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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

DO ENTUSIASMO



Já se deliciaram com a etimologia da palavra entusiasmo? Em grego, é algo como ter um Deus dentro da gente. Isso não é interessante? Não raro buscamos o poder de fazer as coisas fora de nós. Buscamos fora de nós a resposta de todos os nossos problemas.


Entusiasmo (do grego en + theos, literalmente 'em Deus') originalmente significava inspiração ou possessão por uma entidade divina ou pela presença de Deus. Atualmente, pode ser entendido como um estado de grande euforia e alegria, refletindo em uma consequente coragem. Uma pessoa estusiasmada está disposta a enfrentar dificuldades e desafios, não se deixando abater e transmitindo confiança aos demais ao seu redor. O entusiasmo pode portanto ser considerado como um estado de espírito otimista. Fonte Wikipedia

Mas a gente presta atenção demais nas coisas erradas. Dizemos por aí uma mentira: que a humanidade é essencialmente má. Isto é uma bobagem. E por conta disso perdemos o Deus Dentro de Nós, essa força incrível que vive guardada. E achamos que tudo é "assim mesmo", que o eco de nossas palavras não repercutem em nada. Então não nos animamos, não recebemos o Sopro Divino que nos faz realizar coisas extraordinárias. E, ironia das ironias! É justamente nessa hora que passamos a nos ouvir, quando não temos mais ninguém a quem recorrer. Nesta hora encontramos o Divino em nós.

Não consigo lembrar de melhor analogia para o entusiasmo que Psiquê.


Psiquê

Psiquê amava Eros mas não podia vê-lo sob a pena de coisas terríveis acontecerem. Mas contrariando a ordem e induzida pelas irmãs ciumentas ela o espia e não gosta do que vê e perde seu grande amor. Como penitência, precisa realizar diversos trabalhos inclusive o de descer ao mundo dos Mortos.

A Alma é assim: inocente até tomar noção da realidade que a cerca e então aquilo que ela tinha de mais puro se esvai como areia entre os dedos entreabertos. Como Psiquê, algo em nós precisa morrer quando percebemos o mundo como ele é.

Na nossa vida social, apesar das melhores intenções, somos expostos as mesquinharias de alguns indivíduos (as irmãs?) que nos conduzem ao abismo por conta de nossa própria curiosidade ou inexperiência. Devemos fazer disso uma oportunidade, porém, pois lamentar já não adianta.

Está na Carga da Deusa:

Mantenhais puro vosso mais elevado ideal;
empenhai-vos sempre na sua direção;
não deixais nada parar-vos ou desviar-vos.
Pois minha é a porta secreta que se abre sobre a Terra da Juventude e minha é a taça do vinho da vida e o Caldeirão de Cerridwen, que é o Graal Sagrado da imortalidade.

Levanta e Luta

Mantenha viva a Divindade dentro de si. Gostaria de dizer-lhe que será fácil, que as pessoas fazem sempre boas ações e que terá uma existência tranquila. Mas seria mentira. Porém posso lhe garantir que somente o início é pesado devido a própria inexperiência. Após algum tempo e tropeços aprendemos a andar na escuridão até voltarmos novamente aos dias claros.

E nem podemos nos abster de viver, de nos arriscar, de sentir o mundo que se abre a cada dia.

A medida que os esforços são reconhecidos, ganhamos mais e mais vivência e sejamos sinceros, a Deusa dividirá a nossa carga com Ela. Seja uma pessoa simples e siga leve. Descanse enquanto trabalham e trabalhe enquanto descansam. Seja objetivo e franco.




Como as borboletas.




Sergio Thot.

terça-feira, 14 de julho de 2009

DA ALMA





"(...)Andou por vários dias até alcançar uma gruta, no interior da qual descortinou-se uma fenda que conduzia ao reino de Plutão. Munida somente de sua coragem, Psiquê penetrou nos escuros labirintos da morada dos mortos."

Cupido e Psiquê, retirado da obra As 100 melhores Histórias da Mitologia, de Franchini e Seganfredo

Alma, ou psy·khé em grego, é uma palavra de infinitas significações. Uma delas nos sussurra que é graças a alma, por exemplo, que ficamos agitados, vivos... ou animados!

Quando temos alma, estamos vivos no pleno sentido da palavra, absorvendo e exalando ar, segundo após segundo. A respiração que sempre foi um dos indicadores que nós não passamos para o Outro Lado. Segundo o mito dos povos do Oriente Médio, a vida nos foi dada pelo sopro.

A simbologia que mais gosto é a da borboleta. Creio que existem poucos seres que retratam a metamorfose de maneira tão bela e clara. Primeiramente vemos um ser disforme, às vezes venenoso, cuja a vida é comer e defecar. O tempo passa e ele fica maior e mais voraz, mas nos acostumamos a tê-lo ali. É parte da paisagem.

Certo dia nos damos conta de que ele não só parou de comer como também não se movimenta mais. E que em torno de seu corpo uma fina camada de seda se forma. Se fora fácil esquecer de um ser que se movimentava e comia tudo em seu caminho, imagina então agora que ele sumiu, submergia em si mesmo? Passada uma leve curiosidade inicial, deixamos aquele casulo de lado e tocamos a vida.

Ah, mas é tudo ilusão. Se formos bons observadores veremos, em um dia quente e bonito de sol, que aquela coisinha de seda que estava no canto da janela se mexeu. E mais: Há algo que lá dentro luta para estirar suas asas à luz da manhã. E então elas saem de seus casulos aos milhares, seja para um passeio em seu quintal ou para atravessar um continente. E tudo para achar outras almas, assim como fez Psiquê.

Gosto de pensar que, periodicamente, somos esses seres, que nascem e renascem de tempos em tempos. Seres que romperam com atos inúteis, ciclos viciosos, pensamentos nocivos e acorrentadores, e se cederam ao novo e ao belo, finalmente. Para o mundo elas são jovens, recém-nascidas do casulo. Mas só a Deusa sabe o quanto elas caminharam dentro de si para ganhar asas!

E só a partir disso, quando finalmente emergem plenos em sua vitalidade e leves, é que vão em busca do Amor.

Pensem nisso.


sexta-feira, 26 de junho de 2009

DA LUZ




Da parte grossa do ovo quebrado,
Ergeu-se o excelso arco do céu, E então da gema, a parte de cima, O brilho ardente do Sol tornou-se.(...) Kalevala: A Terra dos Heróis - Tradução de W.F. Kirby.



Desde a primeira ferramenta criada pelo homem, a soma de conhecimento chamada de tecnologia facilitou-nos a vida. Quando queremos que um ambiente se ilumine, basta tocar em um interruptor. Se falta energia, temos hoje o recurso de acender um fósforo ou isqueiro e queimar parafina industrializada.

Imagina a vida de quem vivia somente com a luz das estrelas e da Lua enquanto o sol rumava para outras terras? Tal como a água, para nós é fácil ter o que precisamos. Basta um clique e está tudo a mão. No entanto, quando em outros tempos e outras terras, quando éramos camponeses, os perigos reais e irreais se escondiam no farfalhar das folhas na floresta, na boca dos lobos-guarás e das corujas.

Faltou luz em casa devido as chuvas de Inverno. Mas velas são abundantes aqui e não ficamos totalmente às escuras. E confesso que foi até interessante jantar sob seu brilho tênue. O andar pela casa à noite foi uma experiência interessante. É um espaço conhecido mas as novas sombras mudaram as perspectivas de espaços e objetos. O fato me trouxe lembranças de uma caminhada às escuras na Mata Atlântica, tempos atrás.

Acampando com amigos durante um feriado prolongado, e retornando a minha barraca após um passeio solitário no fim da tarde, senti o medo ancestral. Acostumado com as facilidades urbanas, com os postes com luzes e faróis dos carros velozes, a escuridão me engoliu em cheio. A trilha era conhecida durante o dia, mas a noite a Lua prega peças.

Onde eu pensava ver buracos eram montes. E aonde eu buscava firmeza da terra eu tropeçava. O vento brincava ao meu redor e tinha a nítida impressão que me seguiam dentro da mata, de ambos os lados do caminho. Eu parava para escutar e firmar a visão, mas só via o prateado das folhas próximas.

É lógico que o coração baterá forte e a garganta apertará nestas horas. Com as lanternas e fogueiras a cinco minutos de caminhada ainda, tudo era estranho e hostil. Tão pouco tempo em uma calçada iluminada é besteira, mas ali foi uma eternidade. Não é à toa que a Iniciação em vários círculos mágicos envolvem a restrição de sentidos como a visão.

Nossa Psiquê fica totalmente vulnerável e aberta a qualquer experiência que ocorra a nossa volta. Se há algo de racional em nós, diante do desconhecido, esse algo é o primeiro a correr!!! É o mergulho da Deusa nos domínios de Perséfone.

De volta a segurança do fogo e tomando minha sopa, debaixo do cobertor, achei tudo engraçado, logicamente. Ri por dentro e e esqueci o assunto em meio a outras conversas. O tempo passa. E a experiência somente renasceu com a falta da luz em casa e a busca das velas e fósforos, diante do medo ancestral da Escuridão.

Distraídos pelas luzes da cidade e pela fogueira moderna em forma de televisão, não temos tempo suficiente para confrontar-nos conosco e nossos medos. De certo modo vivemos como as mariposas que se batem nas lâmpadas.

Até que a Realidade vem e apaga a luz.


Para você, caro leitor, um som da MPB que simboliza o casamento da luz do Sol com as profundezas da Terra...



Sergio Thot

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

BORBOLETAS E MACHADOS


Há uma linha de raciocínio interessante ligando um inseto ao Sagrada Feminino na Ilha de Creta, exposto no livro "O Corpo da Deusa" de Rachel Pollack (Ed. Rosa dos Tempos). Mas antes de tratarmos deste assunto, necessita-se pousar o olhar sobre o conceito do símbolo e do objeto para continuarmos.


Um dos prováveis abismos que separa o homo sapiens das outras espécies é sua capacidade abstrativa, de imaginar algo que ainda não existe. Esta qualidade nos capacita a prever situações perigosas ou vantajosas à 300.000 anos, e nos oferece subsídios para criar em nossa mente e depois no mundo material, toda a sorte de coisas, de residências a ferramentas, pontes, carros, aviões, naves espaciais.


E também arte.


E o que é arte?


Entendo como Arte toda a obra humana que vai além do princípio utilitarista, do mero servir para um propósito concreto, e que nos dá um conjunto de sensações diferentes daquilo que o uso do objeto propunha inicialmente.


Veja AQUI outras definições do que é a arte.



A arte no Neolítico

No período que os historiadores chamam de neolítico, o sapiens viveu o auge da explosão criativa humana, notadamente na Europa e Oriente Próximo. Ora, arte não tem definição precisa, mas é algo que faço em meu tempo livre (isso quando não possui função devocional ou laboral), onde reproduzo no físico algo que só a mente abstrata consegue abarcar.

É comum pensarmos nestas pessoas como seres rudes e incultos, mas locais como Lascaux, na França, provam que a arte não só lhe era familiar como também necessária. Nas cavernas francesas encontramos representações de animais de até quatro metros de altura! Para realizar tais obras, comparáveis ao meu ver as obras da Capela Sistina de Michelangelo, estas pessoas tinham que construir andaimes, dominar técnicas de pintura e ter senso estético apurado. Tinha que dispor de tempo e energia para buscar materiais, escolher o tema e a melhor superfície para pinta-la, e fazer o trabalho. 

E a construção do símbolo é um componente principal da criação artística.


O Machado Duplo

E então entramos no tema principal do texto, que é a criação artística dos machados duplos cretenses. Podemos pensar neles como meros instrumentos de corte para trabalho ou mesmo em um eficaz instrumento de guerra dos tempos anteriores ao uso da pólvora, mas seu aspecto simbólico neste caso soa mais forte.


Onde hoje é a ilha de Creta fora o berço de uma grande civilização ocidental. Antes da invasão e/ou absorção pelos povos indo-europeus caçadores, supõe-se que viviam na região um povo adorador do Sagrada Feminino. Registros arqueológicos apontam que o local vivia em relativa prosperidade e era, de modo geral, pacífica devido a ausência de construções de defesa.

Comerciantes, mantinham contato com povos próximos no próprio Peloponeso e na Sicília. Sua cultura cai com a ocupação dos aqueus e a posterior invasão e/ou absorção dórica. Sua principal cidade fora Knossos.

Em diversos pontos da ilha encontraram-se machados duplos, mas ao contrário do senso comum, não há evidências mostrando que fossem armas de guerra. Aparentemente eram objetos dedicados a Deusas locais. Chamavam-se labrys. Ora, a palavra labrys, segundo a autora Rachel Pollack está relacionado a 'labia' ou lábios da vulva.

Nestes machados duplos, variáveis em tamanho, encontramos gravados imagens de borboletas que também se assemelham aos genitais femininos.

As Borboletas

Curiosamente a raiz grega para a palavra borboleta remete a palavra 'alma', ou psyche. Psiquê, para os gregos, foi uma Deusa que rumou ao submundo (inferno, inconsciente), local presidido por Hades e principalmente Perséfone. Esta Deusa (segundo Pollack, 'aquela que luta na escuridão') fora raptada por Hades com a permissão de Zeus, mas encontrou na situação seu próprio poder.

E não emergem as borboletas da morte quando saem de suas crisálidas?


Conexões

Deméter, senhora das plantas selvagens e mãe de Perséfone, só tomou conhecimento do rapto (ninguém tinha coragem de contar-lhe temendo a ira de Zeus) por intermédio de Hecate, senhora da Lua.

Observem a sutil conexão entre todos estas grandiosas Deusas! Não busquem entender, mas sentir. Leiam as histórias, procurem imaginar seus papéis segundo as mulheres modernas e suas lutas diárias. Aprendam com elas sobre seus mistérios e símbolos. E aqui retornamos ao princípio, como na espiral.

O símbolo é altamente plástico, como vimos. É preciso vivê-lo para compreende-lo. Apenas lhe apresentei as peças do quebra-cabeças cuja a imagem muda conforme o observador, a cultura e o tempo.

À propósito hoje, por exemplo, o
labrys é um símbolo feminista. E o athame deixou de ser um mero punhal e é parte integrante de muitos rituais pagãos.

Maravilhoso, não?

Perguntem sempre, pesquisem mais, vivam a Religião!

Saúde, amizade, liberdade.


Sergio Thot (siga-me no Facebook!)