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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

DO SER




"Eu sou a Deusa de tudo o que vive"


Trecho d'A Carga da Deusa, de Doreen Valient

O que é Ser? Como é que eu sei que eu existo? Existir é ter participação no mundo físico, no mundo concreto, mas o Ser vai além disso. O Ser mora no campo das idéias, do abstrato. Ser é ter, mas também Ser é Fazer.

A não-percepção disso configura um obstáculo que atravessamos e que, quando alcançado,  possibilita sermos os filhos maduros da Criação.


No Passado

Segundo a obra Mitos Primais, da escritora Barbara C. Sproul, a tomada da consciência é um processo doloroso, tanto física quanto intelectualmente e isso fica evidente após o estudo das mais variadas nuances culturais humanas. Em boa parte delas existe a descrição de uma gênese impecável feita por um Deus/ Deusa/ Deuses em geral bons, onde a primeira fase da raça humana vive uma pré-existência pura e perfeita. Mas algo realiza uma perturbação na ordem em determinado momento e um herói (ou vilão, dependendo de quem olha) provoca a ira Divina.


Prometeu é punido por Zeus a ter seu fígado devorado por um pássaro devido ao roubo que perpetrou quando se apossou do fogo dos raios divinos para traze-lo aos seres humanos.

Um mito muito conhecido nosso diz que o nascimento da consciência humana se deu quando o primeiro homem comeu do Fruto do Conhecimento e tornou-se mortal, ou tomou consciência de que podia morrer, algo que não se pode dizer que a maioria dos animais tenham.

Ou mito do Deus P'an Ku, venerado no sul da China, cujo o corpo sacrificado é usado para construir o universo e marca o fim da Era de Ouro da humanidade. Tudo que é morto torna-se pai, já disse alguém.

Parece que sempre que despertamos para a realidade perdemos algo. Perdemos de fato a inocência. Mas o sacrifício feito nos capacita a Ter e a Fazer coisas.


Ter


Pela primeira vez, quando despertamos do caos para a realidade, temos a possibilidade de ver o Outro, o Restante. Recuamos. E este passo para trás nos possibilita vê-lo por inteiro, nomea-lo e, ao lhe dar um nome eu acabo possuindo-o. Este sentimento de posse também se volta para nós e a primeira coisa que agarramos é a nossa lembrança, a nossa história. Possuir uma história significa que vivemos há algum tempo e a cada dia temos maior posse sobre nós mesmos.

Ter história nos confere humanidade. Quando alguém tenta nos destruir fisicamente o faz primeiramente em sua própria cabeça negando-nos nossa humanidade, nossa história. Somos coisificados, rotulados, perdemos nosso nome próprio. Então eu não sou mais o Sergio, mas sou negro, bruxo, são-paulino. E, dependendo da situação, estes rótulos bastam para que outra pessoa encontre nisso uma desculpa para me aniquilar.

Ter história garante a mim mesmo que eu existo. E, ao garantir isso, eu sei que a minha vida vale, entre outras coisas, ser defendida.


Fazer

Se o Ter corresponde ao campo do abstrato, Fazer me coloca no concreto pois eu transformo o mundo ao meu redor, o mesmo mundo que compartilho com outras pessoas. Pois eu não posso viver exclusivamente no campo virtual, mas preciso partir para o real a fim de que aquilo que eu imaginei realmente exista.

Parece óbvio isso que eu escrevi mas não o é para muita gente, principalmente nesta geração internética. No mundo pasteurizado da Web, onde não há pó, lama ou arestas cortantes, é fácil achar conforto mental. Basta navegar pela rede.

Mas o termo navegar é emprestado de uma situação real onde se ia de um ponto ao outro a fim de obter um ganho específico. Ficar ao sabor do vento não é algo recomendável quando se está em mar aberto e se tem família em terra para sustentar. Fora que o ambiente é altamente instável. Se bruxo, por exemplo.



Muitos bruxos hoje querem ficar apenas no virtual, escondidos. Mas a obtenção de conhecimento da Religião não advém só de sites e blogs, mas também da experiência no mundo real, no convívio com as pessoas e de como tudo isso nos afeta, nos toca.

Se eu não faço eu não sou. É impossível ser motorista sem dirigir regularmente, ou ser padeiro sem fazer pão, ou ser pedreiro sem construir casas. É a partir da ação sobre o mundo real que o ser que tem história se completa.


Finitude

Há um elemento que acompanha a tomada de consciência do Ser: mesmo desperto ele está sujeito as leis naturais. E é aí em que a percepção do Eu é um fardo, pois saber que existo implica em saber que um dia eu não existirei mais. O que gera angústia e o desejo profundo em retornar ao estado de não-Ser.

Afinal, para quê saber que estou vivo para descobrir logo em seguida que vou morrer? E é aí que entram todas as religiões: para oferecer à Humanidade um caminho que vá no sentido contrário ao do desespero.

Uma vez reencontrada a paz através da aceitação das regras naturais, estamos preparados para viver nossa vida de maneira completa, tendo e realizando história. Até que enfim chegue o nosso momento de mergulhar novamente no Útero da Terra.


Saúde, amizade, Liberdade

S. Thot

quinta-feira, 28 de julho de 2011

SENTIDO DA VIDA


O Gato deu um sorriso ainda mais largo.
-"Ora vejam só! Parece que ele está gostando muito" - pensou Alice e foi em frente: - Você poderia me dizer, por gentileza, como é que eu faço pra sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você pretende ir - disse o Gato.
- Para mim tanto faz para onde quer que seja...-respondeu Alice.
- Então, pouco importa o caminho que você tome - disse o Gato.
-...contanto que eu chegue em algum lugar...- acrescentou Alice, explicando-se melhor.
-Ah, então certamente você chegará lá se você continuar andando bastante..." - respondeu o Gato."
Alice no País das Maravilhas


Olá, como vão vocês?



A contagem para o verão já começou e é tempo de levantar desta cama macia e quentinha e encarar o mundo mais uma vez. Sabem, qualquer fundo de poço se transforma em um lar para o espírito acomodado. Boa parte das misérias humanas nascem da autopiedade, da preguiça, da paralisia.  A pedra dura, quando aquecida pelo calor do corpo, vira aposento real.  Quase escrevi "medo" aqui. mas o medo é uma constante na vida que nunca impediu ninguém de continuar. O que nos detém é a dúvida sobre que caminho seguir para não sofrermos.


No fundo do mais profundo abismo qualquer vela é um sol, e o coração Dela, que parou de bater como num soluço no Solstício de Inverno, volta a brilhar e nos chamar para um novo ciclo. "E para quê", pode você perguntar

terça-feira, 21 de junho de 2011

A MAIS ESCURA DAS NOITES

Olá a tod@s!


Como vão vocês na mais escura das noites?


Pensei muito na questão da noite escura conforme o sol descia ao horizonte. Passava um pouco das 17h20 em São Paulo e o manto de Nix avançava pelo céu com incrível rapidez. Mas nós moradores das cidades vivemos dias artificiais através das luzes elétricas, longe das florestas negras e criaturas da noite.


Então não temos a exata percepção da importância da data e de como o astro-rei nos é essencial. Só quem vive à maneira antiga, e os enclausurados, sabem o que é perder o sol. Imagino o desespero de Korê e de Deméter, cada uma vivendo a sua própria escuridão e desespero. Leia sobre minhas percepções de Korê/Perséfone/Prosérpina AQUI. 


Lembrei de Korê, a Deusa Raptada, na noite de ontem assistindo a um documentário que me tirou boa parte do sono. Este falava de duas meninas russas raptadas, mantidas cativas no subsolo e seviciadas por quase quatro anos em troca de comida e água. Para elas foi o mais longo dos invernos. Leia AQUI.




"Não Sou Vítima"


Mas lá nas profundezas, entre as garras da morte elas encontraram suas forças. Primeiro em si mesmas e depois uma com a outra. Desta forma enganaram seu carcereiro, pediram socorro e foram libertadas. Seu agressor preso e mandado para Sibéria. Eu pensei "Minha Deusa, ficaram marcadas para sempre". Mas qual! Tempos depois voltaram as duas, entraram no cativeiro e perceberam que o medo que sentiram fora embora. Ambas casaram e são felizes ao que parece. "Não somos vítimas. Nunca pensei em mim como vítima", exclamou uma delas.


Hoje é a noite mais escura, e/ou fria e/ou estéril do ano e ao mesmo tempo tal data é carregada de promessas. Pois foi em uma época como essa, onde um dia nossos temores parecem mais profundos, que uma Korê raptada encontrou sua força e se transformou em Perséfone. Sabe como?


Dando um sentido à sua vida. "Sou uma Deusa, filha de uma Deusa. Quero viver e ensinar a outros o que sei. Ensinar através daquilo que vi e vivi.", ela disse. E nas profundezas da terra uma luz de seu amor para nós brilhou. E foi essa luz que não só iluminou seu caminho de volta como serviu de farol para outras almas que quiseram retornar à Roda da Vida.


Nossas meninas russas fizeram seu caminho de Perséfone também, pois amaram a Vida e uma a outra na escuridão infernal e foi esta força que as levaram para luz. Foi a lição de Yule que aprendi este ano.


Também somos filhos do Deus e da Deusa. Encontre o sentido para sua vida, algo que vá além de você mesm@ e foque nisso neste ano que se inicia. A caminhada logo se iniciará. Junte suas forças!


Saúde, amizade, liberdade!


Feliz Yule.




Sergio Thot.




quarta-feira, 20 de abril de 2011

A VIDA É UM PROCESSO

Olá, como vão tod@s?

Quero dividir com vocês um pensamento que tomou forma nos últimos anos graças a Roda do Ano. Vou usar o Samhain, por exemplo. Institucionalizou-se há muito tempo sua data é o 1º de Maio no Hemisfério Sul, certo? Tudo bem que correntes mais tradicionais seguirão a Roda do Norte mas não é este o cerne da questão. Falo sobre colocar toda a carga simbólica da data em um único dia.

Acredito hoje que o Samhain, assim como outras datas, são um processo. Sabe, é como li uma vez no Livro dos Farrar, Oito Sabás para Bruxas, que o reino do Inverno começa no solstício de Verão. O Samhain para mim não começa no dia 1º de Maio, mas bem antes ainda!, durante os dias de Mabon. Pois a alegria da colheita se soma a tristeza da seca e da privação. O comércio entendeu bem isso pois mal se passa o Dia das Crianças (12 de Outubro) e as lojas já preparam as decorações natalinas!

O Samhain em particular nos ensina isso durante este espaço de tempo entre a Colheita e o Solstício através da morte e do apodrecimento daquilo que não nos serve. Estes restos repousarão e se decomporão enquanto nos preparamos para os Novos Tempos. Se sobrevivermos ao inverno da alma.


Escolhas

Sendo a vida é um processo, então nossas escolhas são pré-determinadas pelo que fizemos no passado, não é mesmo? Afinal, não acostumamos a comprar as crianças com doces ou ameaças? Como reclamar quando estes adultos forem comprados para os mais diversos fins a despeito de suas próprias convicções, se é que terão alguma? Esse aprendiz de adulto já está no processo de aceitar uma prenda para cada ato de obediência sem questionamento. Acertou, ganhou um biscoito, como os cães de Pavlov.

"As primeiras experiências com os cachorros eram simples. Segurava um pedaço de pão e mostrava ao cachorro antes de dá-lo para comer. Com o tempo o cachorro passou a salivar assim que via o pedaço de pão. A salivação era uma resposta quando a comida era colocada em sua boca, uma reação natural de reflexo do sistema digestivo do animal e não envolvia aprendizagem. Pavlov designou esse reflexo de reflexo inato ou não condicionado."

Como? Não sabe quem foi Ivan Pavlov? Acredite: ele sabe quem é você. Clique AQUI.

Então a possibilidade de uma pessoa resistir às pressões da vida está condicionada nas experiências que já teve e como reagiu a elas, externa e internamente. É neste processo que estamos mergulhados. A cada dia a vida nos expõe a situações iguais e ao mesmo tempo diferentes. sempre há um temperinho a mais para modificar algo aqui ou ali, mas na média é sempre a mesma pergunta: como você sobreviverá a mais este dia?

E na sua resposta estará a semente do futuro entre todos os futuros possíveis.

Nada será como antes. Pensem nisso.

Sergio Thot




Ps.: quero dividir com vocês algumas postagens interessantes feitas por outros blogueiros.



  • Existe em nós imensa dificuldade de aceitar os ciclos e isso se deve a falta de conexão com os processos naturais...A natureza é plenamente consciente do ciclo vida-morte-vida. Aquilo que morre é matéria para aquilo que nasce...Não há culpados, não há erros, há o continuo fluir dos caminhos.... Pérola encontrada no blog da ciberamiga Gislaine Carvalho, do blog Era uma Vez. Clique AQUI


sábado, 16 de abril de 2011

DESGOVERNO

Olá a tod@s.

Vim tratar de um tema recorrente em minhas postagens, principalmente nesta época do ano em que, simbolicamente, o reino do Senhor do Desgoverno toma força com a chegada do inverno. Vim falar do caos.

Caos é tudo aquilo que não estava previsto na nossa vida por achar que o plano que estabelecemos depende só de nós. Bem, não depende. Somos parte desta teia de forças naturais que, sem aviso, muda nossa vida. Muitas vezes para sempre.

Um colega de trabalho acidentou-se feio estes dias. Não vi, apesar de ter sido próximo de onde estava. Mas pude perceber a gravidade do problema através do choro das pessoas presentes. Imaginem mecânicos, gente naturalmente dura e agressiva, com lágrimas e desespero nos olhos diante da imagem do amigo ensangüentado?

Talvez toda a nossa vida seja caótica e pertence ao espírito humano encontrar a ordem das coisas. Então inventamos a Religião e as Ciências para tentar colocar tudo em mandamentos ou tabelas periódicas. Mas coisas deste naipe acontecem e somos lembrados de que material somos feitos.


A Vida é Risco

Existe aqui um problema. O caos em si não é ruim, pois por este caminho encontramos situações e pessoas que jamais entrariam em nossas vidas se seguíssemos pela estrada segura. É o atalho pela floresta que nos conduz rapidamente para a casa da vovó e para a boca do lobo.

O caos, a dor, a morte se servem para alguma coisa é para isto: ensinar aos sobreviventes que a experiência humana deve ser vivida em sua plenitude. Que possamos atravessar juntos mais este inverno e que a primavera nos encontre fortes.

Que possamos rir do inverno anterior enquanto atravessamos este. Que nossas reservas dos bons dias sejam suficientes para atravessar os dias ruins que se seguirão. Pois sempre existem dias bons e ruins já que a vida é cíclica.

Mas não tenham medo.

Saúde, amizade, liberdade.

Sergio Thot

sexta-feira, 8 de abril de 2011

GOSTO AMARGO

Olá a tod@s.

Não pensava que sentiria o mesmo gosto na boca novamente, mas o fato é que a vida é cíclica, não? As coisas sempre voltam e voltam. Falo sobre a manhã desta quinta, 7, onde um homem entrou numa escola para matar crianças e jovens aparentemente a esmo. A última vez que senti tal gosto foi em 11 de setembro de 2001. Talvez muitos dos que estão a ler lembrem de onde estavam e o que faziam exatamente naquele dia. Como no dia do massacre do Realengo, era uma manhã clara de sol aqui em casa e eu me preparava para trabalhar. Minha esposa liga a tevê e descobre a tragédia.

A primeira coisa que pensei quando vi as reportagens é que tal ato vil fora cometido por amor a uma das alunas. Tem-se matado muito por amor nesses dias aí, haja visto um caso local que ganhou as manchetes do Brasil, o caso Mércia. Como todos que tomaram conhecimento do massacre do Realengo, esperávamos por respostas. Mas até então fomos trabalhar, o Brasil e eu, sem qualquer explicação e com este gosto ruim na boca.


A carta

Faz poucos minutos que li o conteúdo da suposta carta onde o assassino explicaria suas motivações para atirar em crianças e não vi nenhuma. Apesar de falarem que seus alvos eram aleatórios, disparar contra um número quase absoluto de meninas revela para mim um traço de misoginia (explicação AQUI).Ou a proporção de meninos na escola é minúscula. Eis um trecho:

“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão". Leia o conteúdo completo AQUI.

Incrível como as pessoas classificam o sexo como algo mais impuro que o assassinato de crianças ou de adultos.Que mente teria sido esta?

A suposta carta não esclarece nada. Ficaram mais perguntas que respostas. O blog Arauto da Consciência dá nome aos bois: crime de ódio misógino (veja AQUI). De fato, tudo indica que é.


E agora?

Agora é o vazio para quem fica, porque quem se vai já resolveu esta questão. Para quem fica resta viver dia a dia com a pergunta que não tem resposta: porque nós? Não se sabe. A figura humana tenta achar respostas mas o fato que muito do que nos acontece não tem explicação.

Ouvi nas reportagens muito "Graças a Deus meu filho se salvou", como se o Divino escolhesse quem vive e quem morre imerso numa poça de sangue. Mas a escolha é sempre nossa. Espero que todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o massacre do Realengo façam mais que vestir branco e pedir paz em passeata. A paz agora é inútil. Já vivemos em paz por muito tempo.

Uma paz falsa, uma paz armada, uma paz de ranger os dentes, uma paz que olha para trás a cada cinco segundos para nos certificar que não somos seguidos. Desta paz estou saturado.

Agora é tempo de turbulência. Tempo de agitação. Tempo de descobrir como as pessoas conseguem armas. Tempo de sacudir o mundo destes negociadores da morte e dizer-lhes: a guerra chegou à sua porta. Também temos que levar a guerra à porta dos que votam em tiriricas e bolsonaros. Dos que falam "isso não é meu problema" ou "cada um no seu quadrado". Seremos pentelhos. Seremos inconvenientes. Seremos chatos. Muito pai choroso hoje olhava a violência pela tela da tevê assim como um boi olha o mundo pela cerca antes de seu filho tombar morto. Se vive no mundo é seu problema. Sempre é. Porque a morte sempre chega e leva.

Levaremos a guerra à porta destas pessoas e tiraremos a paz deles, também. Pois esta paz bovina, esta paz de abatedouro que leva um por por um, um dia pega a gente.

"Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára", já dizia o Poeta.

Fiquem em guerra.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

TÁ COM CALOR?

É curioso como as pessoas se queixam do calor em todos os verões. Não é natural que as temperaturas subam em um país situado na faixa tropical do planeta? Me surpreenderia se fosse o inverso e as temperaturas chegassem à 17, 15, 10ºC às portas do Carnaval. Aliás seria muito engraçado assistir na tevê os blocos da Bahia saindo com pessoas vestidas em cachecóis, toucas e luvas!

Faz calor em fevereiro do lado de baixo da linha Equador e há pouco que se possa fazer a não ser beber muito líquido, evitar o sol nos períodos de pico do Rei, usar protetor solar e talz. Faz parte da Roda do Ano em nosso país e devemos aproveitar as oportunidades que se apresentam, evitando também os potenciais riscos.

E, pensando melhor, creio que faz parte falar do calor também. Ao menos inicia-se uma conversa através das trivialidades. Creio que só eu quero falar nos Grandes  Temas da Atualidade, kakakakakakaka!


Faetonte

Esse calor me lembra uma história de Faetonte, do filho do Sol, que queria porque queria conduzir o carro do pai pelo céu. Assim aqui como lá, sabemos que isso não dá certo, apesar de todas as recomendações:

"E para que o Céu e a Terra possam receber cada um a quantidade devida de calor, não subas demais, senão incendiarás o as moradas celestes, nem andes muito baixo, para que não ateies fogo à Terra; o meio é o caminho mais seguro e melhor."

O Pai deu as rédeas dos cavalos ao filho inconseqüente e este saiu pelo firmamento. Estranhando a condução vacilante, os animais não respeitaram os comandos de Faetonte e saíram loucos, em disparada. Em seu caminho queimaram florestas e cidades e mesmo os Deuses sofreram com a corrida dos animais sem  controle.

Zeus, vendo que aquilo deveria parar, lançou sobre um carro seu raio e derrubou o condutor. Faetonte precipita-se do céu, em chamas! Imagino isso como a queda de um corpo celeste, um cometa, sobre a terra! CABUM!

Leia mais sobre Faetonte e outros na obra "O Livro de Ouro da Mitologia", de Thomas Bunfinch.



Ilhas de Calor

É claro que é possivel amenizar a situação em médio e longo prazos. Está em andamento em diversos pontos da cidade o projeto Ilhas Verdes, que distribui mudas de árvores nativas da região para a população a fim de reduzir ou mesmo eliminar as ilhas de calor criadas pelo concreto e asfalto.

"O estudo apontou, por meio de um mapa termal, as regiões da cidade que mais concentram ilhas de calor, incluindo os bairros próximos ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, Centro, Cidade Satélite de Cumbica – zona industrial. Mesmo com áreas específicas, a pesquisa demonstrou que o problema afeta todo o município. Desde o início do projeto, a Secretaria do Meio Ambiente plantou mais de 25 mil mudas de árvores em diversos locais da cidade, incluindo cerca de 2 mil mudas próximo a Marginal Baquirivu e 1.200 no Centro. A meta é plantar no mínimo 10 mil mudas por ano."


Fonte: Diário de Guarulhos

Sem o apoio da população, as queixas do calor continuarão. Afinal, não dá para comparar as sombras de um árvore frondosa com a de uma marquise de concreto!

São nestas coisas que penso enquanto vejo os passarinhos cantando nas antenas dos telhado.

Saúde, amizade, liberdade.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

BENDITO FRUTO!

Mesmo antes de nascer a vida de Mani estava em risco. Filha da união de sua mãe com o Divino, ela estava sujeita a lei dos homens e esta dizia que mulher grávida é mulher casada com homem. E aonde estava o pai? Não se sabe. A mãe de Mani chora dias e noites sob o olhar severo do pai, jurando que não fora à mata com ninguém da tribo para se deitar na relva e fazer amor. A tribo a despreza ou a evita como se tivesse uma doença contagiosa. Se afastam.

O que a Mãe, nossa Mãe, não sabe é que ela alimentará nações com o fruto de seu ventre que já vem até com nome: Mani. Tal-e-qual Demeter de Outras Terras, ela chorará muito por sua filha mas suas lágrimas serão lembradas para sempre enquanto o sacrifício Dela e de Sua Filha for por nós repassado. É da Casa de Mani que surge a farinha que minha mãe habilmente misturava com carne, legumes, caldo e temperos e comia com gosto. E eu, criança, lutando com o garfo e a faca achava aquela destreza o máximo, rs!

A batata salvou milhões na Europa (sendo que países inteiros dependiam de boas safras, como pode ser visto AQUI) e a mandioca outros milhões na África, onde até hoje é plantada tendo como a Nigéria um de seus maiores produtores.

Mas ainda estamos às portas do Equinócio do Outono e o fruto ainda não está maduro. Sejamos fortes e pacientes como Mani. Que a menina-Deusa nos ensine a suportar os encargos de ser o que somos, apesar de nossas origens! Feliz Lammas.


Ps.:

Vejam como são as coisas. Este texto se inspirou em outro blog, o Círculo de Gaia e agora a corrente segue adiante através do blog do amigo Saulo, o Empório da Bruxaria. Mas nosso amigo mineiro lapidou o pensamento em poesia. Segue um trecho. Aproveitem e leiam no original também, rs!


"Uma nova esperança,
Que a tribo iria receber,
Tão bela criança,
Fruto de um bem querer,

"Da concepção divina,
O cacique duvidava da pureza,
E em seu sonho veio à confirmação,
Tupã, do ato explicou-lhe com clareza."

S. Thot

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

REI MORTO, REI POSTO

Olá a tod@s!

O fogo da mudança ameaça as terras egípcias nestes dias. Lembram do texto Saber Perder deste blog? Então... o "presidente-faraó" do Egito não sabe perder. O país vive uma crise econômica e social e o cara quer ficar lá eternamente após uma semana de choques entre forças policiais e manifestantes no Cairo! Fez às pressas uma reforminha meia-boca nomeando um policial para o cargo de vice-presidente e dissolvendo o ministério que ele mesmo nomeia. "E daí?", podem vocês pensar.

Bem, levando em conta que o atual manda-chuva do lugar era vice-presidente antes de assumir o poder a 30 anos atrás, traça-se então uma interessante linha decisória, não acham? E já vivemos uma situação parecida aqui no Brasil também.

Se Mubarak fosse pagão e a terra e seu povo empobrecessem, a decisão mais acertada que ele tomaria era sacrificar sua posição  para alguém mais capaz de tomar conta de sua mátria terra. Quando as coisas vão mal o responsável por ele é o líder.

Mas ele não casou com o Egito como faziam os reis do passado, mas o tomou e se mantém no trono graças ao exército e não por causa da sua capacidade administrativa. E para não largar o osso todos os métodos truculentos são usados, desde os mais antigos como as balas, fuzis e tanques, até algo relativamente novo que é desligar a Internet e a rede de telefonia celular! A tevê Al Jazeera já foi pro espaço!

Temo pela seguranças das pessoas que lá moram e que estão montadas em um barril de pólvora. O Egito é um importante aliado ocidental na região então poucos presidentes darão um pito no Mubarak. Se não deram um sermão no homem nos últimos 30 anos, porque o fariam agora? E o rei da Arábia Saudita (país que, entre outras coisas, proíbe as mulheres de dirigir) já demonstrou seu apoio ao "presidente-faraó". Lógico, pois a próxima cabeça a ser pedida nas ruas pode ser a dele! Lembrando que os protestos contra a corrupção e pobreza nasceram em outras nações da região, como a Tunísia. Enquanto isso, os saques aos patrimônios culturais e residências na capital já começaram.

Fica a lição para vocês sobre a vida em uma nação: os homens no poder em geral são eleitos nos braços do povo, mas sempre que podem se mantém no poder graças as baionetas dos soldados.

Que a paz e a prosperidade voltem às terras banhadas pelo Grandioso Nilo.


E para provar que um governante se apoia mais em seu exército do que na Constituição, deixo-lhes uma lição de nasceu a primeira Constituição no Brasil, contada pelo historiador Eduardo Bueno.


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Sergio Thot.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

TRAGÉDIA ANUNCIADA

Vocês se lembram do tsunami ocorrido em 2004 e que devastou vilas inteiras no pacífico sul? Era uma tragédia anunciada. Sabe o significado destas duas palavras? Significa que alguém sabia que algo estava errado, que haveriam mortos e feridos e que nada ou pouco foi feito para impedir o ocorrido. Países do Círculo de Fogo, região do epicentro do tremor, têm (ou deveriam ter) meios para prever tsunamis e alertar a população local. A exemplo do Japão que deu nome que hoje usamos ao fenômeno do maremoto.

Quem assistiu os telejornais nestes últimos dias viu outro tipo de tsunami: o de pedras, árvores e tijolos descendo o morro com água, lama e corpos de pessoas varrendo a região serrana do Rio de Janeiro no início deste ano. Outra tragédia anunciada segundo o geólogo Álvaro Santos (veja AQUI a reportagem). Não vai longe: o ano de 2010 iniciou-se com as mortes em Angra dos Reis, com muitos mortos. Poucos meses depois tivemos os deslizamentos em Niterói, com casas construídas sobre um lixão!


Se você juntar duas competências, a de geólogo e a de metereólogo para que façam um estudo sobre as áreas de risco de certo lugar em determinadas épocas pode-se ter um mapa relativamente preciso de onde as pessoas não devem construir habitações. Ou de onde devam sair para que não haja risco de morte. Nem que seja à força. Radical? Bem, radical é a morte e ela chega e leva.



Vesúvio

Penso por exemplo nas cidades que vivem aos pés do Vesúvio, como Nápoles. É fato que o solo ao redor de vulcões é fértil, o que atrai as populações humanas há gerações. O nosso cimento, sem o qual não haveriam tantas estruturas gigantescas, foi inventado aos pés de vulcões ao se misturar suas cinzas com outros materiais graças à engenhosidades dos romanos e povos vizinhos ainda na Antiguidade. 


Ainda hoje este material é utilizado em diversas partes de mundo na construção, como tem feito nossos vizinhos argentinos na Patagônia que usarão os recursos disponíveis para a fabricação de casas, com tijolos feitos de cinzas vulcânicas, para construir casas populares. É descobrir a oportunidade na adversidade. Veja AQUI a notícia.
Vítimas do Vesúvio, em Pompeia




Mas não preciso dizer que as pessoas que lá residem conhecem os riscos que correm nas encostas de um vulcão ativo.


Se durante séculos os moradores usaram da sorte, dos instintos ou da providência divina para se safarem da morte, hoje é possível detectar tremores e ter planos de emergência para diminuir os danos. Mas aqui falo de erupção vulcânica, algo difícil de prever.

Que o diga as populações de Pompéia e Herculano, vítimas do efeito piroclástico que desceu as encostas do Vesúvio matando centenas em minutos e soterrando a cidade por 1600 anos. O moderno governo italiano pensou adiante:

"Em 1995, o governo italiano formou uma comissão cujo objetivo é traçar um plano de emergência para o caso de o Vesúvio voltar a entrar em atividade. O principal ponto do plano é evacuar 700 mil pessoas que moram nas áreas de maior risco num período de sete dias."

Fonte: Wikipedia 





Podemos Prever Tragédias?


Em nosso país todo verão chove! E a soma de água + morro + pessoas = tragédia. Sabendo disto, considero responsáveis os institutos de pesquisa meterológicas e topográficas, órgãos da defesa civil, as secretárias da habitação de diversos governos coniventes com a ocupação destes locais e os chefes de família que colocam seus filhos nesta situação perigosa. É... apesar do pesar que sinto das mães e pais enlutados chorando diante das câmeras que aumentam o close-up para melhor registrar suas lágrimas, tenho que lembrar que muitos sabem dos riscos quando constroem suas residências nestas áreas.

Não é possível confiar em parlamentares, infelizmente. Parlamentar, como a origem da palavra mostra, é uma pessoa cuja a função é falar. Blá, blá, blá interminável que começa e termina no período eleitoral, visando apenas conquistar votos e a manutenção de poder, cargos e salários. Que prefeito terá culhões para enfrentar bairros inteiros e dizer o óbvio? De que se os habitantes permanecerem ali correrão o risco de morte e que serão desalojados?

Toda cidade possui um limite habitável determinado pelas condições que a natureza lhe impõe. Quando ultrapassamos este limite estamos por conta e risco e esta é uma informação que tem que ser dita em alto e bom tom. 

Depois que fornecermos nossa ajuda e solidariedade através de alimentos, água, produtos e higiene e limpeza é preciso sentar e conversar seriamente sobre como fazer com que no verão de 2012, afim de não iniciarmos o ano com imagens de crianças mortas emergindo da lama nos braços de bombeiros em prantos.

Certo?

S. Thot 

Ps.: na segunda semana de março o Japão foi sacudido por um dos piores abalos dos últimos anos. O terremoto, acima de 9 graus de magnitude, causou na seqüência um maremoto e, entre outros estragos materiais, a explosão de uma de suas usinas nucleares (Fukushima Daiichi). A contagem dos mortos, feridos, desaparecidos e desabrigados continua enquanto o mundo presta sua solidariedade. Há coisas que mesmo prevendo são difíceis de contornar.




ALMA NOBRE


Sempre penso que as pessoas devam ser os heróis e heroínas de suas vidas. E isso significa mergulhar na lama da vida sem ser parte dela. Tarefa difícil. Ter a alma nobre é enxergar e criar além do comum, acredito.

É tornar o lugar onde mora  uma Paris. Quem não quer morar em Paris? Eu quero! É uma cidade que me fascina, cuja a mais famosa igreja, Notre Dame data dos anos 1100! E que antes dela havia ali um templo dedicado a Júpiter construído pelos romanos conquistadores. E que antes deles os celtas provavelmente já usavam o lugar para suas cerimonias. Podem sentir o que eu falo?

Mas Roma não foi feita em um dia, nem Paris, Londres ou Lisboa. São fruto de uma construção física e psíquica em que dado momento alguém disse para si e para os outros: epa, existe algo grandioso aqui! E em mim também!

Todos estes lugares nasceram como aldeamentos vira-latas. As cidades são a soma de pessoas, de residências, de pensamentos e ações comuns. Em Londres não faz muito tempo as pessoas jogavam o conteúdo matinal do penico nas ruas. Hoje, se assistir a reportagens internacionais e reparar nas ruas verá que elas estão limpas e organizadas. É uma amostra de uma cidade que é consciente de ser uma das vitrines do mundo. Mas teve que haver o momento do estalo, da epifania, da revelação.  E neste momento foi possível vislumbrar um futuro diferente e uma capacidade de liderança do próprio destino.

Você pode dizer o mesmo de si ou do lugar onde mora? Pode afirmar com segurança que é você é uma referência positiva para outras pessoas em contraste ao modelo midiático atual? Quem é ou será a heroína de sua filha? As grandes mulheres do passado representadas por você ou alguma siliconada barraqueira do BBB 11

Temos a chance incrível de transformar a nós mesmos e ao lugar onde moramos. De sermos heroínas e heróis de nossa históiria. Podemos escolher que o bairro em que moramos seja um Haiti ou uma Suíça. E isso não vem do nada, não é de graça, mas passa pela organização, limpeza, estudo, trabalho. Temos uma geração inteira de jovens que detestam estudar e que não ligam as palavras trabalho à progresso.

"Mais do que criar uma extensão do Bolsa Família para a faixa até os 18 anos, como foi feito agora, a pesquisa mostra que é preciso despertar e conquistar o interesse do jovem em permanecer na escola."

 Fonte: O Globo
 


Sim, lamento ser o portador de notícias ruins, mas não é possível sustentar um país de Tiriricas. Já basta um que mal chegou no Congresso Nacional e pegou um aumento de 60 e poucos por cento  em seu salário de parlamentar enquanto a maioria dos trabalhadores levou 10 vezes menos para casa. Bem, o mal está feito e seguindo a tradição pão e circo de nosso país, as coisas ficarão como estão.

Sigamos em frente.

Não importa o quanto o corpo se suje, desde que sua alma esteja limpa. Se sujar faz bem! Rs!

Saúde, amizade, liberdade.


S. Thot 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

SABER PERDER

"O tema da fertilidade natural é mais complexo. Envolve duas figuras divinas: o deus do ano crescente (que aparece amiúde na mitologia como o Rei carvalho) e o Deus do ano Minguante (o Rei Azevinho). São gêmeos claro/escuro, cada um o outro eu do outro, rivais eternos que longamente se conquistam e se sucedem mutualmente. Competem eternamente pelo favorecimento da Grande Mãe e a cada um, no pico de seu reinado semestral, é sacrificialmente unido a ela, morre em seu amplexo e é ressuscitado a fim de completar seu reinado".

De Janet e Stewart Farrar, Oito Sabás para Bruxas


Olá a tod@s. Essa postagem nasce da releitura de um texto no blog Bruxaria Pagã, da amiga [(Säm)], sobre o tema dos reis Carvalho e Azevinho. O que me chama a atenção é o acordo de cavalheiros entre os dois para que um submeta o outro em seu devido tempo. Ter noção do tempo que nos resta e não prolongar o inevitável é uma demonstração de sabedoria.

Na vida em geral nem sempre temos/damos amostras desta sabedoria antiga. Queremos ganhar todas as discussões, todas as batalhas e permanecer sempre no trono quando somos potentes e sem compaixão. Logo temos que cobrir toda a terra com concreto, asfalto e monoculturas simplesmente porque podemos faze-lo. Nos comportamos em nossa casa ou trabalho como se fossemos os reis do mundo. Não raro soberanos antigos e modernos tentam perpetuar-se no poder divinizando-se como se isso lhes dessem vida eterna, ou tentam transmitir as boas características de seu reinado através dos laços de sangue como se qualidades humanas fossem herdadas geneticamente. Será?

Ou então deixamos que ganhem todas porque nem sempre nosso oponente é forte ou inteligente o suficiente para segurar a barra de esperar o novo ciclo. Na pior das hipóteses eles são fortes de mais para subjugarem nossa vontade mas não para trazer benefícios em seu domínio.

Mas como mostram os Reis, nada é para sempre. Reinos caem, linhagens desaparecem no sangue bárbaro e no fim só fica mesmo o caipira no campo desde os tempos imemoriais. Sábia é a pessoa que percebe que tudo é transitório.

Pela net, quando neófitos me pedem feitiço disso ou daquilo, informo que antes eles devem pedir discernimento para julgar que aquilo que querem vencer é realmente necessário. Como no judô, temos que muitas vezes nos render a esta força maior para que num futuro não muito distante possamos usa-la a nosso favor quando realmente precisarmos.

Não ganhe todas. Ganhe o que importa. Saiba discernir.

Saúde, amizade, liberdade.



sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

DESAFINADO

E vem aí mais um final do ano civil e eu desafinando o compasso. Sim, porque enquanto todos se preparam para o novo ano, em mim as coisas ainda estão em andamento. Todo ano é a mesma coisa, rs! As pessoas me desejam Feliz Ano Novo e eu fico sem jeito para devolver o cumprimento. Para mim amanhã é simplesmente outro dia de verão.

Talvez seja isso. É toda essa agitação e calor que não convida ao recomeço mas a continuidade. Enfim... para quem segue o calendário, feliz 2011. E tenham paciência com este pagão bossa-nova, desafinado, que segue os solstícios e equinócios! Rs!


Post Scriptum

Só para lembrar que não sou o único fora do tom, trago uma matéria interessante pós-virada do jornal O Globo sobre outras culturas para quem o Ano-Novo já começou. Siga AQUI o link.


 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

DA ANTIGA EUROPA AO MORRO CARIOCA


"A ausência de evidência de violência no período neolítico é tão completa que chega a ser quase inacreditável. Nos locais em que os escavadores encontraram sepultamentos em massa, seja de grandes comunidades ou de pequenos grupos durante um longo período de tempo, virtualmente nenhum dos corpos mostra qualquer sinal de morte violenta. (...)

"A evidência da não-violência vai além das mortes individuais. A cidade neolítica  escavada próximo à Çatal Hüyük, em Anatólia, na Turquia (em geral chamada simplesmente de Çatal Hüyük), é uma das cidades mais antigas do mundo, datando de 7250-6150 a. C. O arqueólogo James Melaart encontrou evidência de 800 anos de habitação contínua. Nenhuma vez o registro arqueológico mostra sinais de um saque ou de um massacre - nenhum em 800 anos."

Da obra O Corpo da Deusa, de Rachel Pollack

Não é de hoje que as pessoas simples, que mourejam sob o sol sofrem na mão de hordas violentas. Segundo várias pesquisas uma civilização não violenta residia no chamado Crescente Fértil durante o período neolítico em uma área que ia dos atuais Iraque até o Egito, passando pelo litoral mediterrâneo. Saiba mais sobre a milenar cidade clicando AQUI.

Composta por fazendeiros (Pagãos? Camponeses?) foram os grandes inventores da humanidade pois a vida fixa na terra permitia a reflexão sobre as questões práticas da existência. Quando temos segurança em todos os aspectos de nossa vida ganhamos tempo ocioso. Com este tempo pensamos em modos práticos de melhorar o que já está bom: o cálculo, a escrita, a agricultura e suas ferramentas, a metalurgia, a cura. Sabe o que acontece? Mais tecnologia, mais segurança e conforto. Então surgem mais pessoas e as aldeias viram cidades.

Neste berço esplêndido supõe-se floresceu uma religião matrifocal, se não matriarcal, dirigida à terra e a sua manutenção. Há quem sustente que no neolítico vivemos o período da Religião da Deusa.

Mas como tudo que bom só dura algumas centenas de anos, tribos do norte, os chamados indo-europeus, ocuparam pela coerção estas regiões e se estabeleceram em definitivo. Era o fim da paz na terra entre os povos de boa vontade. Como a vida é cíclica, a gente sempre vê as coisas acontecerem de novo e de novo.


Ocupe seu lugar no espaço

Tal-qual os povos invasores da Antiga Europa, durante décadas assistimos os morros cariocas e as favelas paulistas serem tomadas por um novo tipo de conquistador no espaço deixado pelo Estado. Lembre-se que a natureza detesta espaços vazios e que se há um vácuo de poder ele TEM que ser ocupado, seja pelo poder do Estado, a organização do cidadão ou a ação criminal.
Seja no Complexo do Alemão, na praça perto de sua casa, aquele terreno baldio ou casa abandonada, o espaço nunca fica vago por muito tempo. Então cabe a uma destas três forças (O Estado, o cidadão ou o crime) a ocuparem, sendo que só duas delas possuem o monopólio da violência. A guerra de ocupação que testemunhamos pela tevê ou mesmo ao vivo (Deusa, se compadeça destas pessoas) é uma amostra do que acontece quando a organização popular deixa seu mundo à deus-dará.

Que Têmis restabeleça a ordem quando as Erínias cumprirem seu papel. Caso queira fazer um pedido especial a elas, vou lhe dar um combustível emocional.