Páginas

Mostrando postagens com marcador grupo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador grupo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ACEITANDO A BENÇÃO



Olá a tod@s. Quero abrir meu coração a vocês a respeito de algo que penso a algum tempo. É sobre as bençãos e como as pessoas as recebem e percebem.

A vida é uma caixinha de Pandora e todos os dias somos expostos as mais diversas situações, algumas boas e outras ruins. São os fatos.
As coisas ruins recebemos no peito, BAM, e a guardamos com carinho. Nããããoooo caro leitor, não é erro de escrita não. Você realmente leu isto! E vou repetir: quando recebemos algo ruim, uma palavra ou gesto, nos abraçamos a ela.

O mesmo não acontece quando recebemos coisas boas. Não nos achamos dignos delas, simplesmente. Ou tentamos achar por debaixo dos elogios ou belos gestos intenções mesquinhas, sarcasmos, ironias. Se dizemos que alguém está bonito, pensa-se "ah, então antes eu estava feio!". Ou se damos algo de valor, reduzimos a questão afirmando "que não precisava se incomodar", que "o presente é caro. Imagine, com tanta gente passando fome no mundo, blá, blá, blá whiskas sachê", quando tudo que se busca é um abraço e um "obrigado". Simplesmente.

Precisa-se estar pronto para receber a benção, saber reconhece-la como tal, abrir-se. Pois quem faz algo de bom também abre o peito, expondo o coração. Os bons precisam de reconhecimento, de feedback. Há uma corrente, uma ligação, uma corrente que une as pessoas e esta ligação pede uma via de mão dupla de sentimentos positivos. Esse outro pode ser uma pessoa ou o Divino. As coisas que fazemos exigem tempo e esforço. Não existe almoço grátis. É assim na natureza e somos parte dela.

Faz-se o bem na esperança de que nosso entorno seja um lugar mais aprazível. Não faz sentido?

Bem, nos aproximamos do Equinócio de Outono, que simboliza as bençãos que recebemos pelo nosso esforço durante todo o ano. Estas bençãos também nos alimentarão durante o período das vacas magras. Estejam prontos para agradecer. Estejam prontos para receber. Acreditem, tudo o que se planta se colhe e se merece.

Saúde, amizade, liberdade.


S. Thot

sábado, 26 de dezembro de 2009

CRIANDO A MAGIA








A disposição do círculo marca o início formal do ritual.


A Dança Cósmica das Feiticeiras, obra deStarhawk

Nas comunidades do Orkut, pelo MSN e mesmo pessoalmente as pessoas me pedem para criar para elas Feitiços & Encantos. Não raro atendo aos pedidos mas apenas quando vejo a necessidade real, como casos de doença. Ou uma vez que não só criei como realizei um feitiço para que o peso da Justiça caísse sobre um malandro que atormentava uma amiga, história que conta em outra oportunidade.

Sempre que posso explico que o Poder não vem de mim, que sou apenas um canal que ele está ao alcance de todos que o pedem. Sendo a Magia o ato de modificar a realidade segundo a minha vontade, é justamente esta vontade férrea o principal alimento. E todos os elementos que nos cercam apenas corroboram, apoiam esta visão.


A amiga Hazel do blog Casa Claridade concorda comigo neste aspecto.


A Criação do Universo

Já me perguntaram: tenho que criar um Círculo Mágico? Ele serve como proteção? Acredito que antes de ser uma barreira, o círculo é um caldeirão, um recepiente onde a Magia borbulha. Não separo a Magia da Religião, mas está imersa nela. Sendo assim dou-lhe um caráter sagrado, não algo corriqueiro, que se faz a todo momento, mas especial, profundo, de reverência.

A criação do Círculo e dos elementos em seu interior é uma dramatização no sentido mais profundo e grego da palavra. Os gregos tinham no teatro uma ponte com o Divino em diversos aspectos. Quando criamos o Círculo, chamamos os Quadrantes, o Deus e a Deusa, realizamos no microcosmo aquilo que ocorreu no macrocosmo.

E por breve momento o minúsculo e o imenso se olham e se reconhecem. Este é o momento Mágico.


Melhor Prevenir

A sabedoria popular é prudente ao futuro, pois tudo pode acontecer. Somos descendentes diretos do povo das fazendas, dos pagãos, que sofriam com o clima ora seco, ora chuvoso, hora frio demais ou quente demais. Sabiam que quanto maior o número de informações disponíveis para saber a hora de arar, semear e colher, melhor resistiriam aos períodos de crise.

Para isto os líderes espirituais de todos os tempos, que também eram conhecedores do mundo físico, tinham que conhecer os ciclos da vida para servir de intérprete entre o Desconhecido e a pessoa comum.

Conosco é semelhante. A consulta à Lua, ao Sol e às Estrelas são práticas comuns entre os magos atuais, além de cores, músicas, aromas, alimentos, gestos, roupas. Estes elementos supre (e direciona) nosso cérebro para a condição ideal.

Com quatro ou cinco bons livros e uma boa obervação do mundo ao seu redor, você tem todas as referências necessárias para realizar uma miríade de Feitiços & Encantos. Você perceberá que a base é sempre a mesma, mudando apenas alguns temperos.


Mas tem algo importante e que é o sustentáculo de qualquer ato mágico. E aqui falo de experiência, de percepção, de fé.


A Fé que Move Montanhas

As Forças começam a se movimentar mesmo antes do ritual, mesmo antes do Feitiço ser feito. Porque você QUER que assim seja. Sua vontade tem que ser soberana. Você tem que crer em si, na sua necessidade, na capacidade de realizar no físico aquilo que lança no espiritual e se responsabilizar pelos resultados obtidos. Sejam bons ou sejam ruins.

Para crer em si mesmo, aquilo que você diz tem que se realizar. Ah, deixa em escrever de novo só para enfatizar... Se você nõ tem fé em si, se você se poda, se boicota, mente para si mesmo, se cria projetos que sabe de antemão são inaplicáveis, é melhor voltar outra hora.

O que você diz tem que se realizar, entendeu?


Prudente como a Serpente

Tenha certeza do que pede e na capacidade que tem de suportar os encargos. Na Natureza não existe almoço grátis, lembra. Estamos mergulhando na Teia da Vida, e cada ação nossa desencadeia reações nas pessoas e coisas em volta.

E boa sorte.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

DIA DO ORGULHO PAGÃO

"Por ser a Deusa manifesta em todos os seres humanos, não tentamos fugir de nossa humanidade, mas buscamos ser plenamente humanos."

A Dança Cósmica das Feiticeiras, Starhawk

O Dia do Orgulho Pagão é um evento mundial cujo o início oficial data do ano de 1997 através de Cecylyna Dewr e Dagonet Dewr, através da Liga de Esclarecimento, apesar de documentos atestarem que iniciativas como estas eram realizadas desde 1992!


O objetivo do Dia é ser um marco no ano para ações que devem acontecer com alguma periodicidade em nossas vidas, como esclarecer as pessoas sobre nossa escolha religiosa sempre que for propício faze-lo, além de dedicar um pouco de nosso tempo e esforço para o benefício da comunidade. O dia é um marco, como dito, mas as ações por ele inspiradas devem perpetuar por toda a Roda do Ano. É nosso sagrado ofício, sacro ofício, sacrifício.





É tempo de com-parti-lhar

Dedicamos uma parte do que somos para algo maior do que nós, maior do que nossos desejos corriqueiros, inspirados nos atos de nosso Antepassados ou Contemporâneos.
Então pense: como posso devolver à comunidade tudo aquilo que me foi confiado nos estudos senão sacrificando meu tempo e meu esforço? Já me disseram que para se obter fartura em casa é preciso fazer um bolo com muito amor, ainda que seja simples, e reparti-lo entre seus vizinhos.

O Dia do Orgulho Pagão tem esta característica: repartir com o outro aquilo que temos de melhor. Pense nisso. 


Saúde, Amizade, Liberdade. 




S. Thot

Ps.: segue abaixo um vídeo de como fazer um bolo de fubá cremoso, ótimo para fazer e convidar os vizinhos para um cafezinho no fim da tarde.  

quarta-feira, 29 de julho de 2009

DO TEMPLO




"Em todos os lugares em que vemos o corpo da Deusa como uma forma de paisagem natural, precisamos do ponto de visão adequado."

O Corpo da Deusa, de Raquel Pollack


Sou wiccano. E como tal respeito o costume de não possuir um templo físico e fixo para a realização de meus rituais, apesar de usar os cômodos de minha casa para cultos domésticos, e o Bosque Maia, um bosque em nossa cidade,  para rituais públicos.

O fato de não possuir um templo para encontros em grupo transforma cada sabá em um evento verdadeiramente complexo e com algumas restrições. Ao usar espaço público estamos limitados às regras colocadas pelos administradores.

Mas aprecio o grau de liberdade que gozamos. Afinal, findo o ritual não temos que nos responsabilizar por um espaço que ficaria ocioso a maior parte do tempo. É só levantar acampamento e partir.

Fora que é extremamente coerente que uma religião tão ligada a terra e ao mundo natural realize seus rituais cercada por ela! Lembro de um ritual realizado na Mata Atlântica, com o cheiro da floresta, o murmurar de um riacho próximo, canto de cigarras, o vento nos galhos. Lembro da intensidade, da força que nos envolvia.

Percebi ali que não precisava de elementos simbólicos para representar aquilo que saltava ao nossos olhos. Será então que a receita mora na simplicidade?


Segurança & Privacidade

Conversando com a amiga Ludy sobre este assunto, ela me apontou uma solução interessante...

"Poderia ser somente as paredes e a porta.. Sem teto, sem pisos.. Mesmo por que acho que preservaria mais a privacidade dos rituais ali realizados... Sem precisar tirar nada e ter que guardar ou ficar mudando de lugar a cada ritual que venha a ser feito...

Poxa... e não é que é uma ideia original, essa? Vejam só que ela contempla tanto os que preferem um ritual mais reservado, longe de olhares curiosos ou coisa pior, e mantém o contato com os elementos como o sol, o vento, o calor ou frio, o dia ou a noite. Ainda é possível acender pequenas fogueiras, já que não há teto para restringir fumaça! Pode-se pensar em uma cobertura de vinhas, para nos proteger do sol mais forte no Meio de Verão

São bons pensamentos para se degustar, não?


Saúde, amizade, liberdade!

segunda-feira, 30 de março de 2009

DA DOMESTICAÇÃO


Não, não será da domesticação animal que tratarei aqui hoje, mas da domesticação de gente mesmo. Deve ser de conhecimento de vocês o livro "Mulheres que Correm com os Lobos", da autora Clarissa P. Éstes. Conversando sobre esta obra pelo MSN com a Lajlah Najua, eu me perguntei: haverá uma obra que atenda os homens para que eles também corram como lobos?

Acostumei-me a pensar no homem como gênero dominante sobre a Terra, mas na verdade o que temos é uma domesticação masculina também. Existem sim mulheres e homens dominantes, e homens e mulheres domesticados.

Não creio que haja opção para a Mulher Selvagem se não houver correndo com ela o Homem igualmente Selvagem. Não nos libertamos sozinhos: ou nos libertamos todos ou viveremos sempre nas sombras.


O Conhecimento

A Selvageria nos faz retornar a simplicidade das compreensões humanas, a verdade a a sinceridade de nossos pensamentos, sentimentos e corpos. Sempre ouvimos que as pessoas precisam ser francas umas com as outras. Mas o que é a Verdade senão a exposição daquilo que somos realmente? E quem quer ver o que somos realmente?

Nada mais perigoso hoje ao mundo repressor do que o buscador do YouTube. Mais de 1 bilhão de pessoas não podem teclar a palavra Tibet, sob pena de
prisão. Nada melhor para quem detém o poder que uma população bovina.

Seja na transmissão oral, seja nas prensas de Guttenberg, o Conhecimento é uma arma temida. Governos opressores sempre foram contrários que as populações tivessem acesso a duas coisas: armas e livros. Mas hoje as portas estão abertas e o saber humano nunca esteve tão acessível.

Mas veja: quem melhor conhece os caminhos da mata que um Selvagem? Cada rio para matar a sede, ou os caminhos das manadas, as estações de ficar e partir, o cheiro da chuva ao longe ou o pressentimento do inimigo. Quanto mais abrangente é nosso Conhecimento, mais Selvagens ficamos.

Há! É estranho afirmar que Conhecimento e Selvageria caminhem de mãos dadas. Será que selvageria é sinônimo de liberdade?


Reconhecimento

Não admitimos a Selvageria ainda: nem a nossa nem a do Outro(a), nem a da Terra. Não podemos mais voltar a um estado primitivo, onde vivíamos sob o efeito (maior) da Natureza. Mas ao mesmo tempo não podemos entrar em guerra com ela, seja dentro ou fora de nós. Criamos um Mundo sobre a Terra, um mundo de ação, fogo, asfalto e concreto. Mas não conseguimos sobreviver nele também, muitas vezes. Somos civilizados, rotineiros e se mudamos de rota só um pouquinho, o caos se instala, o medo se impõe.


As doenças do homem e as doenças de nosso Meio são fruto desta dicotomia, desse impasse de não podermos retornar ao nosso antigo ambiente e não conseguir viver satisfatoriamente neste que criamos.

Enquanto isso as clínicas psiquiátricas, as igrejas e balcões de bares tratam, cada um ao seu modo, com méritos e defeitos, dessas pessoas amedrontadas e incompletas por não se conhecerem, ou se negarem a se conhecer, que não querem descobrir ou liberar a criatura que mora dentro do peito.

Não é possível construir um lugar de equilíbrio com tal situação social.

Aproveite e leia também sobre o Novo Homem que surge no horizonte.

sexta-feira, 13 de março de 2009

DA REUNIÃO



Após um longo período de reclusão temos a alegria de informar que nossos encontros periódicos voltarão a acontecer no Bosque Maia. Sempre aos domingos no Espaço Gilmar Lopes, às 14h00.

Nosso calendário, e links interessantes:

Os eventos são públicos e com autorização da prefeitura Municipal de Guarulhos. Lembrando que sempre pedimos um quilo de ração para cão ou gato aos participantes, afim de reverter a ONG de defesa animal Deixe Viver.

Menores, sempre com autorização escrita dos pais para participação. Se eles vierem, melhor ainda: é mais uma parede que se quebra!

Entrem em contato para maiores detalhes!

Saúde, amizade, liberdade!


S.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

DA COMUNIDADE




Religião é sobretudo viver em comunidade. É através do encontro do Deus que mora em você que descubro a minha própria humanidade. O conhecimento que a Wicca acumulou durante todos estes anos, por exemplo, não nasceu de pessoas morando em cavernas, isoladas, mas daqueles que se juntaram em grupos e mergulharam em suas sociedades nas décadas de 50 a 90. E este conhecimento ainda está em construção.Se não vivemos em comunidade, qual será nosso destino e o da Wicca?


Questão difícil tenho que concordar, uma vez que há um movimento que diz que o Divino deve nos servir, como se fossemo crianças choronas. Há uma geração enorme de pagãos que reduz a religião a um balcão de pedidos pessoais, traduzindo a Wicca como um mero conjunto de Magias & Encantos. Ora, Religião é sacerdócio, e o sacerdócio é o oposto de pedir. É doar-se.

A busca espiritual é solitária em parte. Digo em parte porque toda a nossa vida é solitária a partir do princípio de que toda a dor, alegria, ódio ou desespero são nosso, que nos é impossível dividi-las com alguém. Tanto que, quando morremos, o fazemos sozinhos, mesmo que estejamos cercados de pessoas queridas ou estranhas. O Caminho da Vida é um caminho solitário.


Diagrama de Venn

No entanto, como seres sociais sempre buscamos companhia. O fato de termos nosso mundo particular, nossas buscas como indivíduos não nos impedem de casarmos, termos filhos, amigos, colegas de trabalho, times de futebol para bater uma pelada no fim-de-semana. Caminho da Vida é um grande Diagrama de Venn, rs! A matemática explicando as relações humanas!

Triqueta
Somos seres sociais em diversos aspectos de nossa vida, apesar de caminharmos sozinhos. Mesmo aqui e agora, buscamos este contato ainda que mal e tortamente. Afinal, um ritual wiccano no Second Life não chega perto de um ritual "na real". Um símbolo que resume bem esta quase separação é a triqueta. Estamos separados nas pontas, porém sempre nos unimos naquilo que nos é mais básico.

Eu senti um pouco deste senso de comunidade no Encontro dos 10 anos. É muito legal ver que os avatares do Orkut existem, são de carne e osso com seus corações batendo no peito. Apesar da minha, da sua e de outras caminhadas, é inegável que companheiros de viagem tornam-la mais enriquecedora.

Fica até mais difícil ter posições mais ríspidas com alguém que se conheceu pessoalmente, hão de convir.

É diferente quando estamos face a face com o outro. Ele existe, é uma pessoa. Eu senti. É um pagão como eu. Trinta e cinco mil pessoas estão adicionadas a maior comunidade pagão no Orkut, mas são números. O que conta realmente é o encontro, o beijo e o abraço. É isto que considero importante numa caminha espiritual. Não é assim que fazemos a tantos séculos? Sentirmos uns aos outros?

E quanto mais sentidos estiverem sendo usados, melhor. Visão, audição, olfato, tato, sabor. Rs!


Uma Experiência Pessoal

Em 1997 eu era do corpo diretor de um espaço cultural em minha cidade, Guarulhos. Sempre organizávamos palestras dos mais diversos temas. Nas reuniões periódicas, uma amiga sugeriu como tema do mês seguinte O Sagrada Feminino.

Fui encarregado de trazer os dois palestrantes de São Paulo, pois eles pouco conheciam a região. São eles os sacerdotes Vagner Périco e Claudia Hauy. Não fora uma palestra usual, pois poucas vezes tivemos lotação esgotada. Tanto que eles voltaram a cidade mais duas vezes em um espaço de um ano.

Nesta primeira palestra conheci não só estes dois grandes bruxos, como também três bruxas de minha cidade. Aliás, estou casado com uma delas a nove anos! Somos os padrinhos mágicos da filha de uma delas.

Ainda nos "10 Anos de Bruxaria" reencontrei o Vagner. Em retrospectiva, com minha esposa, minha comadre e afilhada, um nó nasceu em minha garganta. Percebi o quanto a Bruxaria estava inserida em meu cotidiano.

Nós em Guarulhos ainda nos reunimos magicamente a anos, e desde 2003, fazemos o Encontro Sobre Bruxaria em Guarulhos, sempre com o apoio da prefeitura municipal que nos cede um anfiteatro para nos reunirmos.

Longe destas pessoas minha busca espiritual seria pobre, pois poucos livros conseguem traduzir o prazer que é a comunhão entre os pares.

Lógico, nem tudo é paz e amor. Já tivemos brigas titânicas. Com gritos, lágrimas e o escambau. Mas há este laço, isto que nos une. Talvez porque sabemos que somos poucos e raros e então temos que cuidar uns dos outros. Afinal, quando eu morrer, quem fará os ritos fúnebres?

Concordo que sou fruto de um outro tempo. Quando tinha 15, 18, 25 anos, manter contato com outras pessoas em tempo real sem sair de casa era algo fora de meus padrões.

Hoje é possível faze-lo com 31.000 pessoas, dentro de certas limitações, é claro. Mas como disse, sou fruto de outro tempo, em que uma abraço vale mais do que o número 31.000 na tela de LCD do computador.

Já disseram que a caminhada espiritual é solitária. No entanto, isto foi dito para outras pessoas ouvirem. Nada mais natural: por mais ilógico que pareça, precisamos do outro para afirmar nossa própria existência, afirmar ao outro que não precisamos dele para seguir nosso caminho. E do Divino dentro deste outro, talvez a única resposta que temos em nossas preces noturnas.


Saúde, amizade, liberdade


Sergio Thot.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

DO PAU-DE-FITA








No ano de 2007 a prefeitura de Guarulhos convidou uma conhecedora em Danças Circulares, Vaneri de Oliveira, para ministrar workshops aos domingos na Tenda do Bosque Maia, na região central de Guarulhos. O lugar era aberto e qualquer um poderia participar da atividade mas poucos adultos, incluindo nós do Semente, ousavam dançar em roda.

Sim, a exposição a algo que poderia ser ridículo deixava muita gente à margem. Em muitos o olho dizia sim mas o corpo não obedecia ao impulso primitivo de dançar e ser um pouco mais solto e feliz. A única expressão possível a estas pessoas era um leve sorriso de escárnio.

De minha parte reconheço que o contato com a dança faz uma ponte com outra forma de percepção de meu corpo, fazendo movimentos com as articulações que jamais se realizariam na vida cotidiana.


A dança sempre teve um papel importante no quesito conhecimento do corpo, seja do seu, do outro/a,  seja da comunidade. Bailes sempre reforçaram a solidez dos grupos, reatando os laços da comunidade. Muitas vezes possuem até um caráter utilitário, como nas construções de casas em algumas regiões do mundo. Dança-se para criar um chão de terra batida, afim de fazer o piso onde será erguida a futura residência. Não é interessante?


Quer dançar?
 

Em um Certo Beltane

Entre nós temos as danças de pau-de-fita nos dias de Beltane, em finais de outubro, trançando e destrançando sob o sol brilhante. Tenho a lembrança de uma destas danças, feitas com número ímpar de participantes, no Parque do Carmo. O ideal era que o número de celebrantes fosse par, mas seria inviável deixar alguém de fora por causa de um detalhe técnico.

E durante o trançar e destrançar nos enroscávamos e ríamos como crianças novamente! Porque rir é fundamental quando as coisas parecem dar errado. E porque ríamos de repente tudo parecia fazer sentido e entramos sem querer em um estado mental diferente. Os risos deram lugar à contemplação.

Não sei o que os outros sentiram mas eu me senti levado no tempo e no espaço e depois somente girava e girava como fazem os planetas em torno do Sol. Era a própria Dança Cósmica que reproduzíamos ali. E quando finalmente terminamos, esbaforidos e felizes, tínhamos a profunda certeza de que chegamos onde deveríamos chegar.

Para cuidar e amar o corpo, temos que reconhece-lo. Seja o corpo da Terra, seja o nosso. Então dancemos!!!


quarta-feira, 26 de março de 2008

DA "COISIFICAÇÃO"



Quando uma madeireira entra em uma floresta, vê toras de madeira, custos de transporte, pessoal e lucros. E quando um pagão entra na floresta, o que ele vê?

A coisificação é o processo metal que visa tornar algo insípido, sem rosto ou forma com o intuito de extrair dele benefícios sem que com isso hajam sentimentos de remorso. Não raro as pessoas tentam nos tratar como degraus das escadas para seu próprio sucesso, não importando sexo, credo, etnia, idade, situação social ou econômica. A possibilidade de sermos usados, ou coisificados, é muito grande.

O Grupo Semente Sagrada passa por este processo atualmente, motivado por um de seus ex-membros. Nosso grupo deve a sua existência a criação, vontade e esforços coletivos. Mas esta pessoa, no intuito de tomar posse do grupo, registrou o logotipo na Biblioteca Nacional. Esse ex- membro acha que pode tomar conta das coisas entrando na justiça.

Este ex-membro nos coisificou e se tornou aquilo que mais afirmava detestar, tudo em nome da posse de algo que não pode ser contido, pois o Semente não é algo material, palpável, mensurável. O Semente Sagrada é sobretudo um sentimento que nos une, não um nome ou logotipo. Esta pessoa se perdeu, envenenou e dividiu pessoas, tentou criar um clone do Semente que não vingou, brigando com as pessoas que ele convenceu e agora está só com sua posse preciosa, seu documento oficial.

Isto lembra a história de nosso país, onde o colonizador português achou que era dono da terra só porque os índios não tinham escritura de Pindorama. Ou dos quilombolas atuais, que travam guerras jurídicas e de sangue para provar que moram aonde seus antepassados construíram suas casas.

Lamentamos por ele e outros como ele que não reconheçam a necessidade de compartilharmos as coisas e saber que nem tudo pode ser feito segundo a nossa vontade todo o tempo, pois não somos indivíduos, mas sócios nesta nave. E precisamos cooperar e respeitar e abrir mão para dividir.

Provavelmente este texto vai criar novas situações de conflito, algo que sempre prefiro evitar. Sempre imaginei que travaria batalhas com pessoas reconhecidamente danosas à sociedade, e este não é o caso.

Não quero fazer do Semente um prêmio, pois o grupo, repetindo, são as pessoas. Envolvi-me no ambientalismo por causa das pessoas,e não o contrário. As pessoas não são degraus. O Semente Sagrada não é uma coisa que se possa ter posse jurídica.

Ninguém pode comprar as estrelas no céu. Que presunção!

Mas sou seguidor de Thot, aquele que conta o tempo, e sei esperar. E sei que em breve todos nos sentaremos em uma grande mesa, a princípio constrangidos, mas os velhos laços se reatarão e os risos voltarão aos nossos rostos. Então comeremos e beberemos à saúde uns dos outros como sempre fizemos desde os tempos imemoriais, e faremos até que a última galáxia enfim se apague.

Afinal, a Roda Gira!

Que Assim Seja!

Nota: se deseja montar uma ONG, siga estes passos!

domingo, 23 de março de 2008

SOBRE NÓS, QUE NOS AMÁVAMOS TANTO...





Em 2005, quando a Paula me convidou para participar do grupo Semente Sagrada, cuja a idéia ainda estava fresca e nem este logo existia, animei-me. Sempre acreditei que nós não somos indivíduos, mas sócios de uma mesma realidade, que vivemos em uma sociedade. Motivado por este pensamento participei de grêmios, associações comunitárias, espaços culturais, sindicatos.
Nestes locais aprendi muito sobre as pessoas e suas formas de organização, e me ensinaram que há dois tipos de membros: os que pisam no barro e os que não pisam. "Pisar no barro" é uma expressão que indica se a pessoa em questão sai da sede, da sala de reuniões, do conforto de seu computador e de sua vida diária para realizar algo em nome do coletivo lá fora, no mundo real.


E agora, o esporte


Então aprendi a olhar as coisas de outra forma. Durante as assembléias estudantis, por exemplo, enquanto os alunos dividiam-se em grupos e gritavam palavras de ordem uns contra os outros como se fossem adversários (como se não tivessem um inimigo em comum), nos bastidores seus líderes já haviam acertado os acordos.
Se havia um fórum adequado para isto, por que a grande massa é retirada do processo? Logo cedo aprendi é possível usar em situações uma cortina de fumaça e escândalos encobrir nossos olhos e não nos deixar ver o real. No telejornalismo, quando há notícias pesadas, não raro entra na seqüência delas a chamada da sessão esportiva afim de desvirtuar o tema da mente, torna-la distante. Escândalo e esquecimento, lembrem-se desta fórmula.


Gente que faz


O gosto geral pelo escândalo faz a alegria de muita gente que deseja chamar a atenção primeiro e propor depois. Nossa longa história política é uma prova cabal disto. No entanto, as pessoas que pisam o barro não aparecem nas manchetes. Enquanto do sofá as pessoas brigam com o monitor de TV, quem faz continua fazendo com pouca ou nenhuma ajuda das pessoas que se dizem indignadas com o rumo das coisas. Atente para o número de queixas que se ouve todos os dias, seja no seu emprego, em sua casa, no ônibus. E algum dia de muita coragem, peça para o reclamante propor soluções.
A probabilidade de ouvir um "ah, isto não tem mais jeito" é muito boa. Há muitas organizações e pessoas que se oferecem para auxiliar a sociedade em seu possível (às vezes até no impossível) e que necessitam de ajuda, muita ajuda. Fazem o mínimo por só possuírem o mínimo para continuarem suas atividades. E somos uma nação de 180 milhões, onde boa parte não conta com o necessário para viver. Por que não se levantam, por que não despertam?


Quanto pior, melhor!


Esta sempre foi a pergunta que não queria calar. Na UGES, no MTST, no Espaço Cultural Florestan Fernades... Mesmo no Semente Sagrada nós nos perguntávamos isto. E a resposta é estupidamente simples: as pessoas em geral só lutam por ganhos rápidos, ou na resolução de problemas imediatos. Uma vez cessada a necessidade, retornam ao su estado de repouso.
Ora, então é só criar e administrar um problema para dominar as pessoas então! E lógico, possuir ou aparentar ter a solução. Daí é só ser o pastor das ovelhas! Uma vez que nos damos conta disto, há um dilema moral em questão: esclarecer ou dominar.


Medo


O domínio se faz pelo medo, pela ignorância, pela obediência cega, por meias palavras, pela ironia, pelo sarcasmo, pela voz de comando, pela exposição ao ridículo, pela autoexaltação, pelo grito, pela fome de poder, pela arrogancia, pela quebradeira. Nunca a educação usará destes expedientes pois o aprendizado se faz pela ação-reflexão-nova ação. O poder nos força a engolir, enquanto a educação nos convida a absorver nossa realidade.
O domínio, o poder-sobre usa do medo principalmente para manter-se no poder. Faz-nos ter medo do outro, do desconhecido e se mostra não como companheiro, mas um Grande Pai, detentor de todas as respostas e defensor dos fracos. Para tanto é preciso eleger alguém como Devastador, Destruidor, Mentiroso.


Fogueiras


Vocês lembram, não? Há algo em nós que estava lá, que ardeu nas fogueiras sem que ao menos tivéssemos a defesa necessária em um fórum adequado. E todos os que se pronunciavam à nosso favor estavam dominados, eram usados. E iam para a fogueira também.
O medo do outro já queimou muitos. E as chamas ainda ardem.


Grupo?


O que é um grupo? Não é seu registro em qualquer orgão, ou sua existência em um site, ou um prédio que o caracterizam. É como perguntar o que é uma família. Um grupo é o laço que os une. Este laço pode ser de interesses, ou de amores. No Semente, tínhamos os dois.
Depois do convite feito, passamos a trabalhar segundo nossas convicções e interesses. Mas como era de se esperar quando se convive muito tempo com poucas pessoas, nos gostamos uns dos outros (Ia escrever "aprendemos a gostar", mas isto não se aprende ou força. Nasce ou não).

Dividíamos o pão, o suco, o vinho, o espaço sagrado, o beijo e o abraço.
O Semente nascera como organização neopagã ambientalista, mas se tornara também um local de beber. Beber de algo que nos permitia exercer nossas atividades em nossa vida cotidiana. Assim como uma mãe não amamenta por ser um dever, nossos esforços coletivos e individuais não eram apenas uma questão ecológica. Pois se assim o fosse, não resistiríamos por muito tempo, dada a enormidade do projeto e da escassez de apoio. Seguíamos porque amávamos e amamos o que fazemos, e uns aos outros. O amor sempre foi nossa cereja do bolo.


Papel & realidade


Sempre acreditei, como pessoa sensata que acho que sou, que a realidade define nossos passos. Em dado momento de nossa caminhada dividimos algumas tarefas e estabelecemos algumas diretrizes, ação necessária para fazer do grupo uma entidade jurídica reconhecida.
Mas a realidade define nossos passos, e isto nunca concretizou-se por questões várias como recursos e principalmente, pessoas engajadas. Contatamos tantas pessoas, mas seu número flutuava bastante, seja nas reuniões, nos encontros anuais, nos rituais públicos.

Esta era nossa realidade.
Aos poucos, mesmo os membros mais antigos afastaram-se, pois a vida chamava para outras batalhas, e era preciso definir aonde concentrar forças. Havia o papel e a realidade. Havia a lei e o amor, e quem me conhece sabe que sempre fui um chato para isto, mas no Semente (e na vida em geral) obtive novas lições. Como reger pelo papel pessoas de quem eu gostava em um grupo tão reduzido?


Alguém tem que ficar


Como membro mais antigo, fiquei a cargo de manter viva a chama. A realidade define os passos...
Com a ajuda de dois membros mais novos, durante o ano de 2007, enquanto os outros lutavam suas batalhas e eu trabalhava (no trabalho, lutando contra a mentalidade de desperdício de insumos como querosene, óleo hidráulico e afins para evitar que parassem na rede pluvial, e recebendo respostas como "E daí, a firma não é sua)", estudava em duas escolas (inglês técnico e mecânica para aviação), "ralava" para passar na prova da ANAC (passei!!!!, e vem mais três por aí!!!), auxiliava meus amigos do Educafro nos finais de semana, administrava as atividades do Semente Sagrada da melhor maneira.

Os que se afastaram do Semente, quando suas atividades assim permitiam, participavam dos rituais abertos, mas muitos não vimos por meses. Mas não precisava vê-los para saber que nossos princípios regiam seu dia-a-dia como regem o meu.
Esperava que, à medida que a corda se afrouxasse em suas vidas, retomassem seus lugares ao mesmo tempo que através de meus textos, combinado o melhor de nós que a religiosidade e a defesa ambiental, sensibilizar e educar minimamente os membros virtuais mais novos desta comunidade. Meu foco sempre fora este, e o amor pelas pessoas e por aquilo que o grupo representa em suas vidas era meu motor. Nunca questionei, acho, a Bia e a Anne, mas creio ser este combustível de suas vidas também. Afinal, que poderes tenho eu sobre as pessoas?


A realidade define os passos...


Recentemente recebi um comunicado do Regis pedindo a comunidade de volta. Ficara feliz com o contato, pois eu não via falara sobre o Semente Sagrada desde sua partida, meses atrás.
Mas havia algo errado... Ele não fora amistoso comigo, foi quase uma ordem. Estranhei o fato, pois não era assim que nos tratávamos. Coloquei-o como mediador movido pelo instinto. Havia algo errado... Pretendia fazer como sempre fazemos: sentar para conversar, todos juntos, até porque também devo respostas às meninas, mais até do que a ele, uma vez que elas estão comigo desde então. Foi quando começaram as postagens.

Alegando "estática ou inércia" na comunidade, chegara de forma abrupta tanto aqui como em outras comunas. Só que lá suas palavras não foram tão bem acolhidas...
Não entendi bem o termo inércia, se era no mundo real ou no virtual, se era em nível individual ou coletivo... No virtual, obviamente, só se pode escrever... e apesar das minhas atividades minhas postagens são regulares. Aliás, por pudor até, evito colocar muita coisa que penso para não centralizar a palavra sobre mim e estimular outros a escreverem também. Lembre: no mundo virtual do Orkut só é possível escrever. E o Orkut aceita tudo.

Confesso que o número de pessoas participando das atividades mínimas do Semente é bastante reduzido comparado ao número de membros virtuais. Mas nada diferente de nossa realidade, não? Os membros mais antigos devem lembrar de noites varadas a recortar convites, preencher à mão centenas de cartas, colar e selar, e rodar a cidade para coloca-las à tempo no Correio. Se todas as pessoas contactadas viessem... Mas sempre ia algo de nós nelas, algo de profundo, e sei que enquanto durou esta forma de comunicação, que algo se alterou na mente dos que as receberam.


Como sei?


Além da luta pela mudança de mentalidade que empreendo onde trabalho, sei que Paula faz o mesmo em sua escola de educação infantil, que Cibele sensibiliza suas crianças não só pela música, mostrando-as uma nova forma de ver a realidade, mas também pela confecção de brinquedos a partir de sucata. Anne em sua casa realiza compostagem no plantio de hortaliças e Bia provoca mudanças no enxergar dos animais que chamamos de alimento. São pessoas profundamente envolvidas com a educação e ação, onde o Semente contribui com algo nestes anos.



É curioso


Tudo o que é preciso fazer e sentar e conversar. Mas há quase dois meses vejo pessoas repetindo "vamos fazer, vamos fazer", sendo que coisas já são feitas. Não do modo que queriam, é verdade. E nem do modo que pensei, tenho que admitir, mas a realidade determina os passos...
Não atendo a provocações. Quem me conhece sabe que, para eu fazer algo, basta pedir. No entanto, depois de 3 anos de vida virtual, meu primeiro ataque no Orkut veio de pessoas de meu círculo de amizades. Gente que, como a Libéria, mora a duas quadras de minha casa e mais de uma vez topei na rua enquanto ia ao mercado comprar café da manhã. Nosso Grupo sempre conversou, e nossas conversas são no olho-no-olho. Por que tudo se modificara?


Sarcasmo, ironia


Respeitando a história destas pessoas no Grupo, as vi dilapidando não só o respeito que o Semente ganhou nestes anos, como sua amizade com os demais membros da comunidade virtual e dos membros do grupo.
A satisfação de pertencer a algo puro se desfez. Agora éramos iguais a todos os outros. A chama se apagara e eu fiquei no escuro.

E no escuro estou até agora.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

DO GLAMOUR


Glamour... Com certeza você conhece este termo que, até pouco tempo atrás eu achava ser de origem francesa. Mas pesquisando, descobri que sua origem é grega, passando pelo latim, francês e inglês. E esta deriva do termo
grammar, a mesma raiz da palavra gramática. "E daí", pode você pensar... A história não termina aqui.

Livros & magia

Na Idade Média européia poucas pessoas sabiam ler e escrever. O povo via com assombro os clérigos católicos traduzirem o som em sinais gráficos e tinham aquilo como sobrenatural. Logo, tudo ligado ao grammar era oculto, misterioso.

Grammar em escocês escrevia-se com a letra L, ficando então glammar. A língua, como todos sabem, possui vida própria e ao longo dos anos e grammar tornou-se glamour, que também significava feitiço.

A magia de glamour nos chega em uma obra muito conhecida do círculo pagão: As Brumas de Avalon, onde Pendagron toma o lugar na cama do Duque de Gorlois graças a vários elementos reunidos, além da magia de Merlin. Me ocorreu ainda outra obra, do escritor Humberto Eco, chamada "O Nome da Rosa", sobre o poder da palavra. Se não leu, recomendo.

Mas além do glamour como ato mágico, há também uma condição humana que envolve status, poder e fama

Narciso

Em muitos cultos multidões se reúnem em adoração a um sacerdote em específico, as vezes viajam quilômetros para participar de seus rituais vistosos. Como lidamos sobretudo com a emoção, não é raro que isto aconteça, este apego a uma personalidade mais aparente. Mas temo que isto aconteça na Wicca, apesar de seu caráter descentralizado.

Curiosamente o que mais auxiliaria esta guinada é o grande número de wiccanos solitários. Muitos por opção, pois não "conseguem trabalhar magicamente em grupo", apesar de viverem em uma sociedade gigantesca e complexa a maior parte de suas vidas.
Não vivem em comunidades, mas participam em encontros com dezenas de pessoas em datas específicas (senão raras) e compartilham duas ou três horas, voltando sozinhos para suas casas.

Não há assim vínculo com grupos próximos ou com a terra onde vivem. De certo modo, estariam "desconectados".
O que os une é esta figura carismática. Nestes casos, o glamour pode ser nocivo pois o foco de toda esta energia não é a comunidade, mas o indivíduo.

Máscara
Voltemos ao glamour como ato mágico. Tomando os fóruns das comunidades sobre Wicca e Bruxaria do Orkut como referência, as pessoas desejam ter a magia do glamour como uma máscara. Ou, na pior das hipóteses, como uma forma barata de maquilagem. Como os motivos para desejar aprender esta prática mágica quase não são revelados revelados, só se pode especular seus propósitos.

O problema do glamour é que dura pouco, não é resistente a dura realidade. Uma imagem precisa de uma base firme para sustentar-se. Sem ela, tudo ruirá como um castelo de cartas. Esta é a natureza do glamour, efêmera. E, em algum momento, o elástico se quebra e a máscara cai. Que o rosto embaixo lhe tenha servido de molde!

Acredito que nossa religião tenha que ser profunda no conhecimento, mas simples no trajar. Athames de prata e túnicas púrpuras são vistosos e fazem parte do imaginário pagão, mas não é isto que a Wicca representa. Nem tão pouco centrar-se sob duas ou três figuras, para que aquilo que dizem não seja dogma, mas pensamento passível de verificação.

Saúde, amizade, liberdade.

E, já que estamos no carnevale uma marchinha despretensiosa, só para quebrar qualquer efeito glamouresco que este texto lhe causou.

sábado, 28 de julho de 2007

OS TRÊS MAIORES AMIGOS DO GRUPO DE ESTUDOS




Para entender o que é um grupo de estudos, precisamos antes compreender o que é um corpo. Um indivíduo, a grosso modo, é a menor porção de uma consciência. O corpo e sua consciência, porém, são feitos de corpos menores e consciências menores.

Afinal, quando pessoas de diferentes idades, locais de nascimento, famílias, sexos e opções sexuais diferentes decidem compartilhar ideias, tempo e ações juntas, algo terceiro acontece.

Você, por exemplo, não é este corpo. Você não enxerga com os olhos, ou ouve com os tímpanos. O que define quem você é, como reconhece e como se relacionar com o mundo, em essência, é sua consciência. É a consciência que determina sairmos de um estado "inanimado" para um animado.

Quando estamos separados de nossos órgãos internos e das sensações de nosso corpo, estamos inanimados, inconscientes. Onde está seu pé esquerdo agora? E o direito? Você tinha consciência de sua postura na cadeira até esse momento? De certa maneira, estávamos inconscientes.

Em nível grupal, algo parecido acontece. Primeiramente estamos "desmembrados". Somos partes que se encaixam, porém separados por muitos fatores, totalmente ignorantes uns dos outros. Mas uma força nos faz emergir. Uma série de motivos e possibilidades que nos dá esta visão mínima do "eu, pagão". E, como geralmente somos/nos sentimos incompletos, buscamos a companhia de outros/as que sejam afinados conosco, como as cordas de um violão.

A comunicação moderna nos possibilita um feito surpreendente: nos conversarmos em tempo real com pessoas distantes, seja pelo tempo, seja pela ignorância de que elas existam, mesmo que morem na rua de trás ou na cidade vizinha. Mas saber que elas existem não basta para muitos, nem vê-los em uma foto: precisamos de seu toque e do som de sua voz fora de uma caixa de som. Então decidimos nos encontrar.

Quando o encontro é marcado e todos comparecemos, é como o amor. Primeiro nos reconhecemos, nos medidos para saber onde nos encaixarmos. Nos testamos, como as crianças testam os pais até descobrirem o que os zanga e os alegra. Cada abraço e cada beijo são calculados. Mas isto dura pouco, pois nossas afinidades nos unem e as máscaras caem por terra. Então é a alegria do encontro e a descoberta que nem sempre o parentesco é fruto do sangue.

Com o passar dos tempos &  encontros, as relações se assentam e os grupos de afinidades se formam dentro deste corpo, assim como órgãos dentro dos corpos se unem para desempenhar funções comuns. Mas estes pequenos grupos precisam de um fio condutor, um regente para a orquestra. E a orquestra precisa de um porquê para existir.

Portanto, acreditando nisso, escrevemos sobre os três grandes amigos de um grupo de estudos, o que determina seu porquê. Espero que gostem do texto e que seja válido.


Disponibilidade

Um dos motivos pelos quais as pessoas não se juntam é a disponibilidade de se reunirem todas em um mesmo lugar, numa mesma data e hora e por um número x de tempo. Coisas como trabalho, escola, família, namorada/o são motivos para a ausência nas reuniões.

Bem, o tempo deve ser bem pensado, pois a primeira etapa de um grupo de estudos é a definição de dia, horário e locais para reunião. E estes devem ser respeitados. Se um membro falha, o grupo sofre, pois nos reunimos em círculo e a corrente não pode ser quebrada. Dias e ou horários diferentes podem ser pensados, com se formássemos turmas dentro de uma escola. Sei um dos motivos implícitos é o contato humano, vermos uns aos outros, mas o motivo, o objetivo primal do grupo de estudos... é estudar!


Capacidade

Não tem jeito: são necessárias informações se quisermos dar continuidade a um grupo de estudos. É preciso descobrir o cada um sabe e tem em sua biblioteca. Os temas podem ser por assunto (oráculos, signos, panteões) ou por livros.

Pessoalmente considero o estudo feito a partir dos livros mais abrangente, pois diversas opiniões podem ser feitas a partir de um mesmo capítulo. Afinal, nem todo mundo pensa igual. E o inverso poderia acontecer: todos concordarem em um ponto e descobrirem que aquilo que pensam está em harmonia com o grupo.


Para isso, seria necessário que todos tivessem acesso a informação, seja pela distribuição de xerox ou cópias digitadas, seja pela compra do livro por todos. Em um grupo grande, o mesmo livro pode ser comprado por todos diretamente da editora e ter assim seu valor abatido. Enquanto estudam aquela obra, podem juntar dinheiro e passar a escolher o próximo título.

Sites também são importantes fontes de informação.



Responsabilidade

Aqui a linha traça sua espiral, se sobrepondo ao primeiro tópico. Se não nos responsabilizamos pelo grupo, ele definha e morre. O grupo não é o número de pessoas que estão nele, nem as pessoas que o deixaram, mas aqueles que se reúnem para estudar e dividir informações. Isto eu aprendi isso no Orkut, onde "comunas" têm milhares de pessoas, mas elas ficam lá, olhando, e não participam das conversas. As "comunas" são movimentadas mesmo pelos gatos-pingados que trocam ideias sobre a vida e o mundo, que não chegam a 5% do total.

Ao formar um grupo, qualquer grupo, seja de estudos, para coven, empresa, grêmio estudantil, infelizmente não contaremos com o apoio da "grande massa". Não foque sua atenção aí: mantenha a porta aberta, mas não os obrigue a entrar. Eles o farão na hora certa. Preste atenção nos que ficaram e precisam de você. Esse é o grupo de estudos. São estas pessoas que são a fonte de sua força.

Que assim seja!

domingo, 15 de julho de 2007

DO PERDÃO




Escrever sobre o perdão se revela tarefa difícil. O conceito do perdão para mim lembra algo relacionado a dieta, pois temos que restringir em nós o consumo do rancor viciante. Afinal, é tão conveniente o papel de vítima e beber deste fel tóxico. A vítima é passiva por concepção, incapaz de prever ou reagir diante das injúrias feitas pela vida. A vítima se encolhe no canto e chora.


O papel de vítimas já não cabe mais na Humanidade, pois temos, sempre tivemos, a necessidade de tomarmos conta de nossas vidas mesmo nos piores momentos. Temos a obrigação de nos defender das violências do mundo. Vitimismo também nos leva a ações como vingança quando surge a oportunidade. Nações inteiras entram e permanecem em guerras porque não sabem perdoar em coletivo coisas que aconteceram no passado, seja recente ou não.


Conflitos nascidos de razões históricas como os da Iugoslávia e Ruanda são provas de como o ato de não perdoar pode levar populações inteiras a mortes horríveis, onde vizinhos golpeiam uns aos outros com facões ou armas leves, invocando  dores de um passado que não viveram.


O que é perdoar?




Perdoar não é oferecer a outra face. Isto é ser vítima! Ser perdoador significa afirmar que também fomos e somos sujeitos na história. Que quando acontece com o outro é uma crise, mas conosco é um desastre. É neste ponto que somos tentados a dizer por conta de nossas supostas fraquezas - oh, o que fiz para merecer isto? Ao invés disto devemos ter posição ativa. Descobrir que somos o ator e autor de nossa história. E como tal temos nossa cota de responsabilidade. Nós não somos figurantes. Não somos parte do cenário ou paisagem. Não somos máquinas. Não somos objetos. Não somos indefesos. Não somos vítimas! É preciso perguntar sempre - qual meu papel nisso tudo? 


O poder do perdão não serve só para o outro, mas para nós também. E é em nós que ele atua de modo mais benigno. O perdão lava nossa alma, consertando nossas asas. O perdão nos torna mais leves. Sem ele sempre recordamos das injúrias. Recordar injúrias nos impede de raciocinar. Recordar, do termo recordis, lembrar com o coração, a morada dos sentimentos. Como viver bem se em nosso coração estamos afogados em dor?


Perdoando tiramos a violência somente do coração, não da lembrança. Precisamos da lembrança na mente para evitar novo erro. Afinal, quem não conhece a sua história esta fadado a cometer os mesmos erros. Mas é no coração que mora a fé, e nela depositamos nossa decisão de trabalhar no presente para alterar o futuro. 


Perdoar é aquilo que nos abre ao novo de novo, pois cada experiência é única, cada vida é especial. E atenção:  o mundo não pára para que possamos lamber as feridas, já que a fila continua andando. Até porque são poucos os que gostam de cessar seu caminhar para ouvir o rancor alheio por muito tempo. As pessoas que gostam de nós nos apoiam, mas rancor é um fardo por demais pesado para carregarmos, mesmo que estejamos em grupo. Logo somos convidados a deixar o peso inútil para trás... ou sair da fila.


É perceptível também o poder deste sentimento no corpo e na mente: nossa pele envelhece, os olhos afundam, órgãos internos sofrem. Surgem as doenças psicossomáticas, aquelas de origem emocional. É um suicídio lento.


Um veneno auto-induzido, sadicamente ministrado. Uma agulha que injetamos diariamente com substâncias que trazem de tudo para a nossa vida, menos bem-estar. 


Seu corpo é um templo, você já deve ter ouvido falar muitas vezes. Pois é... está na hora de limpar este prédio. Tire o lixo. Perdoar é faxinar o coração.


Saúde, amizade, liberdade.




Sergio Thot.