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terça-feira, 14 de julho de 2009

DA ALMA





"(...)Andou por vários dias até alcançar uma gruta, no interior da qual descortinou-se uma fenda que conduzia ao reino de Plutão. Munida somente de sua coragem, Psiquê penetrou nos escuros labirintos da morada dos mortos."

Cupido e Psiquê, retirado da obra As 100 melhores Histórias da Mitologia, de Franchini e Seganfredo

Alma, ou psy·khé em grego, é uma palavra de infinitas significações. Uma delas nos sussurra que é graças a alma, por exemplo, que ficamos agitados, vivos... ou animados!

Quando temos alma, estamos vivos no pleno sentido da palavra, absorvendo e exalando ar, segundo após segundo. A respiração que sempre foi um dos indicadores que nós não passamos para o Outro Lado. Segundo o mito dos povos do Oriente Médio, a vida nos foi dada pelo sopro.

A simbologia que mais gosto é a da borboleta. Creio que existem poucos seres que retratam a metamorfose de maneira tão bela e clara. Primeiramente vemos um ser disforme, às vezes venenoso, cuja a vida é comer e defecar. O tempo passa e ele fica maior e mais voraz, mas nos acostumamos a tê-lo ali. É parte da paisagem.

Certo dia nos damos conta de que ele não só parou de comer como também não se movimenta mais. E que em torno de seu corpo uma fina camada de seda se forma. Se fora fácil esquecer de um ser que se movimentava e comia tudo em seu caminho, imagina então agora que ele sumiu, submergia em si mesmo? Passada uma leve curiosidade inicial, deixamos aquele casulo de lado e tocamos a vida.

Ah, mas é tudo ilusão. Se formos bons observadores veremos, em um dia quente e bonito de sol, que aquela coisinha de seda que estava no canto da janela se mexeu. E mais: Há algo que lá dentro luta para estirar suas asas à luz da manhã. E então elas saem de seus casulos aos milhares, seja para um passeio em seu quintal ou para atravessar um continente. E tudo para achar outras almas, assim como fez Psiquê.

Gosto de pensar que, periodicamente, somos esses seres, que nascem e renascem de tempos em tempos. Seres que romperam com atos inúteis, ciclos viciosos, pensamentos nocivos e acorrentadores, e se cederam ao novo e ao belo, finalmente. Para o mundo elas são jovens, recém-nascidas do casulo. Mas só a Deusa sabe o quanto elas caminharam dentro de si para ganhar asas!

E só a partir disso, quando finalmente emergem plenos em sua vitalidade e leves, é que vão em busca do Amor.

Pensem nisso.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

DO CICLO


"Toda viagem é a partir da Mãe, para a Mãe, dentro da Mãe."

Nor Hall, autor de The Moon and the Virgin

Foi na sexta série que estes fatos aconteceram. Estudava no E. E. P. G. "Glauber Rocha" à tarde, em uma sala cuja a janela se voltava para o oeste. Relógio de pulso não era coisa para todo mundo ter naquela época, e celular... bem... era 1987 e a gente nem sonhava com essas coisas.

Mas a necessidade é a Mãe das invenções e naqueles dias a nossa necessidade era descobrir quanto tempo restava para a hora do recreio. Então alguém veio com uma idéia simples: quando o sinal tocasse alguém riscava a parede onde uma sombra em particular se projetava (olha o vandalismo!). No dia seguinte, era só seguir esse referencial que saberíamos quanto tempo faltava.

O lance ficou tão bom que usamos o sistema aperfeiçoado para marcar as trocas de professores e hora da saída, usando novas marcações (gente, não façam isso na escola, hein?). Criamos nosso próprio relógio solar. Mas tudo que é bom dura pouco, diz o ditado. Com o tempo percebemos que as marcações perdiam sua capacidade de marcar as horas com exatidão. Então descobrimos na prática e sem querer os efeitos dos movimentos de rotação e translação da Terra, e como eles criam os efeitos que chamamos de Dia e Noite, Solstícios
e Equinócios.




Percepção e Consciência


A percepção dos ciclos em nossa vida é algo revelador. A vida deixa de ser uma linha reta e se torna um conjunto de espirais que se entrelaçam. Há ciclos curtos como um dia de trabalho, ou longos como uma amizade de décadas. Então a vida foge da somatória de dias amorfos e é pontuada por etapas a serem alcançadas e vencidas. Nos conta a ciberamiga Layla, no blog Correndo com os Lobos: 

"
Não ouso lamentar por nada. Apenas me entrego ao ciclo fundamental de vida-morte-vida que rege o mundo. Caem as folhas secas, e encravam-se em meu peito, decompondo-se em matéria úmida que há de fertilizar minha carne."

A percepção dos ciclos ainda evita que caiamos no mesmo buraco uma segunda vez. A história humana é recheada de problemas pelos quais não deveríamos passar novamente. Temos muitos exemplos de guerras e catástrofes ecológicas para aprender com nossos erros e aperfeiçoar o futuro. Em nível pessoal o mesmo ocorre: se um certo tipo de pessoa não serve para se ter relacionamento, é obvio que tal padrão deva ser quebrado para seu próprio bem.

Assim diz a canção...




"São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida
"

Conhecer passado para determinar o futuro.



Felicidades.




Sergio Thot.

domingo, 28 de junho de 2009

DO RECONHECIMENTO





"O grupo sentiu a necessidade de um líder reconhecido; ao mesmo tempo, senti a necessidade de ter meu recém-descoberto poder reconhecido. O coven confirmou-me como sacerdotisa."


Dança Cósmica das Feiticeiras - Starhawk


Acho que todos já assistiram o filme "O Náufrago", com Tom Hanks. Como o título deixa claro, o personagem em questão se acha preso em uma ilha, longe do contato humano. Para não enlouquecer, fabrica um "amigo". Eu chamo isso de Efeito Bola Wilson. A vida isolada o teria transtornado se não usasse deste recurso pois nós somos animais sociais por natureza, e precisamos do reconhecimento do outro para legitimar de tempos em tempos nossa humanidade.


Nos grupos sociais em que vivemos, como família, escola, trabalho, rua, bairro, cidade ou país, também buscamos nosso lugar e reconhecimento das qualidades que temos. Nos esforçamos para que o melhor de nós seja apontado pelos outros, isto é um fato. E quando isso não acontece apesar de todos os esforços desprendidos, nasce o vazio no peito.


"Você sabe com quem está falando?"

Em algum momento de sua vida você ouviu ou ouvirá está frase. Ela nasce de um indivíduo que possui um título. Qualquer título. E, quando alguém acredita nele comete essas gafes.

Mas a verdade é que títulos, crachás, emblemas são apenas símbolos. E qualquer bruxo que se preze sabe que símbolo não é a verdade, mas sua representação. A verdade tem um pé no real, na prática, na convivência diária.

E nada melhor para provar se o título corresponde à verdade é submeter seu portador à realidade. Não adianta esfregar na cara: tem que provar que sabe. Do contrário, é coerção, abuso, violência.



Katy de Mattos Frisvold nos escreve:


"Ofício é uma profissão, pois se observarmos a pista etimológica, encontraremos a palavra originada do latim officiu, que significa o dever, trabalho de uma pessoa. O povo é que elege a bruxa, procurando-a como a sabia, a ‘consoladora’, a que traz paz de espírito. Seja pela palavra, pelo oráculo, pelo chá servido e o recomendado, ela dá força para que a labuta diária continue apesar dos dramas humanos".


Fonte: Diablerie

O outro é nosso espelho

Nos preparemos para reconhecer no outro as qualidades que faltam em nós para que, quando o momento surgir, ele possa assumir com brilhantismo a liderança e nos guiar pela escuridão da ignorância. Reconhecer no outro a Centelha Divina que tornará aquele trecho da caminhada um pouco menos acidentado.


E nós, quando for a nossa vez de guiar e, uma vez terminada a necessidade, reconhecer o momento certo de nos recolher com humildade e certeza do dever cumprido. Isto é algo que devemos levar em todos os campos de nossas vidas.

Saúde, amizade, liberdade.


S. Thot

sexta-feira, 26 de junho de 2009

DA LUZ




Da parte grossa do ovo quebrado,
Ergeu-se o excelso arco do céu, E então da gema, a parte de cima, O brilho ardente do Sol tornou-se.(...) Kalevala: A Terra dos Heróis - Tradução de W.F. Kirby.



Desde a primeira ferramenta criada pelo homem, a soma de conhecimento chamada de tecnologia facilitou-nos a vida. Quando queremos que um ambiente se ilumine, basta tocar em um interruptor. Se falta energia, temos hoje o recurso de acender um fósforo ou isqueiro e queimar parafina industrializada.

Imagina a vida de quem vivia somente com a luz das estrelas e da Lua enquanto o sol rumava para outras terras? Tal como a água, para nós é fácil ter o que precisamos. Basta um clique e está tudo a mão. No entanto, quando em outros tempos e outras terras, quando éramos camponeses, os perigos reais e irreais se escondiam no farfalhar das folhas na floresta, na boca dos lobos-guarás e das corujas.

Faltou luz em casa devido as chuvas de Inverno. Mas velas são abundantes aqui e não ficamos totalmente às escuras. E confesso que foi até interessante jantar sob seu brilho tênue. O andar pela casa à noite foi uma experiência interessante. É um espaço conhecido mas as novas sombras mudaram as perspectivas de espaços e objetos. O fato me trouxe lembranças de uma caminhada às escuras na Mata Atlântica, tempos atrás.

Acampando com amigos durante um feriado prolongado, e retornando a minha barraca após um passeio solitário no fim da tarde, senti o medo ancestral. Acostumado com as facilidades urbanas, com os postes com luzes e faróis dos carros velozes, a escuridão me engoliu em cheio. A trilha era conhecida durante o dia, mas a noite a Lua prega peças.

Onde eu pensava ver buracos eram montes. E aonde eu buscava firmeza da terra eu tropeçava. O vento brincava ao meu redor e tinha a nítida impressão que me seguiam dentro da mata, de ambos os lados do caminho. Eu parava para escutar e firmar a visão, mas só via o prateado das folhas próximas.

É lógico que o coração baterá forte e a garganta apertará nestas horas. Com as lanternas e fogueiras a cinco minutos de caminhada ainda, tudo era estranho e hostil. Tão pouco tempo em uma calçada iluminada é besteira, mas ali foi uma eternidade. Não é à toa que a Iniciação em vários círculos mágicos envolvem a restrição de sentidos como a visão.

Nossa Psiquê fica totalmente vulnerável e aberta a qualquer experiência que ocorra a nossa volta. Se há algo de racional em nós, diante do desconhecido, esse algo é o primeiro a correr!!! É o mergulho da Deusa nos domínios de Perséfone.

De volta a segurança do fogo e tomando minha sopa, debaixo do cobertor, achei tudo engraçado, logicamente. Ri por dentro e e esqueci o assunto em meio a outras conversas. O tempo passa. E a experiência somente renasceu com a falta da luz em casa e a busca das velas e fósforos, diante do medo ancestral da Escuridão.

Distraídos pelas luzes da cidade e pela fogueira moderna em forma de televisão, não temos tempo suficiente para confrontar-nos conosco e nossos medos. De certo modo vivemos como as mariposas que se batem nas lâmpadas.

Até que a Realidade vem e apaga a luz.


Para você, caro leitor, um som da MPB que simboliza o casamento da luz do Sol com as profundezas da Terra...



Sergio Thot

domingo, 21 de junho de 2009

DO YULE


Arquivo Pessoal


"É um mundo emaranhado de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras - limiar da entrada de ancestral caverna que é o útero do mundo e dele vou nascer."


Do livro "Água Viva", de Clarice Lispector

Então chegou o tempo do descanso. Os vermes fizeram seu trabalho e tudo está desagregado. Amorfo, o solo recebe de volta os nutrientes tirados e aproveita a pausa entre as colheitas.

Nunca a fé fora tão necessária que agora. É tempo de resignação, de poupar energia, de racionamento. Exceto por um dia.

Neste dia renovamos os votos com as Divindades, conosco e com a comunidade. E trocamos e dividimos comida e presentes. Porque mesmo apesar da seca, do frio ou da fome, nossa esperança permanece, vela solitária na escuridão a iluminar o caminho.


É tempo do retorno ao Escuro.

O Divino mergulha na escuridão. Sua identidade ficou para trás e agora só resta o esquecimento, a pausa, o ponto mais baixo do pêndulo. Ele mergulha no turbilhão renovador, no Caldeirão onde o Fim e Início se misturam.

Sua mente está limpa e preparada. Existe agora um universo de possibilidades. O terreno onde elas podem nascer está fértil, pois está livre dos medos, dúvidas e ideias preconcebidas. Em breve novos planos nascerão deste terreno fértil onde a capacidade e a necessidade se encontram.

Esteja preparado(a)!!!

Saúde, amizade, liberdade.



Sergio Thot
Ps.: E aqui estamos nós, celebrando o Yule.