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sexta-feira, 8 de abril de 2011

GOSTO AMARGO

Olá a tod@s.

Não pensava que sentiria o mesmo gosto na boca novamente, mas o fato é que a vida é cíclica, não? As coisas sempre voltam e voltam. Falo sobre a manhã desta quinta, 7, onde um homem entrou numa escola para matar crianças e jovens aparentemente a esmo. A última vez que senti tal gosto foi em 11 de setembro de 2001. Talvez muitos dos que estão a ler lembrem de onde estavam e o que faziam exatamente naquele dia. Como no dia do massacre do Realengo, era uma manhã clara de sol aqui em casa e eu me preparava para trabalhar. Minha esposa liga a tevê e descobre a tragédia.

A primeira coisa que pensei quando vi as reportagens é que tal ato vil fora cometido por amor a uma das alunas. Tem-se matado muito por amor nesses dias aí, haja visto um caso local que ganhou as manchetes do Brasil, o caso Mércia. Como todos que tomaram conhecimento do massacre do Realengo, esperávamos por respostas. Mas até então fomos trabalhar, o Brasil e eu, sem qualquer explicação e com este gosto ruim na boca.


A carta

Faz poucos minutos que li o conteúdo da suposta carta onde o assassino explicaria suas motivações para atirar em crianças e não vi nenhuma. Apesar de falarem que seus alvos eram aleatórios, disparar contra um número quase absoluto de meninas revela para mim um traço de misoginia (explicação AQUI).Ou a proporção de meninos na escola é minúscula. Eis um trecho:

“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão". Leia o conteúdo completo AQUI.

Incrível como as pessoas classificam o sexo como algo mais impuro que o assassinato de crianças ou de adultos.Que mente teria sido esta?

A suposta carta não esclarece nada. Ficaram mais perguntas que respostas. O blog Arauto da Consciência dá nome aos bois: crime de ódio misógino (veja AQUI). De fato, tudo indica que é.


E agora?

Agora é o vazio para quem fica, porque quem se vai já resolveu esta questão. Para quem fica resta viver dia a dia com a pergunta que não tem resposta: porque nós? Não se sabe. A figura humana tenta achar respostas mas o fato que muito do que nos acontece não tem explicação.

Ouvi nas reportagens muito "Graças a Deus meu filho se salvou", como se o Divino escolhesse quem vive e quem morre imerso numa poça de sangue. Mas a escolha é sempre nossa. Espero que todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o massacre do Realengo façam mais que vestir branco e pedir paz em passeata. A paz agora é inútil. Já vivemos em paz por muito tempo.

Uma paz falsa, uma paz armada, uma paz de ranger os dentes, uma paz que olha para trás a cada cinco segundos para nos certificar que não somos seguidos. Desta paz estou saturado.

Agora é tempo de turbulência. Tempo de agitação. Tempo de descobrir como as pessoas conseguem armas. Tempo de sacudir o mundo destes negociadores da morte e dizer-lhes: a guerra chegou à sua porta. Também temos que levar a guerra à porta dos que votam em tiriricas e bolsonaros. Dos que falam "isso não é meu problema" ou "cada um no seu quadrado". Seremos pentelhos. Seremos inconvenientes. Seremos chatos. Muito pai choroso hoje olhava a violência pela tela da tevê assim como um boi olha o mundo pela cerca antes de seu filho tombar morto. Se vive no mundo é seu problema. Sempre é. Porque a morte sempre chega e leva.

Levaremos a guerra à porta destas pessoas e tiraremos a paz deles, também. Pois esta paz bovina, esta paz de abatedouro que leva um por por um, um dia pega a gente.

"Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára", já dizia o Poeta.

Fiquem em guerra.

9 comentários:

  1. Maat pesará o coração de todos nós um dia e sua Justiça não faltará.

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  2. Não sei se é possível combater a violência e o ódio com mais violência e ódio...pq não se pode esvaziar um copo pondo mais água....só tirando.

    A questão do bullying, da auto estima, da espiritualidade verdadeira, de como viver uma vida integra nesse mundo são coisas que não estão tendo a devida atenção (nem nunca tiveram....)-(não recentemente).

    Eu vejo pessoas matando pessoas por motivos banais na tv...pq levou um fora...pq era esnobado...por 10 centavos, batida de carro, futebol (!!!), fim de relacionamento, falta de dinheiro e até por dar encontrão.

    Falta sim uma conciência do que é Ser sem precisar tirar isso dos outros. Falta compreensão dos ciclos da vida.

    Só podemos agir pra mudar, mudando nós mesmos e nos tornando exemplos. Onde vc puder plantar as sementes será o bastante. Devemos esperar que nossos esforços sejam abençoados e prosperem.

    Abençoado seja pelas asas de Morrigan

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  3. Olá Luciana

    De fato faltam palavras para os pais, mães e avôs, avós, irmãos e amigos que perderam seus queridos tão cedo.

    Minha perdeu perdeu um filho, um homem de quarenta anos, e ela ainda chora todos os dias por ele. Não há palavras para consola-la.

    Não há palavras.

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  4. Olá Nion

    Que Assim Seja e se Faça, seja contra este homem, seja contra aqueles que fazem da morte de mulheres e crianças um meio de vida.

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  5. Olá ([säm])

    De fato, ódio com ódio só enche o copo. Mas pensemos no ódio como energia motivadora. Temos neste momento centenas de pessoas cheias de energia não-direcionada.

    Em poucos dias esta energia se estagna e vira frustração, ou cinismo. Quero dar um canal de vazão para toda essa energia para que ela não apodreça corações e mentes.

    Se é ódio que se tem, que seja. Que o ódio à violência motive as pessoas a ligarem para o Disque Denúncia [http://www.disquedenuncia.org.br/] e denunciem o vizinho pedófilo, o marido que espanca a mulher, o traficante da esquina.

    Porque há quem diga que devemos trancar mais a escola, a casa, a vida. Mas não somos nós os criminosos. Ao nos trancarmos no privado fazemos do público terra de ninguém, o paraíso do crime. É quando a praça vira boca de fumo.

    Consciência do que é certo todos temos. Por certo o atirador a tinha. Mas no mundo real o que importa é o ato. Ele agiu, fez o movimento neste intrincado jogo do xadrez. Qual será o meu movimento, o seu, o das famílias? O tempo não pára!

    As pessoas costumam agir pela consciência ou pela emoção. Em geral pela emoção. A violência permeia o dia-a-dia, mas em doses homeopáticas, um aqui, dois ali. "Que absurdo", alguém murmura enquanto espera pelo BBB ou pelo SuperPop.

    Mas 11 crianças despertam a maioria do torpor bovino. Veja o seu ou o meu blogroll: está cheio de idéias que poucos visitam. Geralmente quem nos visita já possui alguma visão de mundo.

    Aproveito que os olhos da nação estão abertos e, segundo o comprimento dos meus braços e pernas, convoco as pessoas à reflexão e ação. Cem milhões de ações individuais contra um inimigo comum há de dar algum resultado.

    Nosso país adentra o período invernal, tempo do senhor do Desgoverno, que subverte o "ordem" estabelecida. É tempo de rever as leis que nos regem, como a Lei do Desarmamento. Questionar o ódio às mulheres encontrado em diversos cultos. Questionar o que é ser cidadão e ser humano. Questionar tudo, para ver se as respostas continuam válidas.

    Obrigado por questionar. Questione sempre!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Olá, vim comunicar que presentei o seu blog com o Selo Iluminador, espero que não se incomode:

    http://sombradofreixo.blogspot.com/2011/04/selo-iluminador.html

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