"Praticar a Religião é um ato de entrega e não é à toa que falamos de fé. Nada de filosofia de vida, esta coisa indefinível que não compromete ninguém. Sem entrega, sem esta leveza na alma, não há culto, não há religião."
Certa vez eu escrevi esta frase e quero confirma-la aqui: religião é um ato de entrega, no qual colocamos aquilo que carregamos no peito. Não são as luzes ou sacerdotes vistosos de fala fácil. É algo mais profundo e pessoal, ao mesmo tempo que é compartilhável. É uma paixão, inexplicável.
O mesmo é possível dizer sobre o movimento ambiental: não é somente a montagem de uma ONG que torna a defesa do meio ambiente viável, mas o compromisso diário e sincero em fazer coisas simples, cotidianas.
Lições da Mãe
A natureza ensina melhor, aprendi com a Deusa. E a natureza diz que o melhor é fazer as coisas pelo modo mais simples. O sol não se esforça para brilhar, nem as plantas para crescer. São coisas feitas (olha que óbvio!!!) naturalmente!
Este Fazer Melhor é algo que se realiza no cotidiano, nas ações corriqueiras, nas decisões que tomamos a cada passo, seja no trabalho, na escola, em casa.
Então fica a nota aqui: quando quiser que algo aconteça, seja simples começando por si mesmo, pois é assim que as montanhas e florestas agem.
Para construir muitas vezes necessita-se criar algo que nunca existiu antes, sem qualquer base ou experiência comprovada de que dará certo. Sendo novo, poucos nos dão crédito, sendo preciso provar a cada passo para viemos.
Reconstruir é refazer o novo com o entulho do velho. Quando nós dominamos o processo é uma maravilha, mas quando se é vítima de uma catástrofe, reconstruir não só é uma necessidade, mas um sacrifício pois temos que lidar com a dor no processo.
Reconstruir é levantar e continuar enquanto a platéia ainda está com a respiração presa.
Reatar os fios da teia como faz a aranha a cada chuva.
Já assistiram "Sonhos", do cineasta Akira Kurosawa? Compostos de vários episódios, a obra conta de forma onírica os medos, anseios e alegrias de pessoas comuns em situações extraordinárias.
No episódio "Jardim das Pessegueiras" nos é apresentada a importância que esta árvore tem para a cultura japonesa pelos olhos de uma criança. Assista com áudio original, pois os diálogos só "funcionam" através da inconfundível entonação da língua nativa.
Pensando e repensando: se no Japão o pessegueiro assume esta força no inconsciente da nação, qual é a árvore que nos traduz enquanto povo? E como é isto para outras nações?
No Início
Não podemos começar este texto sem citar uma das mais fortes culturas presentes no imaginário popular brasileiro baseado na religiosidade judaico-cristã. Entre os judeus atuais há o costume de plantar árvores por conta de uma regra milenar.
Segundo este preceito, quando nasce um menino os parentes plantam um cedro; e se vem ao mundo uma menina, um cipreste. Quando dois jovens adultos se casam, os ramos destas árvores são cortados e usados para a construção de um hupá (ao lado). Este hábito ainda se mantém.
Em seus textos sagrados há também diversas restrições quanto ao uso e manuseio de árvores.
"A Sabedoria nasce da mente pura"
Nos contam os textos budistas que o princípe Sidarta, cansado da vida palaciana, saiu para dar um passeio, logo ele que nunca deixara aqueles muros. Através do contato que teve com a velhice, pobreza e morte expostas nas ruas de seu reino, percebera que a vida era diferente daquilo que conhecia e inquietou-se.
Mas ao se deparar com a paz de um eremita que meditava percebera que era possível encontra-la para si. Sidarta resolveu deixar sua esposa e filho e buscar tal quietude para sua alma. Viveu anos na floresta e, encostado em uma figueira, finalmente encontrara sua Revelação.
Visita dos Antigos
As nações do Oiapoque são protegidas pelos Karuãna, os Antigos, que visitam este mundo graças ao Turé, mastro que liga Nosso Mundo ao Outro. Quando as chuvas escasseiam, uma reunião é realizada envolta deste mastro.
Os Karuãna, andando entre os vivos, bebem do caxiri e confabulam com os pajés durante a comemoração que se dá entre todos os membros do povo. Estas festas tem como objetivo a obtenção de favores e a defesa contra outros Karuãna desejosos de lhes fazer maldades.
Pensamento e Memória Poucas árvores tiveram tamanho destaque e importância para o Divino como Yggdrasil, a árvore que ligava vários mundos segundo os povos norte-europeus. Seus frutos curavam doenças, suas folhas revertiam a morte. As raízes, tronco e galhos sustentavam reinos divinos dos vikings.
E não foi à toa que Loki, para derrotar Odin e os Aesir, entre outras coisas, tratou de derrubar este maravilhoso ecossistema, que acabou consumido pelas chamas do Ragnarok, assim como o resto do universo. Mas das cinzas do velho mundo e das raízes desta grande árvore a vida renasce.
Símbolos
Quem nunca se extasiou ao passar pelas ruas da cidade, com o chão forrado de flores amarelas que não estavam ali a poucos dias? É assim em frente de casa, por exemplo. Muitos perceberam que falo do ipê, que já foi a árvore-símbolo do país.
Não raro pensamos que estão mortas, pois sua aparência ressequida e geralmente sem folhas induzem a tal julgamento. Mas em uma explosão de cor, enfeitam a bem-aventurada calçada que as recebe. Oriunda do cerrado, além de resistente ela se adéqua facilmente ao ritmo da cidade, pois suas raízes não quebram calçadas. Além de lindas, as cascas segundo a sabedoria do povo, possuem propriedades curativas.
Não se pode deixar de falar, logicamente, da árvore que nos empresta seu nome, o pau-brasil. No Bosque Maia, na nossa cidade, existe um exemplar desta espécie que, durante décadas, ajudou a criar riquezas devido a sua madeira resistente e a brasileína, um tipo de pigmentação.
Há uma controvérsia envolvendo estas duas grandes árvores nacionais e sobre qual delas deve ser o símbolo nacional definitivo. Confesso que neste pódio, ambas dividem o primeiro lugar!!!
Não só nosso país possui nome de árvores. Bairros paulistanos como Cambuci e Pinheiros também possuem esta honra e lutam para que mais destas árvores vivam entre a população.
E você?
Quantas árvores existem na sua rua? Sabia que elas ajudam a refrescar o ambiente graças a evaporação realizada pelas folhas no verão, e a umidificar o ar no inverno? Que a secretaria do Meio-Ambientede sua cidade possui mudas e cursos gratuitos na área?
Vamos fazer parte desta teia?
Ah, segue um vídeo muito bom, som de infância, com Liu e Léu, chamado O Ipê e o Prisioneiro. Se tiver preconceito contra o som da terra, vença-o e assista!
Vivemos em um ambiente controlado que chamamos de civilização. Este meio se sustenta graças a diversos artificialismos, dando-nos condições de segurança e bem-estar e através disso podemos ter uma relação pacífica entre nossos pares. Olhe a sua volta. Você não deveria ter água, mas tem. O sol provavelmente já se pôs, ou escondeu-se atrás de algum obstáculo, porém num clique você tem sua estrela particular.
Esta realidade de concreto, aço e vidro permite que vivamos separados o suficiente para não matarmos uns aos outros como leões presos em uma jaula pequena. Nossa cela atual tem nuances de labirinto, onde os sentidos são iludidos. Quando cai o pano não raro viramos feras, ou ovelhas. Mas quando falta energia em sua casa e a tevê se desliga, ou quando o semáforo pisca no amarelo naquele cruzamento e é preciso decidir se damos passagem ou forçamos a nossa, como é sua interação? Como você se relaciona com o outro em uma situação de conflito?
Quando o controle, o verniz social é retirado o que sobra de você? É capaz de manter os laços humanos ou eles se rompem na primeira tensão?
A terra e o mundo
Nosso relacionamento moderno muitas vezes usa interfaces, como blogues e sites de relacionamentos. Na vida real, no contato direto,usamos outra forma de manter nosso conforto e sobrevivência: política.
Política não é aquela coisa feia e sem paixão que muita gente faz nas urnas, ou poucas gentes fazem nos palácios de governo. Política é a relação entre você e o outro. Com este outro podemos nos relacionar como senhor e escravo, ou como iguais. Depende da situação e das armas escolhidas.
Há uma dicotomia entre nós e o natural que insistimos em manter, que é possível identificar como o mundo e a terra. Olhe ao seu redor e veja que há muito não estamos imersos no natural. Cobrimos porções de terra com o nosso mundo, usando o asfalto e concreto como fronteira, como isolante.
Sem esta barreira certamente passaríamos por uns apuros, pois nos sujeitaríamos a viver imersos na condição natural. Mas ao mesmo tempo alteramos tanto o horizonte da cidade que as neblinas que apareciam durante o inverno se foram, deixando o ar seco e as crianças propensas a todo tipo de problemas respiratórios. Os mananciais que abastecem a nossa e outras cidades estão sob ataque. A qualidade de vida se deteriora.
Nossa relação com as pessoas têm se deteriorado a olhos vistos. E imagine: se uma pessoa não liga para a sorte de outra, prestará atenção aquilo que acontece ao seu bairro, cidade, nação ou planeta?
Resta questionar
*Até onde deve ir o desenvolvimento em nossa cidade?
*Como medir isto?
*Como ter uma relação sustentável com a terra sob o asfalto?
*Como reconhecer e reverter situações de calamidade ambiental?
*Que administrador público terá peito de propor e executar estas mudanças?
Nem tudo é doce e claro sob o manto da Deusa, ou colhemos sempre bençãos. Às vezes somos tomados pela consciência de que dividimos o mundo com outras criaturas vivas, e que elas possuem um ritmo próprio. É um processo que envolve dor e perda.
A Ceifadora
No começo do dia os campos estão verdejantes, frutos e talos cheios de seiva brilhando ao sol. E de repente tudo é ameaçado pela praga. São súditos das divindades que chamamos de escuras, ceifadoras. São as que aparecem para receber o quinhão que a vida sempre cobra, mas cuja parte do contrato nós nem sempre lembramos que existe.
É curioso que muitas vezes nossas as mãos que arrancam do solo a mandioca para nosso sustento. Que nós somos para os outros os enviados da Ceifadora.
Fim do caminho
Tudo é cíclico, mas isto é um conceito, é razão. Os caminhos do coração são mais tortuosos e a incompreensão e impotência nos tomam quando achamos que fazemos tudo certo e o destino tem seus próprios planos. É preciso então encontrar nosso centro deste carrossel e de lá observar de outra maneira os acontecimentos e melhor avaliar o que fazer.
Sun Tzu, estrategista militar, conta que ficar parado também é um movimento, desde que se saiba o que se está fazendo. Nós lutamos contra a praga com todas as nossas forças, e elas surgem em mais e mais. Chega uma hora que é preciso reconhecer e jogar a toalha. Deixar que as lágrimas finalmente se vertam pela face queimada do sol enquanto os frutos do trabalho de tempos se vão.
Enquanto o mundo trabalha, nós guardamos forças para o recomeço. E é isto que se faz quando as forças são gigantescas em dado momento: você espera em lugar seguro para que elas se esgotem, pois tudo é cíclico.
E então, no momento oportuno, com energias renovadas, as ferramentas certas e um plano eficaz, retornamos à cena, belos e brilhantes.
Até lá, abracemos e fortaleçamos uns aos outros para melhor enfrentar o frio, medo e a fome.