforto do meio-termo nunca dura muito tempo.


Outras vantagens de ficar em cima do muro

A gente não se indispõe com ninguém, independente das besteiras que elas dizem ou fazem. Passamos por diplomáticos, mediadores. Mas isto não é diplomacia. Calar e fazer calar não é diplomacia. É tirar vantagem para si, se passando de bonzinho, fazendo o paradoxal jogo de julgar como errado aquele que expressa sua opinião em um momento que pede a opinião de todos.

Para quê um ter um cérebro se ele não serve para formular opiniões? para que opiniões se não posso defende-las com unhas e dentes enquanto acreditar nelas?

Aproveite a crise, pois ela abre portas em muitos casos. Nas crises é que se abrem as janelas.


Pensemos nisso.



Saúde, amizade, liberdade




Sergio Thot

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

LIÇÕES DIFÍCEIS




Conta-nos textos inspirados que a Deusa era una no universo até que um dia gerou de si mesma Outro ser semelhante a Ela, mas diferente. Seu oposto e seu complemento. Ela o recebera primeiramente como Filho e depois como Amante. A partir então da união deles então surgem todas as coisas. No tempo certo, porém, seu Outro sucumbe e morre, retornando ao Ventre Sagrado. Mas não é o fim, porém, e sim um novo começo, renovado. O que seria um erro então se torna a salvação.


No Princípio

A Biologia reconhece este fato descrevendo uma das formas mais simples de reprodução é a divisão de si mesmo em duas partes. O único problema desta forma de reprodução é que ela não gera variedade, ou como gosto de chamar, aprendizado. Se todos forem iguais, todo sucumbem pelo mesmo mal.

Sem variedade só se tem a extinção. Mas então algo dá errado, e o que não programado acontece, surgindo alguem diferente. O fim chega somente para os que não se modificam. Quando esta mudança salva nossas vidas, nós a chamamos de evolução. Posteriormente inventamos o termo masculino e feminino, ele e ela. Mas biologicamente o masculino somente é um feminino diferente.


Tecnologia

Vivemos em uma sociedade onde dependemos profundamente de complexas máquinas. Quando pensamos em máquina, falo não só da calculadora ou do meu computador, mas de itens maiores como aviões, navios e redes elétricas.

Nossas primeiras máquinas, como lanças, fundas, arados facas de pedra também são formas de tecnologia, das quais tudo o que possuímos hoje descendem. Estes aparelhos nos permitiram sobreviver à Natureza que sempre exigiu seu quinhão de seus filhos.

Nossos remédios, instrumentos, máquinas e coberturas nos separaram gradativamente do mundo natural e aprendemos a criar outro meio-ambiente. Então despertamos nossa consciência, tomamos conta daquilo que chamaríamos de realidade. Apartados um pouco da Terra, apesar de para ela retornarmos e dela retirarmos nossa nutrição. E assim fazíamos com tudo a nossa volta: nossas casas, roupas e utensílios, tudo da terra nascia e para ela voltava.


Sociedade da saciedade

Mas a complexidade de nossa vida aumentou. E nossa separação também, afinal, nunca aceitamos o fim de nossa existência nem a dos nossos com bom grado. A morte nunca é bem vinda mesmo que inevitável. A separação do mundo veio a atender esta demanda, primeiramente: garantir uma existência mais estável e mais longa.

E quando conseguimos atingir um certo patamar de tempo de vida, nossa busca se direcionou para a saciedade dos sentidos. A sobrevivência estava assegurada, e era hora do prazer. Prazer nas artes, na convivência com o outro, conosco e com os bens que nos rodeavam.


Tudo que é de graça tem um preço

Como dito, a complexidade de nossas relações só aumentou, e a demanda pela segurança de uns e o prazer de outros só acompanhou. Ao mesmo tempo, o número de pessoas no mundo nos empurra em direção às fronteiras da terra, a conquistas de novos espaços e recursos. Pressionamos cada vez mais. Seguramos pelos pulsos Aquela que nos gerou e gritamos "mais, Mais, MAIS!"

Falamos todo dia nos jornais em "desenvolvimento". Achamos que as crises são desastres menores no caminho. Mas estamos desequilibrados, e mais agora do que nunca, porque somos muitos e nunca em nossa curta história estivemos tão distantes e violentos. Pequenos erros podem trazer grandes conseqüências devido a esta complexidade que criamos.


Perguntas Pertinentes

O fato que todo o desenvolvimento tem um patamar. E o que chamamos de crise é a volta do pêndulo. Cabe então a seguinte pergunta: * Demorará para percebemos que em muitos lugares do tempo e do espaço ou atingimos ou ultrapassamos os limites? * É possível aproveitar este recuo para aprendermos algo sobre nós e a Terra?