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terça-feira, 20 de setembro de 2011

ET IN ARCADIA EGO

Olá como vão tod@s?


Os Pastores de Arcádia, de Nicolas Poussin
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Revi a postagem sobre a exposição Deuses e Madonas [leia AQUI], e com saudades lembrei do passeio no MASP onde me deparei com Nicolas Poussin e sua obra “Himeneu Travestido Assistindo uma Dança em Honra a Príapo”, castrada pelos católicos espanhóis, por temerem a grande ereção do Deus pagão Príapo (filho de Dinísio e Afrodite) ali representada. A exposição do museu também era uma forma de comemorar a restauração feita por uma equipe excelente de brasileiros e franceses. Movido pela curiosidade, dei uma olhada em outras obras do artista pela internet. Uma delas me chamou a atenção: Os Pastores de Arcádia representada ao lado.


A pequena construção que é por eles rodeada no retrato é a lápide de um túmulo. Aquele que está abaixado está a ler uma inscrição feita para lembrar seu ocupante: Et in Arcadia Ego. A frase em latim nos diz em uma tradução livre: eu estive na Arcádia, que é o nome da região que hoje conhecemos como Grécia. Percebe-se como os gregos e sua cultura influenciaram o pensamento artístico e filosófico de Poussin e seus contemporâneos. Segundo fontes pesquisadas, o túmulo realmente existiu e localizava-se em Rennes-le-Châteaut, na França.


Taí uma frase que também gostaria de ter em meu túmulo. Também desejo conhecer o berço das antigas civilizações grega, egípcia, romana, babilônica, indiana, chinesa, japonesa, maia, asteca... tantos lugares, tantas culturas. Quero sentir como o velho e o novo se misturam, como os povos administram este tesouro que é o saber humano antes que nossa estupidez desfaça obras importantes, como os Grandes Budas do Paquistão, explodido pelos talibãs [ver AQUI]. Mas por hora tenho me contentado em conhecer as capitais dos estados deste país de proporções continentais.


Alexandre, o Grande
O ato de viajar nos abre o espírito para o novo e nos faz repensar uma série de coisas sobre nós e sobre o mundo. É impossível não retornar e comparar a cidade onde se vive com o lugar visitado. Para os espíritos visionários tudo o que era belo e funcional que foi aprendido nas viagens é aplicado no lugar onde se mora. E o inverso também é verdadeiro. Alexandre da Macedônia, quando levou a cultura helênica rumo ao leste tal e qual Dionísio, também foi modificado pelos povos por onde passou. Mas lhes garanto que minha comitiva e intenções ao visitar estes lugares seriam mais modestas, rs!


E vocês, para onde irão por este país imenso que apenas começamos a conhecer? Meu desejo é neste Ostara você plante as sementes de todos os seus desejos e que estas germinem e frutifiquem!


Saúde, amizade, liberdade.




Sergio Thot


sexta-feira, 4 de março de 2011

É SATURNÁLIA

O Carnaval regido pelo calendário cristão é um arremedo das festividades pagãs do mundo Antigo. Quem quiser saber da história leia AQUI. Incrível imaginar que a mesma festa romana deu origem ao rei Momo e ao Papai Noel!

Segundo a tradição, era escolhido um rei para as festividades, o senhor da bebida, do prazer que era ao final, sacrificado. Lógico, não há almoço grátis, né? O tema do sacrifício do rei para que o poder retorne ao povo é recorrente no mundo agrário. Hoje apenas destronamos nosso Momo, um ato substituto menos violento, e ele não se candidata mais.

Temos que ensinar esta técnica aos nossos governantes, como Sarney, Collor, Itamar e companhia, que não largam o osso do poder e acabam sacrificando a gente!

A história do carnaval em Portugal e no Brasil é muito interessante. Visite o site UOL Educação para saber, por exemplo, porque as escolas de samba têm esse nome AQUI.


Virgem de Carnaval

Saibam vocês que nunca saí em um bloco carnavalesco, nunca fui em um baile ou assisti a desfiles. O fato de eu gostar de rock contribui para evitar a festa, apesar de não existir, em tese, nada que possa me separar dos foliões. Quase ensaiei uma ida ao desfile da minha cidade. Afinal, temos que ter algumas experiências antes de passarmos para o Amenti, onde nada é garantido.

Mas é temos hoje o carnaval de Apolo, de avenidas artificiais e retas, com a elite nos camarotes globais, carnaval cronometrado onde tem sempre um carro quebrado ou pneu furado.

Talvez eu queira o carnaval descrito pela saudosa Elis Regina no vídeo abaixo. Um carnaval de pierrô e colombina, de confete e serpentina. Ou uma festa de sacerdotisas bacantes a gritar pelas ruas tortuosas, bêbadas de Deus.

Enfim, tenho saudades do que não vivi, rs!

Feliz Saturnália a tod@s


S. Thot

terça-feira, 8 de junho de 2010

SILENO É A PONTE



"Deixe que falem, hic! o que quiserem! dizia Sileno, erguendo-se do chão, amparado pelo jovem pupilo. - Sileno sabe mais, hic, que todos os sabichões da Terra."


As 100 Melhores Histórias da Mitologia, por A. S. Franchini e Carmen Seganfredo


O Sileno supracitado é tutor do jovem Dionísio, que vivia escondido da vingança de Hera. Filho da relação do marido dela (Zeus) com Sêmele, Dionísio tinha uma existência despreocupada e feliz entre ninfas e sátiros pelos bosques. Este jovem Deus não sabia que viria a ser a divindade da embriaguez espiritual conduzida pelo vinho. [Leia + AQUI].

Apesar da cultura vinícola já existir, foi somente com o Dionísio (Baco, para os romanos) que ela realmente tomou força, pois foi somente com ele que seu conhecimento saiu dos bosques e se espalhou por outras partes quando nosso Deus sai louco pelo mundo afora e é curado por Cibele. Sua peregrinação, dizem os Antigos, o levou até a Índia.

E é aqui que peço agora a sua atenção. Preciso afirmar que tudo o que pára, congela, morre se estagna! De que o conhecimento não é muito útil se está restrito a um lugar. Conhecimento é como o vento, tem que ser dinâmico, invadir todos os lugares, penetrar em todos os espaços para se fazer valer. Que valor tem um livro fechado na estante? Somos todos pontes para o Conhecimento Universal quando o transmitimos para outros. O que sabemos não é nosso para ser guardado. 

Sileno ensinou a Dionísio os Mistérios do vinho, e foi o Deus que pôs a roda para girar, por assim dizer. Se você deseja ter seu valor reconhecido, ganhe o mundo e ponha ele para girar sob seus pés. Dissemine aquilo que conhece e faz de melhor! Ou seja a ponte que une a Fonte Universal ao herói da vez, como fez Sileno. Não importa. Não importa se você é Sileno ou Dionísio.

Coloque seu conhecimento para girar.

Saúde, amizade, liberdade.



Sergio Thot.




Post Scriptum


Leia outros pensamentos meus sobre Dionísio em:


Do Macho-Alfa


Das Divindades Aristocráticas


Se quiserem conhecer um texto interessante sobre Dionísio / Baco, sugiro também visitar o blog amigo Ars Veneficia, que trata do tema greco-romano com mais profundidade. Segue um trecho do texto que fala de Baco Crucifixado:


"Embora o símbolo da cruz e o mito de um deus sacrificado também seja amplamente encontrado nas antigas culturas pré-cristãs, a imagem em especial de um deus crucificado parecia até então ser exclusivo do Cristianismo".

sábado, 25 de outubro de 2008

DIONÍSIO







É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,

perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,

hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!

De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.

Charles Baudelaire


Dionísio, filho de Sêmele e Zeus, é um dos Deuses preferidos dos pastores e agricultores. Os relatos gregos afirmam que, quando Hera descobriu de quem Ele descendia, enciumou-se e resolveu fazê-lo louco e vagar pelo mundo.

Curioso como são as coisas, não? O que deveria ser um castigo tornou-se sua marca.




Deus Libertador

Os Deuses olímpicos exigiam de seus cultuadores alguma forma de sacrifício, e com Dionísio não é diferente. Mas nossa devoção para com ele se dá através do maior sacro ofício de todos, que é a busca de nossa própria libertação.

O seu valor como divindade agrícola nasce quando ele ensina o cultivo das parreiras e o processamento do vinho, após ser curado pela Deusa Cibele. O vinho não é o fim em si mesmo, mas o caminho do êxtase que nos leva a uma Verdade maior. Algo que vá além da rotina, do trabalho, maternidade, estudo.

Um Deus que liber
ta as mulheres dos sutiãs, activias, OB's... Que permite que o sangue volte ao solo novamente e que o fertilize. Do vinho que reduz a razão, e que permitem ideias loucas e inspiradas brotando da aridez que é nosso dia-a-dia. Uma Verdade que nos retira daquilo que fazemos cotidianamente e nos leva àquilo que somos.

Para os campesinos, que sempre viveram submetidos ao domínio das cidades e seus Deuses de ordens e de linhas retas,
ter um Deus que morre e renasce, que é vítima de injustiças e abusos mas ainda sim mantém-se íntegro, é uma promessa.

Uma promessa de renovação, de esperança, de criatividade, de Vida. Uma promessa de Retorno sem chantagens ou ameaças. O Deus que é o marido secreto de Perséfone, também Esta que conheceu a dor e violência, o rapto e
morte, mas que retorna todo ano para os braços Deméter (Salve Grande Mãe!) para novamente reinarem sobre os grãos e frutos, grãos e frutos que somos nós.

 Não há um sacerdote entre seus cultuadores de Dionísio. Ou melhor, somos todos sacerdotes do Deus, todos responsáveis. Todos carregamos o cetro do Deus da terra. 

Hino Órfico a Dionísio:
 

"Eu clamo ao estrondoso e festivo Dionísio,
primordial, de duas naturezas, duas vezes nascido, senhor Báquico,
selvagem, inefável, secretivo, de chifre duplo, de duas formas.
 
Coberto de hera, com rosto de touro, bélico, uivante, puro,
tu tomas a carne crua, tu tens festivais trienais,
envolto em folhagem, protegido por cachos de uvas.

Eubouleus de muitos recursos, deus imortal gerado por Zeus
quando este se uniu a Perséfone em união inenarrável.

Escuta atentamente à minha voz, ó abençoado,
e com tuas amas vestidas de beleza
sopra em mim um espírito de perfeita gentileza."


Falando em vinho, para aumentar a cultura de meus leitores os brindo com a sabedoria de um enólogo das terras lusitanas!





Outras Leituras


Convido-os a conhecerem a Sociedade Dionísica, cuja a proposta é...


"...alcançar o estado de liberdade que nos coloca em contato com o divino. Nos inspiramos nas principais atribuições que nosso deus tinha na Grécia Antiga (vinho, orgia e teatro) para classificá-las em três grandes gêneros: a liberdade da mente (representada aqui pelo Álcool), a liberdade do corpo (simbolizada pelo Sexo) e a liberdade da alma (figurada pela Arte)."
Clique AQUI e descubra

Leia também um belo Hino Órfico para Bacchus no Mundo Pagão, clicando AQUI.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

DO MACHO-ALFA




Esses dias, indo para São Paulo, me deparei com alguns membros da torcida Independente do São Paulo Futebol Clube, um time de primeira divisão em meu país. Um dos rapazes desta torcida organizada exibia uma camiseta onde o santo São Paulo, usado como símbolo da organização, estava monstruosamente representado (repito, MONSTRUOSAMENTE). Para as torcidas de futebol nos dias de hoje é visível que demonstrar habilidades no esporte ficou em segundo plano.



Anos atrás vi a mesma representação do santo levantando sua túnica e deixando as pernas livres para melhor dominar a bola. Sua face demonstrava alegria e irreverência, em contraste com a imagem forte, musculosa, sem qualquer simbolo que o relacione ao futebol. Era gritante a desproporcionalidade não só dos músculos em relação a realidade, mas até a "idade" do personagem, que é um velhinho. Me atento ao sorriso. Não um sorriso despreocupado da imagem de anos atrás, mas uma imagem ameaçadora, sádica, violenta.

Ainda temos na mente o padrão "Rambo" sobre homem, sem atentar que uma pessoa pode ser máscula ser ter que coçar o saco, falar alto e cuspir no chão. Um Ares de espada sempre ereta, pronto para luta.


Pensamentos de conquistas não são parte de um ideal pagão. Ora, quem lida com a terra não tem tempo para guerrear: ou é o arado ou a espada. No campo de batalha só se colhem corpos mutilados. Como pagãos, qual é nossa escolha mais óbvia?



É preciso paz para plantar

Ares é diferente, por exemplo, de Dionísio. Esta divindade do vegetal, do vinho e do êxtase, pouco se preocupa com as lutas, ou em "andar na calçada". Seu culto nos leva a quebrar padrões sólidos, a rever parâmetros, e a gozar um pouco a vida, nós que trabalhamos sol a sol desde o início dos tempos.

Dionísio não é um Deus da conquista, ao menos não no modo usual do termo. Nascido de uma das famosas escapadas de Zeus e, portanto, ganhador do rancor justo de Hera, por esta foi tornado louco por vingança contra o marido pulador de cerca, e vagou desvairado pelo mundo à fora.

Sob a proteção da Deusa Cibele, é curado de sua insanidade. Depois é instruído à cultivar vinhedos e de seu fruto extrair a bebida sagrada. Atravessando a Ásia, ensina o cultivo da uva (e, porque não dizer, de outros frutos também?). As imagens que se fazem deste Deus (um velho bonachão, uma criança ou um jovem sorridente) não mostram qualquer imagem de Poder Sobre, de tentativa de dominar outras pessoas ou de prazer sádico.

O Dionísio/Baco representado pelas telas de da Vinci, falando em termos sensuais, tem até a cara daqueles que levam as mulheres ao êxtase muitas e muitas vezes, e que retira daí seu próprio prazer.


Sangue Latino

Agora um exemplo próximo de como é interessante a imagem que o feminino faz dos homens. Uma amiga minha trocou de namorado. O antigo seguia o perfil "macho latino". O novo é mais sutil, delicado. Quando saíram de balada, ela estranhou que seu novo par soubesse dançar, mexer o corpo. O antigo era mais turrão e ficava de canto, fazendo pose.
No início ela confessara que estranhou, mas depois viu que as idéias que se fazem do homem quase sempre são estereotipadas. Inteligente e sensível, seu novo companheiro destoa daquilo que sempre se indicou como provedor, defensor e líder.


Sim, podemos ser machos e ainda sim, sermos fofos, rs!


Na vida diária

Vivemos em uma nação parcialmente democrática. Parcialmente porque ela ainda é representativa, e não direta como eu gostaria. Trocando em letras miúdas, elegemos pessoas que vão escolher para nós aquilo que é prioritário para nossa cidade, estado e país. E a democracia termina aí.

No ganhar da vida, no emprego, nós não escolhemos nossos líderes, coordenadores, supervisores, diretores. Vivemos em uma hierarquia, onde ouço abertamente Manda Quem Pode e Obedece Quem Tem Juízo. São herdeiros culturais de um mundo que está se deteriorando.

Apesar de nossa civilização de 10.000 anos, dos carros elétricos, do Iphone, da Internet, ainda vivemos sob a espada do macho-alfa, que detém poderes virtuais ou mesmo reais de vida ou morte sobre nós. E com nosso consentimento!!!

Isto até a sua queda inevitável, quando muitos machos-beta, submetidos, lutam como crocodilos do Nilo em busca do topo da pirâmide social. Onde ainda há regras de ascensão e queda, as coisas são suavizadas pelas leis e estatutos. Onde o Estado ou o Mercado não têm domínio, ganha quem saca primeiro e tem mais balas no tambor, como demonstram os confrontos nas favelas cariocas.

Se assim tratamos as pessoas, imaginem como tratamos a natureza da qual extraímos nosso sustento? Não raro abuso ambiental é precedido pelo abuso humano.


Um novo tempo

O masculino que submete hoje vive um momento de crise em sua base, uma vez que um número pequeno mais crescente de mulheres já não mais aceitam o sonho romântico de casar. Essas mulheres trabalham fora, possuem mais apoio jurídico e psicológico que suas mães tiveram. Muitas disputam o topo com os homens. Muitas criam sozinhas a sua prole, seja por opção ou por ausência do parceiro (divórcio, abandono, morte).

Ao mesmo tempo surge este novo tipo humano masculino, que busca as crianças da escola, trabalha em parceria horizontal com seus colegas, lava a louça e pergunta com sinceridade em casa "como foi seu dia, amor"? E não tem vergonha disso. Dionísio atende perfeitamente a este tipo homem que não precisa empunhar uma espada para persuadir as pessoas, para lidera-las.

Isto se estenderá para outras partes da vida, seja por bem ou por mal. Nossas relações, graças a facilidade de comunicação, nunca mais serão as mesmas.

Mas se for preciso ir à guerra, que eu tenha um líder que valha a pena ser seguido!


Hmmm... talvez você queira ler também algo sobre as Pressões da Vida. É um texto interessante é que complementa este aqui.


Saúde, amizade, liberdade.


Sergio Thot.